Kobra, o artista por trás de muralismos famosos em todo o mundo - São Paulo São

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Ele já pintou painéis na França, Estados Unidos, Reino Unido, Canada, Rússia, Grécia, Itália, Suécia, Polônia e Suíça, mas sua história começou no Campo Limpo, em São Paulo.

Outra madrugada de insônia. O mais importante artista plástico do Brasil na atualidade pula da cama, pega o carro e sai pelas ruas de São Paulo. A cidade é sua galeria. Os edifícios e muros são suas telas. O hip-hop e o chumbo correm nas suas veias. O muralismo existe desde a era paleolítica.

Artistas pintando em grandes espaços ao ar livre estavam presentes nas civilizações clássicas da Grécia, Egito e Império Romano. Giotto, Michelangelo e Leonardo da Vinci foram muralistas. Na década de 1920, a arte floresceu no México especialmente com seu maior representante, Diego Rivera. No fim do século 20, se espalhou por Nova York na onda do hip-hop. É a arte fora da galeria, para todos e qualquer um. Kobra é um muralista. Mas o que ele faz ganhou um nome mais contemporâneo e universal: street art.

O garotinho Carlos Eduardo Fernandes Leo, nascido (em 1976) no Campo Limpo, bairro periférico de São Paulo, nunca foi bom aluno. Seus cadernos – não importa a matéria – eram só desenhos. Ao mesmo tempo, o menino não aguentava ficar em casa. Percebeu que sua arte precisava de espaço.

Juntou a arte e o chamado da rua participando, no fim dos anos 1980, do grupo Jabaquara Breakers. Enquanto os garotos dançavam o break, Eduardo sacava o spray e pichava onde podia e onde não podia. Queria apenas espalhar seu nome cada vez mais longe, marcando território. Seus pais não gostaram nada daquilo. “Grafiteiro” era sinônimo de vagabundo. Dava cadeia. Mas as pichações toscas evoluíram para ilustrações cada vez mais sofisticadas.

Como Carlos Eduardo era muito bom no que fazia, era chamado de “cobra”. E assim virou o Kobra. Sempre caminhando no limite da lei. “Eu já fui bem radical. Já fiz parte de um movimento de rua em que lidava com as coisas de uma forma muito agressiva. Tudo eu queria descontar na base da violência.”

Numa noite de 1990, Kobra vivia a fúria dos seus 14 anos pintando os muros de um acesso à Avenida Paulista. Uma viatura apareceu e ele foi levado com outros grafiteiros para a delegacia. Era dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo. O delegado avisou: eles iriam esperar o fim de jogo de pé. Se a Seleção perdesse, permaneceriam detidos.

“Nunca torci tanto pelo Brasil”, lembra Kobra. O Brasil ganhou. O delegado não só liberou o adolescente como reconheceu seu talento e o convidou a pintar um mural na parede da delegacia: um anjo aparando um policial ferido. (Por falar em futebol: Kobra é corintiano. Mas traumatizado. Achou que estaria bem num ônibus que levava a Gaviões da Fiel para um jogo no Pacaembu. Alguém no ônibus inventou que ele era são-paulino. Levou uma surra de alvinegros como ele. Hoje não quer saber muito de futebol. E cruza a rua quando vê uma torcida organizada.)

Por  Dagomir Marquezi na VIP 

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