Dorina Nowill inspirou Mauricio de Sousa a criar Dorinha e agora ganha documentário - São Paulo São

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Em 2004, a Turma da Mônica ganhava uma nova personagem: Dorinha. Por acreditar que histórias em quadrinhos também são responsáveis por educar, o cartunista Mauricio de Sousa decidiu criar uma personagem para sensibilizar as crianças sobre deficiência visual. O surgimento de Dorinha na Turma da Mônica se deu em uma história emocionante, na qual Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão e Marina são os responsáveis pelas boas-vindas à nova amiguinha. A forma como Dorinha aparece na história diz muito sobre a essência de sua inspiradora: Dorina Nowill.

Dorinha surge deslumbrante, com roupas fashion, corte de cabelo moderno, óculos escuros, segura, em uma das mãos a bengala e, na outra, a coleira do seu cachorro Labrador de nome Radar. Extrovertida, de fácil amizade, quer brincar o tempo todo e surpreende a todos por suas habilidades; tem sentidos aguçados como tato, a audição e o olfato. Nos vários figurinos que Dorina aparece nas histórias ela está sempre ativa, faz natação, pratica judô, é esportista, joga futebol e sempre tem um sol sorrindo perto dela.
 
 
Ilustração da personagem Dorinha de Maurício de Souza praticando esportes. Imagem: Divulgação.

Para Mauricio de Sousa, Dorina era uma líder, uma mulher que perdeu a visão quando muito jovem, mas não se abateu, enfrentou o problema e foi e é um exemplo de força de vontade e simpatia. Quando a conheceu, chamou a atenção de Mauricio a falta de preconceitos de Dorina (para com os videntes), além de sua elegância. “Tirei da Dorina tudo para Dorinha”, conta Mauricio de Sousa no documentário “Dorina – Olhar para o Mundo“.

A Dorina da vida real nasceu em 1919, como gostava de frisar, perto da avenida Paulista, apenas dois anos após a Grande Guerra Mundial. Teve uma infância saudável, com boa relação com pais e irmãos, aprendeu a ler muito cedo, antes dos cinco anos, e a leitura sempre foi sua paixão. Aos 17, recém-saída, do Externato Elvira Brandão, sofreu a perda da visão. Diante da deficiência, transformou os obstáculos encontrados em causas de luta de seu trabalho e aprimoramento da sua vida profissional. Foi a primeira professora cega do Brasil, em 1945. Mas antes, foi necessário sensibilizar a diretora da Escola Caetano de Campos da importância de sua formação. E lá fez muitas amigas que a ajudaram na causa, por muito tempo, tornando-se parceiras de uma vida.
 
No documantário, suas amigas não esquecem de comentar do seu gosto por roupas em harmonia, cabelo sempre bem cuidado e de gostar de óculos com design contemporâneo. Chega a ser cômico um momento no qual ela descreve a cor gelo para a entrevistadora Marília Gabriela que acaba concordando com a percepção de Dorina.
 
Dorina viajou aos EUA para se especializar na educação de cegos. Foto: Reprodução.

No ano seguinte da sua formação, em 1946, criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, com apoio de suas amigas normalistas. E então buscou curso de especialização no exterior, fundou a primeira imprensa braile do Brasil, trabalhou no Ministério da Educação nos anos de 1980 e foi reconhecida pela ONU, onde discursou como convidada especial. O documentário demonstra uma Dorina eloquente, vivaz, voz tranquila mas firme, e conquista muita gente com seu magnetismo pessoal e capacidade de empreender e realizar.

A atriz Martha Nowill, neta de Dorina, contou que dedicou oito anos na organização de material e entrevistas para a produção do filme sobre a avó. Num primeiro momento, pensou em uma ficção, depois, com o tempo, optou por um documentário. E encontrou farto material de registros, uma vez que a Dorina sempre fez questão de exercer publicamente a busca por melhores condições e qualidade de vida para deficientes visuais. Desde a sua infância e juventude, Martha está sempre presente na vida da avó como companheira de seu trabalho. Além de Mauricio de Sousa, familiares e amigos, há a reprodução de uma propaganda para arrecadar recursos para a Fundação na qual são protagonistas Dorina e o jogador Raí. “Aliás, ela não tinha o menor pudor de pedir recursos para fundação”, conta Martha. A neta brinca e diz que o tema chegava a lhe trazer um certo constrangimento quando menina, algo que para a avó era muito natural diante de sua causa.

Outro momento muito leve do documentário: aos 15 anos, a neta está na plateia enquanto a avó Dorina está no palco dando entrevista. E Martha é chamada de surpresa pela apresentadora Sylvia Popovic para comentar sobre os hábitos da avó de escolher roupas tão elegantes. A apresentadora surpreende Martha ao perguntar se há alguém que ajuda Dorina, e a neta conta que, na realidade, ela até ajudava a pegar peças no guarda-roupa, mas, no fundo, quem chamava a atenção para a importância de roupas bonitas e tons em harmonia era a avó. Martha, então adolescente, respondeu que a avó sempre sabia, ou intuía, que ela estava com os pés no sofá.

A neta não esconde a força e inspiração que a avó exerce em sua vida. Também não hesita em contar detalhes de expressão da avó que carregará por toda a vida. “Tenho muito presente na memória duas coisas físicas da minha avó: o corpo ficava meio atento ao exterior, uma mão sobre a outra, e assim ela se acarinhava. E lembro também do seu seu sorriso muito expressivo que se destacava no rosto.”
 
Dorina discursou na ONU, em 1981. Foto: Reprodução.

Num dos momentos do filme que comenta a passagem de Dorina pela ONU, um dos entrevistados ressalta que, mesmo já em idade avançada, Dorina contradizia a figura da velhinha esperada num acervo de clichês que temos sobre a terceira idade. Ela chegava para contar uma história e emergia com sua força juvenil. Foi assim que diante da ONU “os cientistas tiveram de serem retirados à força, pois estavam magnetizados pela força de Dorina”. Martha explica que ao comentar com pessoas mais velhas que ela que era neta de Dorina, surgia uma certa admiração, beirando a devoção, mas que muitos jovens ou da idade dela hoje já não conheciam. E assim tomou para si a responsabilidade de trabalhar para a documentação da história da avó. E o que isso lhe trouxe? “Quando mais me envolvi, mais descobri a minha avó em todos os depoimentos que colhi. Ela não se importava de falar de sua cegueira, tinha sempre muita energia e fazia muitas coisas ao mesmo tempo. “

A descoberta

Dorina estava na casa de uma amiga, quando folheava um álbum de fotografias, viu “uma cortina vermelha cobrir os olhos.” Era uma hemorragia que levou à deficiência visual. Para revelar esse momento não sai da sua voz nenhum tom trágico e o filme deixa claro que ela falou sobre o episódio durante toda a sua vida, no mesmo tom de voz calmo e firme. A constatação de que a realidade é incontestável se dá quando sabe que amigas estão dançando, no clube, mas ela não pode estar. “Estou cega, pensei”. E daí por diante, em plenos anos 1920, ela exercitava uma resignação destemida.

Para a personagem central do documentário Dorina – Olhar Para o Mundo, interação é vida. E dessa premissa Dorina constitui tudo. Para às pessoas com deficiência visual, a jovem Dorina buscava do mundo um olhar de humanidade, nada a ver com comiseração. Tinha percepção bastante sensível das reais necessidades de uma pessoa sem visão para a formação educacional, a começar por livros em braile, que eram raros. Mas também tinha uma postura muito prática na vida. É isso que nos faz pensar as cenas e depoimentos do documentário. Dorina sensibiliza a diretora do colégio Caetano de Campos sobre a importância de estudar pedagogia, escreve para o ministro da época. Mais tarde colaborou para a elaboração da lei 2287, de 03/09/1953, que aprovou a integração escolar, regulamentada pelo Decreto 24.714, de 06.07.1956.

De 1961 a 1973, dirigiu a Campanha Nacional de Educação de Cegos do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Em sua gestão foram criados os serviços de educação de cegos em todas as Unidades da Federação. A Fundação que Dorina criou conta hoje com a maior Imprensa Braile da América Latina, além de uma Biblioteca circulante para os deficientes visuais. No entanto, a grande preocupação de Dorina,  estimular a criação de serviços especializados para atender necessidades, tratar e orientar crianças, jovens e adultos, com cegueira ou baixa visão, principalmente nas áreas de educação, reabilitação, profissionalização, cultura e prevenção da cegueira.

Quando buscou uma especialização em educação de cegos no Teacher’s College da Universidade de Columbia, em New York – USA, Dorinha também teve de buscar cartas de recomendação e escrever à universidade. E conseguiu. Foi assim que, numa reunião com a Diretoria da Kellog’s Foundation, conversou sobre  o problema da falta de livros em Braile para as pessoas com deficiência visual no Brasil e da importância de uma Imprensa Braile para a Fundação que tinha sido criada no Brasil. Em 1948, a Fundação Dorina Nowill para Cegos recebeu, da Kelloqq´s Foundation e da American Foundation for Overseas Blind, uma Imprensa Braille completa com maquinários, papel e outros materiais. E que o mundo tenha mais Dorinas que inspirem Dorinhas.
 
Martha Nowill, neta de Dorina vive a avó no documentário. Foto: Divulgação.

Trajetória da educadora Dorina Nowill estreia no canal Max, na HBO, nesta 3ª, às 23h.


“Dorina – Olhar Para o Mundo“ apresenta a história da criadora da Fundação Dorina Nowill, que durante toda a sua vida lutou e conquistou direitos para a inclusão de crianças, jovens e adultos com deficiência visual. A atriz Martha Nowill, neta de Dorina, produzir o filme, ajudou no roteiro e trabalhou como atriz no documentário. A direção é de Lina Chamie, que também assina o roteiro junto da Martha Nowill.  Lina utilizou o livro autobiográfico de Dorina como uma espécie de “costura” para o roteiro. “É uma forma de ter um contato direto com ela”, explica.

Após a estreia na televisão, o conteúdo também estará disponível gratuitamente na aba Experimente da plataforma HBO GO e no HBO On Demand por meio do NOW na pasta Programas de TV > HBO. 

Assista o trailer aqui.
 
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Terciane Alves é jornalista com passagens pela iniciativa privada e atuou na coordenação do São Paulo Carinhosa. É coordenadora de Políticas Públicas do Instituto Brasiliana e assina o Blog Nossa Infância do Estadão.