"Sou Murakami, gosto de ser chamado pelo meu nome, quero existir" - São Paulo São

Tsuyoshi Murakami, sócio do restaurante japonês Kinoshita, não curte quando as pessoas o tratam como "chef". "Sou Murakami, gosto de ser chamado pelo meu nome, quero existir", disse.

Curioso e apreciador do “simples”, ele estuda piano, pratica pilates, “alimenta-se” com arte, interessa-se por cirurgias e até acompanha autópsias. Apesar de preferir drama à comédia na telona – “assisto mais ao cinema alternativo, gosto de profundidade”, declarou – ele fez a plateia literalmente gargalhar durante a palestra “O processo criativo do chef Tsuyoshi Murakami”, durante o Festival do Clube de Criação 2016, e que contou com a participação do ex-MasterChef Victor Castelo, redator da Africa; e Márcio Alemão, roteirista, publicitário e cronista de gastronomia.

Alemão iniciou o debate perguntando a Murakami onde ele encontrou espaço para criar dentro de uma cozinha milenar como a japonesa, aparentemente imutável. Isso sem precisar “colocar cream cheese ou maionese” no sushi.

“O Brasil não é como o Japão que tem as estações bem definidas. Aqui, a água é mais ácida, no Japão, é bem mais alcalina. Aqui é tudo diferente. Tive que me reinventar e usar minha criatividade e a da equipe para pensarmos juntos em novas opções”, observou Murakami.

“Não sei bem descrever o processo criativo. Comecei com 18 anos profissionalmente. Então já tenho a prática. É como um cara que faz música, pinta um quadro, escreve, bola um texto, um pu*a parágrafo... Como no cinema, no teatro, na vida. Cozinhar para mim é a mesma coisa. Aquilo tem que começar lá dentro, você tem que sentir, saber o que você quer”, defendeu.

Alemão lembrou que Murakami tem um sócio no Kinoshita e que, como em qualquer negócio, visa-se também o lucro. “Existe um briefing? Por exemplo, uma indicação de que seu cardápio estaria um pouco caro demais, que a margem de lucro está pequena?”

“Tenho que lidar com o business, sou amador nessa área, meu sócio é o profissional, cuida do dinheiro. Mas ele não pega tanto no pé. O nosso público é diferente e a gente precisa de qualidade. O processo criativo no Kinoshita é a qualidade. Não tem muita firula. Gosto do simples”, comentou Murakami.

O cronista de gastronomia lembrou que a culinária japonesa foi a primeira que trouxe para o Brasil a “comida com direção de arte”. “O food design não existia. O japonês chegou com aquela ‘diagramação perfeita’, o que causou um primeiro encantamento no público brasileiro. Quando você pensa sobre um novo prato, você junta a imagem com o sabor, como isso vai se formando na sua cabeça?”, perguntou alemão.

“Quando estamos criando, trabalhamos em vários planos: sabor, textura, aroma, estética, como vou montar, design. É tudo ao mesmo tempo", contou. "Gosto de falar sobre sexo com minha equipe. Digo que eles têm que se amar primeiro, saber se tocar, relaxar o máximo possível. Tem que ter tranquilidade no processo de criar, seja um prato ou uma música, escultura, é tudo a mesma coisa (no processo criativo). Por que relaxar? É importante ter a consciência do corpo, onde está a respiração”, ponderou. “Também é maravilhoso saber escutar com qualidade. Um minuto de escuta com presença e qualidade e esse um minuto se transforma em dois. Isso é sensacional”, destacou Murakami, sobre o que considera necessário para que o processo criativo flua bem.

Ele costumava praticar medição com sua equipe, antes de iniciarem os trabalhos do dia. Depois, ele aprendeu a rezar o "Pai Nosso" e todos só colocam a "mão na massa" - ou nos peixes - depois que recitaram juntos a oração. "Outro dia uma pessoa me pediu dinheiro na rua e eu perguntei se poderia rezar por ela. Coloquei a mão em seu ombro e comecei: 'Pai Nosso, que estais no céu...", lembrou Murakami, que declamou a oração inteirinha no palco para a plateia, com uma impostação de voz inspirada em locutores."Cozinhar para mim é a mesma coisa. Aquilo tem que começar lá dentro, você tem que sentir, saber o que você quer” - Murakami"Cozinhar para mim é a mesma coisa. Aquilo tem que começar lá dentro, você tem que sentir, saber o que você quer” - Murakami

“Eu queria chegar para trabalhar de manhã, tirar toda minha roupa, que todo pessoal da equipe ficasse pelado também e que fôssemos todos correr uma volta no quarteirão, sentindo a leveza do ar, relaxando sem amarras. Só não faço isso porque iria preso”, garantiu o profissional.

Valéria Campos no Clube de Criação



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