Augusto de Campos recebe na Hungria, o Grande Prêmio Janus Pannonius, o ‘Nobel de Poesia‘ - São Paulo São

No último dia 23, Augusto de Campos, vencedor do grande Jannus Pannonius Grand Prize for Poetry,  aceitou e recebeu o prêmio em Pécs, cidade húngara onde a cerimônia de premiação ocorreu.
Criador  e considerado hoje um dos mais relevantes reconhecimentos internacionais a poetas vivos, o prêmio já condecorou nomes como o francês Yves Bonnefoy, o sírio Adonis e o americano Charles Bernstein.

Augusto (Augusto Luís Browne de Campos,  nascido em São Paulo, 14 de fevereiro de 1931), é o único poeta brasileiro a receber as distinções do Janus Pannonius e o Prêmio Iberoamericano de poesia Pablo Neruda, além de dois prêmios Jabuti (1979 e 1993)  e a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural (2016). Seu livro ‘Não Poemas’ foi considerado pela Fundação Biblioteca Nacional, o melhor da época.

A seguir, Augusto é entrevistado com exclusividade por Demian Paredes do Jornal argentino Página 12. Acompanhe!

Poeta, pesquisador, tradutor, ensaísta, artista visual ... e a lista poderia continuar. O brasileiro Augusto de Campos recebeu recentemente o Grande Prêmio de poesia Janus Pannonius, criado em 2012 e outorgado pelo PEN Club húngaro, que embora pareça algo remoto, também foi descrito pelo New York Times como o "Prêmio Nobel de Poesia".

Esse é o segundo prêmio internacional a reconhecer a poesia experimental do poeta concreto brasileiro.Esse é o segundo prêmio internacional a reconhecer a poesia experimental do poeta concreto brasileiro.

Esse é o segundo prêmio internacional a reconhecer a poesia experimental do poeta concreto brasileiro. Imagem / Youtube.

Na cerimônia, na cidade de Pécs - onde  Campos fez um discurso que é reproduzido aqui - também foi apresentada uma edição de suas obras: uma antologia bilíngüe português-húngaro. Este prêmio bem merecido, que é adicionado a outro recebido no Chile em 2016, ocorre na época em que o poeta e o ensaísta continua trabalhando e publicando livros sobre vários temas, como a música de vanguarda ou o poeta Maiakovski, em uma obra sempre caracterizada pela sofisticação e alto nível de exigência, rigor e estudo profundo, busca, tradução criativa (em um exercício que chama "transcriação") e experimentação poética.

Fundador da "poesia concreta" - ou "concretismo"; um movimento reconhecido internacionalmente - na década de 1950 com Décio Pignatari e seu irmão Haroldo, Augusto de Campos sempre esteve na vanguarda desde então. Suas obras, que passaram do concretismo para novos formatos e expressões nas décadas seguintes, usando novas tecnologias, exploraram as possibilidades materiais do idioma, do significado e do simbólico, através de volumes e cores, ao som: do design da imagem ao holograma, do movimento à projeção em paredes e telas. Da animação por computador ao som e à música das letras, a palavra, a frase ou o verso. Os grandes artistas de vanguarda europeus (Mallarmé, Pound, Joyce, Webern) e os brasileiros (Mário de Andrade, modernista e antropofágico) são os que inspiraram e deram origem às aventuras surpreendentes do concretismo.

“O pulsar”, nasceu em 1975. Em 1984, Ausgusto produziu o videoclipe do seu poema em parceria com a música de Caetano Veloso.“O pulsar”, nasceu em 1975. Em 1984, Ausgusto produziu o videoclipe do seu poema em parceria com a música de Caetano Veloso.

“O pulsar”, nasceu em 1975. Em 1984, Augusto produziu o videoclipe do seu poema em parceria com a música de Caetano Veloso.

Também conectado com o melhor da música popular brasileira, Augusto de Campos deu atenção, estudou e escreveu sobre a bossa nova e o tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil nos anos 60. Por sua vez, entre outros poemas, Veloso musicaria nos anos 80, o cósmico "Pulsar" (imagem), gravado no álbum Velô, que então apresentou ao vivo, na década seguinte, durante os shows de seu álbum Fina Estampa. E desde a década de 90 até o presente, Augusto renova colaborações, obras e performances em comum com excelentes artistas como Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes e seu filho Cid Campos. Com um vasto trabalho, composto por vários dezenas de títulos (poesia e ensaios, traduções, antologias e pesquisas), Augusto de Campos se referiu à sua viagem à Hungria, à sua visão do mundo atual e à poesia, e seus últimos livros publicados.

Em 2015, Augusto de Campos recebeu o prêmio das mãos da presidente do Chile, Michelle Bachelet.Em 2015, Augusto de Campos recebeu o prêmio das mãos da presidente do Chile, Michelle Bachelet.Em 2015, Augusto de Campos recebeu o prêmio Pablo Neruda das mãos da presidente do Chile, Michelle Bachelet.

Como você enfrentou a cerimônia de premiação do Janus Pannonius? Deve lembrar-se que você recebeu uma distinção anteriormente recebida por poetas como Yves Bonnefoy e Charles Bernstein.

- O prêmio me parece muito significativo, não porque eu tenha sido contemplado, mas porque, evitando os critérios mais convencionais de prêmios internacionais desse tipo, prestigia, assim como o Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda, em 2015, um poeta brasileiro e um poeta de vanguarda, da "margem da margem", nas palavras de Décio Pignatari. Fui muito bem recebido, numa grande e compensatória viagem à Hungria, que fiz com muito sacrifício, devido à minha idade avançada, pensando que representava o Brasil. A edição húngara que acompanha o prêmio é uma antologia bilíngüe, bastante representativa de várias fases da minha poesia e com muita liberdade em relação à inclusão de poemas visuais, com imagens e cores, que forneci durante toda a sua preparação. Dadas as diferenças de linguagem, é um milagre de realização, tendo em vista a falta de tempo para que pudesse coincidir com a entrega do prêmio. Além de contribuir tanto quanto pude para a compreensão dos poemas, em um momento da correspondência que tive com o diretor da antologia, Férenc Pál, especialista em linguagem e literatura brasileiras, consegui que ele aceitasse a tradução que fiz do poema "azar", graças a uma coincidência ocasional. No húngaro, a palavra equivalente é 'esély', com o mesmo número de letras e o mesmo posicionamento das vogais. Na capa, coloco meu poema "olho por olho", que denuncia o golpe militar de 1964, no Brasil, e que eu achei muito apropriado para o momento presente.

No seu discurso na Hungria, você falou da lacuna entre a tecnologia e as necessidades humanas, e entre linguagem "fixa", cansada e linguagem poética. O desafio seria transformar os "formatos" e o "conteúdo" das mensagens?   

"Augusto de Campos - Poésie Verbivocovisuelle", re-inaugurando a galeria da Embaixada do Brasil em Bruxelas (Bélgica). Foto: Divulgação."Augusto de Campos - Poésie Verbivocovisuelle", re-inaugurando a galeria da Embaixada do Brasil em Bruxelas (Bélgica). Foto: Divulgação."Augusto de Campos - Poésie Verbivocovisuelle", re-inaugurando a galeria da Embaixada do Brasil em Bruxelas (Bélgica). Foto: Divulgação.

Eu prefiro pensar e referir-me de um modo mais geral, ao estado de preocupação em que nos encontramos, apesar do grande avanço tecnológico, e em pleno século XXI, à incapacidade de reduzir as desigualdades econômicas e ao exacerbamento das ideologias retrógradas que ameaçam estender esta defasagem em favor de interesses lucrativos de grupos mais favorecidos, hostis a quaisquer das medidas que buscam mitigar suas fortunas e distribuí-las com maior racionalidade e solidariedade. Nesse sentido, a busca de novas formas de comunicação e informação poética parece justificada pois desestabiliza as convenções enraizadas e pensamentos conservadores que se alinham com as áreas mais relutantes a mudanças e inovações progressistas de ideias. Veja-se, neste momento, as novas tentativas do machismo enraizado das sociedades patriarcais no sentido de desmoralizar as reivindicações feministas contra o assédio sexual.

Por que em seu próprio país, especialmente a última vez, a imprensa negou você? Existem razões estéticas, é algo ideológico?

Augusto é o único poeta brasileiro a receber as distinções do Janus Pannonius e o Prêmio Iberoamericano de poesia Pablo Neruda.

No Brasil, a poesia de vanguarda foi sempre desaprovada pelos principais meios de comunicação e pela imprensa. A poesia concreta foi amplamente perseguida por mais de meio século por críticas universitárias e jornalísticas. Depois de algumas décadas, principalmente devido à repercussão internacional do movimento literário que lançamos no Brasil, em 1956, com poucos pares na Europa, a imprensa teve que "nos engolir". Minha primeira antologia de poemas, em uma edição não financiada por nós mesmos, surgiu em 1979, quando eu tinha 48 anos e 20 anos de poesia. Hoje tenho editores que garantem a continuidade do meu trabalho poético. Além disso, o Brasil voltou e passou por uma fase de grande mediocridade cultural. A poesia que é praticada, de um modo geral, pelo menos aquela vendida com sucesso pelas grandes editoras, é uma poesia que não existe para mim. Uma mistura reaquecida de modernismos fáceis e consumíveis que, em comparação com o trabalho dos grandes mestres da modernidade e do passado, são reduzidos a pequenas dimensões. Os jornais, que algumas décadas atrás abrigavam a poesia em grandes espaços, os encolheram e onde havia poemas, hoje só há tratamento para o cinema de consumo, música popular vendável e outros entretenimentos. O título "Cultura" é uma coisa do passado. Está sendo substituído por "Diversão" e "Entretenimento". Colaboram os amigos do rei, os intelectuais de direita e os inofensivos, uma multidão de estagiários em tudo. A censura política é adicionada ao desinteresse e à desinformação. A grande mídia e a imprensa brasileira nem sequer deram uma linha sobre o prêmio Janos Pannonius, que recebi, e ainda assim eles vivem e aplaudem banalidades de todos os tipos, incluindo nosso rap mais vulgar, rap de segunda e de terceira, como se fossem grandes manifestações da cultura brasileira. O intelectual no Brasil ainda é "um pobre diabo", como afirmou Oswald de Andrade. O Brasil, é "o país com a cabeça baixa", do qual Tom Jobim falou.

No Sesc Pompéia, o mítico poema concreto “Viva Vaia”, transformado em uma escultura penetrável. Foto: Divulgação.

Qualquer reconhecimento inteligente é criminoso, e o culpado é o poeta. "O burrice está na mesa", disse Tom Zé, em tempos melhores. Adicione a isso a perseguição política. Eu me tornei uma "persona non grata" dos jornais desde que eu ousei protestar contra o impeachment da presidente Dilma, uma variante civil do golpe de 1964, que, como então, a mídia principal apoiava, agitando o verdeamarelismo abobado do lumpensinato da família paulista. Mas eu avisei, termine como termine, o que está acontecendo. Nossa democracia desmoralizada, a perspectiva de eleições fraudulentas e o retorno à meritocracia. Os inquisidores super-assalariados politizam a justiça, desmoralizam e terminam descaracterizando o que seria uma luta contra a corrupção, e isso está se tornando uma corrida persecutória contra a esquerda brasileira.

Voltando à literatura, o que você está lendo atualmente? Você descobriu algo novo ou algo "antigo" que é ou passou despercebido?

“Outro” é um livro de poemas-visuais lançados por Augusto de Campos em 2015.

- Eu sou, como sempre, mais leitor do que escritor. Em um ano de grande movimentação para mim, e a viagem quase impossível para a Hungria, redescobri Jules Verne, cuja reabilitação começou com estudos de Michel Butor nos anos 60. Um estudo que, hospedado no site internacional Verniana, ousou aproximar Mallarmé, entre tiros de dardos, do autor menos conhecido de edições não censuradas, como o testamento de um excêntrico. Coincidentemente, o livro foi lançado no Brasil e nunca foi publicado em português. Reli Hemingway e Marianne Moore. Antes de viajar para a Hungria, eu revisitada o grande Moholy-Nagy e descobri o poeta-pintor Lajos Kassák uma dada-construtivista precursor cujo museu tive o prazer de visitar em Budapeste. Para os húngaros, revelei a um querido amigo, o escultor Kazmer Fejer, signatário da ruptura manifesto de 1952. Havia duas exposições, com fotos ampliadas de suas esculturas, uma em Budapeste e uma no Museu Vasarely em Pécs, onde viveu Fejer antes de chegar ao Brasil em 1948. Eles descobriram sua residência e me levaram para ela, para homenageá-lo, colocando uma coroa de flores na porta velha da casa, número 7. Extrema coincidência ou linda sincronicidade? O nome da rua é ... Janus Pannonius. Não foi Borges quem inventou esta história, embora tenha prestado homenagem a Pannonius em seu poema "Al primer poeta de Hungria", que cito no meu discurso.

Após o seu último livro de poesia, Outro, surgiram outras obras, como a Música de Invenção, em dois volumes e uma antologia de Maiakovski. Você pode comentar?  

- Ambos os livros já saíram, a Música de Invenção 2, em 2016, e a nova antologia de Maiakovski, em novembro do ano passado. Isso, com novas e raras referências musicais, como o mexicano microtonalista Julián Carrillo, o russo Obukhov, criador da "luz sonora", instrumento eletrônico da família das theremines e a alemã Johanna Beyer, precursora da percussão eletrônica. Dedicado, como o primeiro volume, à música contemporânea, que continua a ser marginalizada por um silêncio secular, o livro tenta manter um diálogo com a música popular mais inventiva. A antologia de Maiakovski vem com um maior número de poemas, vários inéditos, alguns estudos novos e uma bela edição gráfica. Nos últimos meses, também participei na leitura de minhas traduções de Emily Dickinson, CD Emily (foto), que traz novas composições de meu filho Cid Campos, "poemúsicas" focadas na conjunção melodia de palavras, com arte gráfica da minha autoria.

Quais são seus planos agora, para o futuro?   

- Com quase 87, como dizia Duchamp : "Estou respirando". Continue respirando.

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Por Demian Paredes no Página 12 (espanhol). Edição: São Paulo São.