'Nóis é prateado' para ganhar nova identidade social - São Paulo São

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No metrô e nos cruzamentos, meninos se anunciam como artistas de rua para ganhar nova identidade social.

Os meninos vão se juntando, menino graúdo e miúdo, menina quase nenhuma, em volta do concretinho da praça. Corre entre eles o pó. O pó alemão, a purpurina, o glitter. O “sigiloso”. Um dos moleques mistura o pó com um creme hidratante, numa proporção de um tanto pra outro tanto. Quem não tem hidratante se vira com a água do banheiro.

Mãos ressecadas, unha rente à carne, eles mergulham os dedos na pasta. Espalham uma película grossa em todo poro aparente: no rosto, nas orelhas, no pescoço, nos braços, nas pernas, nos pés. Um cheiro químico perfura o nariz. Os garotos ajeitam o moletom cinza, a camiseta cinza, a gola cinza. Quem tem chapéu bota chapéu. Quem tem gravata pendura a gravata. Quem tem aparelho nos dentes metaliza o sorriso. Vão aos poucos na direção do metrô, em busca de destaque na multidão. “Nóis é prateado.”

O concretinho, retângulo branco todo carcomido, fica na Praça Armênia, do lado da estação que já foi Ponte Pequena. Bolada pelo carioca Marcelo Accioly Fragelli, premiada em 1968, a estação é um exemplar da arquitetura brutalista, concreta e funcional, com seus volumes que afloram da linha. Uma “poesia na matéria”. Para os prateados, a estação elevada da Armênia é a matéria bruta que pediram aos céus.

Eles galgam a grade de 1,80 metro em volta da estação, lá em cima da grade alcançam uma segunda proteção de tapumes de vidro de 1,90 metro e já saltam no acesso aos elevadores. Sobem até a plataforma, um andar acima, e apertam o botão de descer, pra quem ficou lá embaixo. Tudo na discrição, camuflados de metrópole. “Tem que ser assim, por causa dos urubu.”

Urubus são os seguranças da estação, que circulam de uniforme preto pela área. A moita não é somente porque os meninos entram sem pagar. É porque circulam para mendigar, prática proibida nas vias férreas de São Paulo. A Armênia atende cerca de 31 mil passageiros por dia, mas tem capacidade para acomodar 20 mil por hora no horário de pico.

Não é na superlotação que os prateados surfam. Preferem vagões mais vazios para andar entre as pessoas sem manchá-las de tinta, distribuindo praticamente o mesmo bilhetinho, impresso numa lan house ali perto. “Senhores passageiros primeiramente meu nome é Vinicius e estou aqui para pedir uma ajuda para vocês. Minha mãe está passando por muitas necessidades, fomos despejados de casa e não temos condições de pagar aluguel nós nem temos o que comer, aquele que puder ajudar com 0,05 ou 0,10 eu agradeço e que Deus abençoe sua viagem obrigado! Melhor pedir do que roubar.”

Primeira – e obviamente – nem todos são Vinícius. Tem também Gabriel, Rafael, Cauê, Felipe, Moisés, Henrique, Juliano, Diego e todos os codinomes beija-flor. Como ninguém no metrô vai tirar o fone de ouvido e perguntar o nome deles, tirando os seguranças, tudo bem pagar R$ 1 por 60 cartões impessoais. Na estatística flutuante deles próprios, 70 garotos, entre menores e maiores de idade, rodam por ali. Grande parte vem de Guarulhos, porque a estação agrega um terminal de ônibus intermunicipais que chegam da cidade vizinha. Mas Jardim Romano, que faz divisa com Guarulhos e ficou conhecido pelas casas alagadas em 2009, também deixa vazar pelo ladrão uma série de meninos prateados. Um trouxe o outro, que trouxe o um. Mãe, praticamente todo mundo tem na ponta da língua. Pai, foi difícil encontrar. Entre os pais mencionados, muitos estavam perdidos para o álcool, e não poucos entraram para o rebanho das igrejas evangélicas. Das mochilas, aliás, brotam Bíblias pretas e Bíblias douradas. Mas nem todos os meninos seguram na mão de Deus. “Não sou crente, sou desviado.”

Se despejo significa morar na rua, o bilhetinho também parece trolar nessa questão. Os prateados da Armênia podem não ter casa própria, mas afirmam ter um lar para voltar todo dia, na qual se dão um papel provedor. Teriam cacife pra isso. De quinta a domingo, dias quentes para a atividade, eles contabilizam uns R$ 100 por dia, tudo em moeda pequena, que trocam no comércio do metrô ou em mercadinhos no meio do caminho. Bem verdade que a crise chegou e a coleta minguou consideravelmente. Daí que os prateados soltam a voz para tocar o coração: o feijão-com-arroz depende deles, a luz depende deles, o gás depende deles, os três irmãos de sangue e os dois de criação dependem deles. O que não contam para os passageiros é que a mãe morre pela volta deles, e acha ruim essa opção de vida. “Ela diz que isso não é futuro, que metrô é só uma ilusão.”

O futuro lustroso estaria na escola, para a qual eles dizem que vão voltar um dia. Enquanto isso, titubeiam quando perguntados sobre a última série que cursaram. Quinta, sétima, primeiro colegial, não sabem bem. Aproximam o rosto do meu caderno de anotações e dizem que aquilo é letra de médico. O que estou escrevendo ali? Olham para o horóscopo no painel do vagão, que propõe ao escorpiano voltar aos estudos. O que está escrito ali? Tudo está escrito, pouco ou nada está compreendido. Muitos daqueles meninos não sabem ler nem escrever. Tiram o chapéu e o enrolam entre as mãos, envolvendo ainda mais o presente contínuo num papel gris. Culpam a falta de vagas nas escolas da quebrada, se bem que perderam a data da matrícula; o professor que foi passando a turma de ano sem repetir, se bem que repetiram, sim, uma ou duas vezes; a diretora que os expulsou porque jogaram a carteira na cabeça do professor, se bem que o professor foi ignorante pra c*. “Só sei contar dinheiro, se estudar eu não como.”

Se tivessem uma oportunidade de trabalho, estavam saindo do prateado. Se bem que estão trabalhando. Como não? Saem cedo de casa, chegam ao metrô às 9 da manhã, saem à meia-noite. A vantagem de trabalhar por conta, dizem, é que podem fazer o próprio horário. Um dia pedem nos vagões, noutro empinam pipa. E, nos fins de semana, uns até atravessam a Avenida Tiradentes pra se juntar aos prateados do malabares. Foram eles, aliás, que deram a ideia da pintura no corpo, pra parecer artista de rua. São artistas de rua. Por que não? Estátuas ambulantes que sobem num banquinho trôpego e fazem contagem regressiva do sinal vermelho para ganhar uns trocados ou um lanche de drive thru. “É o farol da nota.”

Acontece que nem todo mundo se dá bem com aqueles bastões feitos de colchão na base, um pedaço de ferro no corpo, uma tira de calça jeans na ponta e um arame pra arrematar. É exigir muita destreza no improviso. E precisa reservar dinheiro pra gasolina e pra jogar uma lábia no frentista, porque posto não pode vender combustível assim. Passando a régua, os prateados do malabares fogem dos guardas do metrô, e os prateados do metrô fogem do fogo dos malabares. As duas categorias também procuram escapar do crack – caiu ali não volta mais. Mas alguns dão seus pegas cotidianos na Praça Armênia por R$ 5 o quadradinho de maconha – pra aliviar a tristeza. O que os une mesmo é o pó alemão, o “sigiloso”, que avermelha os olhos no fim do dia e dá uma urticária desgraçada de tempos em tempos. “Nóis tem medo de pegar câncer a qualquer momento.”

Saindo da Armênia, o papo é outro. Os prateados compram o pó em lojas de fantasias na 25 de Março e na Ladeira Porto Geral, a R$ 45 o quilo. Um dos pacotes menciona purpurina made in China e diz conter acetato irisado, unhas brocal (sic), lantejoulas quadrada e cubeta, fitas metálicas, pastilhas e tecido de paetê. Registro no Ministério da Saúde, nenhum. “Parece uma mistura à base de tecido, algo com celulose, o que explicaria sair fácil com água”, diz a dermatologista Ida Duarte, professora de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. “Mas não há qualquer controle, pode causar alergia, entrar na mucosa, ter algum tipo de absorção renal, dar o gatilho para uma doença autoimune.” 

“Pois eu não acho que faça mal”, alivia Marcello Zago, estátua viva hás uns dez anos. Ele explica que existem maquiagens mais próprias, mas que exigem um demaquilante para sair. Deve ser uma daquelas também à venda na Porto Geral, cujo rótulo sugeria o uso por “torcedores, atores, palhaços e estudantes”. Para Zago, a dourada certamente causa mais coceira, daí a maioria preferir a prata. Mas o que pega para ele na história dos prateados é outro ponto: “Estão prostituindo o nosso serviço”. Artista de rua é profissão séria, muitos procuram o desenvolvimento, ainda que a profissão esteja passando por um abalo porque a rua não está rendendo como rendia. Ganha mais quem se faz de Estátua da Liberdade em festa de debutante ou Homem das Cavernas em lançamento de filme. Os meninos prateados estariam, a seu ver estático, fazendo isso para ganhar uns trocados e cheirar cola. “Nada mais.” 

No olhar da socióloga Fraya Frehse, professora da USP, a ética do ofício mudou muito nos últimos tempos, tempos em que, por exemplo, rareia a carteira assinada. “Nada é trabalho, tudo é trabalho.” E mendigo... bem, mendigo é sempre o outro. “Mendigar seria o fim da linha, aquele que não troca de roupa, uma categoria na qual ninguém quer se incluir.” A antropóloga Maria Filomena Gregori, professora da Unicamp, segue num trilho paralelo: “Esses meninos querem se diferenciar, seja pela pintura, seja pela afirmação de que não são meninos de rua nem dependentes do crack”. Seriam meninos na rua, como destacou no seu livro Viração, garotos que têm um vínculo territorial e que criam uma dinâmica de circulação. Estão vulneráveis? “Certamente, mas por uma situação que passa pela incapacidade de resolver a vida pela escolaridade.”

Se é para terminar todos os parágrafos com aspas, que chamemos João do Rio. Em A Alma Encantadora das Ruas, de 1910, já dizia o cronista: “Oh! Sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue”. Então, parando numa frase concreta, nua, brutalista, resumia: “A rua é agasalhadora da miséria”.

Mônica Manir no Estadão.