‘Carolina: Uma Biografia‘ resgata Carolina Maria de Jesus, tantas vezes condenada ao esquecimento - São Paulo São

"Vamos contar nossa história", canta o rapper Djonga em um dos versos de "O Mundo É Nosso", alertando sobre a importância de os povos se narrarem, dos perigos de ter sua história contada por outros ou até mesmo do risco dessas caírem no esquecimento.

Tom Farias, jornalista, romancista e biógrafo, há tempos vem demonstrando essa preocupação. Antes de "Carolina: Uma Biografia" (Malê), já havia publicado outras duas biografias de personagens fundamentais para a história do país, mas que muitas vezes acabam de fora dos livros didáticos. Falo de Cruz e Sousa e José do Patrocínio, personalidades negras importantes que passam longe do reconhecimento merecido.

Em "Carolina: Uma Biografia", Farias apresenta a trajetória da escritora mineira Carolina Maria de Jesus, desde a sua infância em Sacramento até a sua morte em São Paulo. No meio disso: a alfabetização e a paixão pelas letras, muitas andanças em busca de emprego e de um diagnóstico, uma prisão injusta, a esperança e a desilusão com a cidade grande, muita luta, o lançamento de "Quarto de Despejo" e mais. Farias traça tudo isso com uma sensibilidade comovente, sobretudo em contraste com a maneira como Carolina foi tratada pela mídia na época do estouro de seu livro de estreia.

O capítulo "A 'poetiza prêta'" é um dos pontos altos do livro por revelar uma passagem da escritora pelo Rio até então desconhecida e, mais do que isso, por apontar um documento que prova que, ao contrário do que a mídia e boa parte do meio literário acreditava, Carolina não produziu "Quarto de Despejo" "num golpe de sorte". Uma reportagem do jornal A Noite, em 1942, ou seja, 18 anos antes da publicação de "Quarto de Despejo", contava com poesias de Carolina e também com longo relato da autora sobre a sua relação com a literatura e a dificuldade de se concentrar nos trabalhos de doméstica.

Em "Carolina: Uma Biografia", o autor resgata mais uma vez a memória de Carolina Maria de Jesus, tantas vezes condenada ao esquecimento. Foto: Divulgação.Em "Carolina: Uma Biografia", o autor resgata mais uma vez a memória de Carolina Maria de Jesus, tantas vezes condenada ao esquecimento. Foto: Divulgação.Em certo ponto da entrevista, ela declara: "Tudo tenho feito para torcer a linha do meu destino e esquecer a tortura dos versos que me enchem a cabeça, mas eles brotam do meu pensamento e eu não tenho outro remédio senão dar-lhes expansão". Com isso, temos a prova de que Carolina tinha sim aspirações literárias, e que lutava como podia para se desenvolver como profissional da escrita.

Ao ler o capítulo, impossível não pensar o quanto Carolina poderia ter se desenvolvido como autora se, em vez de ter sido consumida como um "fruto estranho", fosse abraçada como a escritora estreante que era, e que como todas(os) as outras(os), tinha muito a aprender.

Carolina é uma figura emblemática, cheia de contradições e lacunas em seus depoimentos. Realizar essa pesquisa e organizar em livro certamente foi uma tarefa dura, porém necessária. Impressionou-me a quantidade de pessoas que, ao me verem com o livro de Farias, diziam nunca ter ouvido falar da escritora.

Em "Carolina: Uma Biografia", o autor resgata mais uma vez a memória de Carolina Maria de Jesus, tantas vezes condenada ao esquecimento. Além disso, por todo contexto que envolve a trajetória da escritora, Farias entrega um documento fundamental para compreender um recorte tão importante na história do país.

Livro: Carolina: Uma Biografia
Preço: R$ 72 (402 págs.).
Autor: Tom Farias.
Editora Malê.

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Geovani Martins é escritor e publicou “O Sol na Cabeça” (Companhia das Letras). Artigo publicado originalmente na Ilustrada.