Frei Galvão deixa patrimônio imaterial para a cidade de São Paulo - São Paulo São

Fachada da igreja projetada e construída por Santo Antonio de Sant’Anna Galvão guarda patrimônio histórico, cultural e religioso, na Luz. Foto: Luciney Martins / O SÃO PAULO. Fachada da igreja projetada e construída por Santo Antonio de Sant’Anna Galvão guarda patrimônio histórico, cultural e religioso, na Luz. Foto: Luciney Martins / O SÃO PAULO.

Uma marreta, livros, objetos e vestes litúrgicas, imagens dos séculos XVIII em papel machê, uma mesinha de madeira, gamelas, os pregos utilizados para a construção da igreja e do mosteiro. Todos esses objetos e muitos outros estão no Memorial de Frei Galvão e fazem parte da história de Santo Antonio de Sant’Anna Galvão e do Mosteiro da Luz.

O corredor que abriga o Memorial foi pensado à época da canonização de Frei Galvão, em 2007, e está provisoriamente fechado para manutenção, mas reabrirá em breve ao público.

“Essa marreta foi tirada do caixão de Santo Antonio de Sant’Anna Galvão e era um objeto pessoal dele, usado na construção do mosteiro e da igreja”, disse Ronaldo Bernardes da Silva, ao apontar para a marreta que está, junto a uma colher de pedreiro, exposta no Memorial.

A vida de Santo Antonio de Sant’Anna Galvão se confunde com a história da construção do Mosteiro, sendo impossível dissociar uma coisa da outra. “Mas, ao falar desse Santo, o primeiro brasileiro e também o primeiro a ser canonizado fora do Vaticano, precisamos pensar que vai muito além do Mosteiro”, disse o Padre José Arnaldo Juliano, historiador e Capelão do Mosteiro à reportagem do site O São Paulo.

O Mosteiro da Imaculada Conceição da Luz foi fundado em 2 de fevereiro de 1774, por Santo Antonio de Sant’Anna Galvão. O novo recolhimento tomou o nome de “Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência”

Mosteiro da Luz, construído por Frei Galvão. Imagem: Reprodução. Acervo Casa de Frei Galvão. Mosteiro da Luz, construído por Frei Galvão. Imagem: Reprodução. Acervo Casa de Frei Galvão.

O Padre José Arnaldo lembra-se também, quando, ainda pequeno, era levado pela mãe para participar das celebrações na igreja do Mosteiro. “O que temos aqui não é só um patrimônio histórico e cultural, mas, sobretudo, uma arquitetura de fé, um patrimônio imaterial”, continuou o Capelão.

Ronaldo, por sua vez, nasceu em Guaratinguetá (SP) e casou-se com a irmã da Madre Superiora da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, as Monjas Concepcionistas do Mosteiro da Luz. Ele trabalhou alguns anos prestando serviços no Mosteiro, mas hoje faz um trabalho voluntário e é responsável pela preservação do memorial e das imagens da igreja. 

 Mosteiro da Luz é o exemplo mais conservado de arquitetura colonial que ainda existe em São Paulo. Foto: Victor Hugo Mori. Mosteiro da Luz é o exemplo mais conservado de arquitetura colonial que ainda existe em São Paulo. Foto: Victor Hugo Mori.

Os sinos tocaram ao meio-dia quando Ronaldo, emocionado, falou das graças que já ouviu de pessoas que recorrem, todos os dias, às irmãs para pedir orações ou obter as pílulas. “Em 2007, eu estava na roda entregando as pílulas, substituindo uma das monjas, e um casal veio com sua filha pequena, a Melissa, que devia ter cerca de 6 anos de idade. Eles estavam desacreditados pelos médicos, pois a pequena teve câncer, que já estava em estágio avançado. Eles choraram muito e receberam as pílulas. Quatro meses depois, vi Melissa chegar para a missa, totalmente diferente, mais gordinha e corada. Eu fui abraçá-los e perguntei sobre a menina, e a mãe disse: ‘Olha, nem os médicos estão acreditando, os órgãos dela estão se regenerando totalmente’”, contou Ronaldo.

Fé e devoção

Construção do Mosteiro da Luz. Óleo de Alex Tavares. Imagem: Reprodução. Acervo Museu Frei Galvão.Construção do Mosteiro da Luz. Óleo de Alex Tavares. Imagem: Reprodução. Acervo Museu Frei Galvão.

“A devoção a Santo Antonio de Sant’Anna Galvão cresceu para além dos muros do Mosteiro. Crescem, em todo o País, paróquias e comunidades dedicadas ao Santo”, afirmou Padre José Arnaldo.

Ele falou, ainda, que a espiritualidade de Frei Galvão, essencialmente franciscana, é uma espiritualidade de conciliação. “Frei Galvão, num período muito complicado para o Brasil, antes da independência, pregava o Evangelho da paz e da conciliação. Precisamos aprender muito com ele”, continuou o atual Capelão do Mosteiro. 

Padre Armênio Rodrigues Nogueira, que foi Capelão do Mosteiro da Luz entre 2003 e 2008, e colaborou com Irmã Célia Cadorin no período de canonização, salientou sobre a expressão de devoção ao frade franciscano, após ter se tornado o primeiro Santo brasileiro. 

Capela de Frei Galvão no Mosteiro da Luz. Foto: Cynthia Sordi.Capela de Frei Galvão no Mosteiro da Luz. Foto: Cynthia Sordi.

Para ele, já nos primeiros meses, percebeu-se um maior número de visitantes, boa parte de curiosos que pouco conheciam sobre a história do santo, mas que, devido à grande manifestação popular, procuravam mais informações. “Além daqueles que não conheciam Frei Galvão, começaram a acontecer muitas manifestações de fé por parte de devotos que já o consideravam Santo antes mesmo de sua canonização”, continuou Padre Armênio.

A festa litúrgica do Santo é celebrada em 25 de outubro, dia em que haverá seis missas na Igreja do Mosteiro da Luz, com uma procissão de encerramento às 19h e missa presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano.

Acolher

Nos livros, documentos e testemunhos é perceptível uma virtude do Santo que marca toda a espiritualidade do Mosteiro da Luz: a acolhida. Ele fez do MosteiroFoto: Luciney Martins.Foto: Luciney Martins. da Luz um espaço de recolhimento e de oração, e seus braços estavam sempre dispostos a abraçar quem pedisse ajuda. 

Nesse abraço coube uma pílula, escrita e entregue a uma mulher que tinha o desejo de engravidar e que, ao seguir sua recomendação, foi agraciada com a oportunidade de ser mãe. 

O serviço e a acolhida são, na opinião do Padre Armênio, as grandes lições de vida e de espiritualidade ensinadas pelo Frade: “Quando ele tinha que curar uma pessoa, ia até ela; quando tinha que apaziguar uma briga, ele ia; quando precisava pôr a mão na massa para construir um prédio, ele ia, imediatamente”, reiterou.

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Por Jenniffer Silva e Nayá Fernandes em O São Paulo.

 



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