Nos anos 1970, estudantes criaram nomes inusitados para logradouros de São Paulo - São Paulo São

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Era um problema bastante peculiar aquele da São Paulo do início dos anos 1970. Com o crescimento desordenado da cidade, sobretudo da periferia, que vinha de décadas anteriores, quase 20 mil das 45 mil ruas estavam sem nome.

Eram denominadas por letras ou números, uma confusão. Em 1975, a Prefeitura criou o Projeto Cadastro de Logradouros, com o objetivo de criar um banco de nomes – com 25 mil verbetes – para ser usado então nas ruas.

Três consultores foram designados para elaborar o projeto: o arquiteto e urbanista Benedito Lima de Toledo, o linguista Flávio di Giorgi (1933-2012) e o jornalista Lauro Machado Coelho. “Realizávamos seminários prévios com o levantamento de bibliografia a respeito de algumas características da história de São Paulo”, recorda-se Toledo.

Foto: Dirceu Rodrigues / Acervo PessoalFoto: Dirceu Rodrigues / Acervo Pessoal

“É possível perceber que há uma divisão em temas, como botânica, literatura, história”, diz o historiador Maurílio Ribeiro, chefe da Seção de Denominação de Logradouros Públicos, do Arquivo Histórico Municipal.

Para fazer a lista, foram recrutados estagiários. Eram estudantes de diversas áreas, sobretudo de Humanas. “Éramos em 30. Quinze de manhã e quinze à tarde”, lembra o jornalista Dirceu Rodrigues, de 62 anos, um dos membros da equipe – atualmente ele é assessor de comunicação da Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Eles ocupavam uma sala no último andar de um prédio na Avenida Senador Queirós, no centro.

“Para cada cem nomes que bolássemos, ganhávamos um dia de folga”, recorda-se ele. “Colocamonos então a criar todo tipo de nome. Saía de tudo: passarinhos, qual não tem? E lá íamos pesquisar passarinhos. E assim foi. Durante uns dois meses só fazíamos isso, pois quanto mais bolássemos, mais dias ficaríamos de folga.” O estímulo funcionou. “Chegávamos até a ir para a biblioteca atrás de livros que nos inspirassem novos nomes”, diz o publicitário Celso Rodrigues, de 61 anos.

Foto: Dirceu Rodrigues/ Acervo PessoalFoto: Dirceu Rodrigues/ Acervo Pessoal

Já se tornou famosa a história de que São Paulo tem uma rua chamada Borboletas Psicodélicas, no Jabaquara. Há também a Charanga do Circo, no Rio Pequeno, a Soneto da Fidelidade, no Jardim São Luís e, na verdade, um sem-número de outros logradouros públicos de alcunha, digamos, quase bizarra. Em comum: todas as vias públicas foram batizadas graças ao Banco de Nomes. “Outra das ruas que saíram de nossas mentes jovens e criativas foi a Rua Estilo Barroco, no Brooklin. Quem morava lá? Jânio Quadros. Só podia”, diz Dirceu. 

“Mas a nossa ideia era que os nomes fossem agrupados e cada tema concentrado em um mesmo bairro, o que deixaria cada região bastante interessante”, conta o publicitário José Tadeu da Fonseca, de 64 anos, que na época era estudante de Turismo. “O problema é que a denominação escapou do nosso controle e aí virou circo. Antes tivessem respeitado nosso padrão.”

Fã de música, Tadeu é responsável por boa parte das referências musicais na malha viária – como as citadas Borboletas Psicodélicas, trecho de obra musical, e Charanga do Circo, nome de peça para piano. “Claro que havia uma triagem e, às vezes, algum nome que sugeríamos era vetado”, diz Celso. 

Pesquisa de campo. “Nosso trabalho não era apenas criar os nomes. Também pegávamos mapas e íamos a campo conferi-los, porque havia uma discrepância entre os registros oficiais e as localidades de fato”, lembra o jornalista Gerson de Faria, de 62 anos – na época, estudante de Cinema. 

“Debruçávamos sobre aquelas cópias imensas de mapas e ficávamos riscando as ruas confirmadas”, diz a produtora cultural Sandra Lacal, de 62 anos, então estudante de Letras. “Geralmente, era muito difícil localizar, na vida real, as ruazinhas dos mapas”, diz Tadeu. “Íamos em uma Kombi cinza da Prefeitura, com o brasão da cidade estampado na porta, sempre em dupla.” 

“Foi uma experiência de vida. Esse trabalho proporcionou a nós todos a formação de um grupo muito legal. Somos amigos até hoje”, diz a costureira Vera Moraes, de 62 anos – que, na época, era estudante de Jornalismo.

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Edison Viega em seu blog Paulistices do Estadão.