Morre Ismael Ivo, o exuberante bailarino de Vila Ema que virou cidadão do mundo - São Paulo São

Ismael Ivo, morto aos 66 anos, fez carreira no exterior e, de volta ao Brasil, foi diretor do Balé da Cidade. Foto: Thiago Teixeira.Ismael Ivo, morto aos 66 anos, fez carreira no exterior e, de volta ao Brasil, foi diretor do Balé da Cidade. Foto: Thiago Teixeira.

O bailarino e coreógrafo Ismael Ivo morreu na noite desta quinta-feira (8), aos 66 anos, por complicações da Covid-19, informou sua assessoria. Ele estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Ismael Ivo (São Paulo, 1955 - 2021) se notabilizou após atuar por mais de três décadas na Europa. Em 2017, assumiu a direção do Balé da Cidade de São Paulo.

De origem humilde, nascido na Vila Ema, Zona Leste de São Paulo, Ismael Ivo foi criado apenas pela mãe, empregada doméstica, que morreu em 2017. Ele afirmava que sua mãe foi sua grande incentivadora para que enfrentasse seus desafios. Desde adolescente, interessava-se pela dança.

Na década de 1980, quando o bairro paulistano da Bela Vista, conhecido como Bixiga, era um ponto de convergência cultural na cidade, Ismael Ivo já contava com público fiel em apresentações solos que se realizavam em espaços cult da época – como o Carbono 14, casa noturna localizada na rua 13 de Maio.

Ismael Ivo no espetáculo solo Rito do Corpo em Lua, década de 1980. Foto: Christa Niels.Ismael Ivo no espetáculo solo Rito do Corpo em Lua, década de 1980. Foto: Christa Niels.

Em 1982, Klauss Vianna (1928-1992) realizava sua transformadora gestão como diretor artístico do Balé da Cidade de São Paulo, quando Ismael Ivo participou de uma das mais importantes produções da companhia: Bolero, com coreografia de Lia Robatto e direção de Emilie Chamie, premiado como melhor espetáculo do ano pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Para desenvolver o tema proposto por Lia – “o despertar do indivíduo e do grupo através do som e do movimento” – o elenco contribuiu com improvisações, algo que o próprio Klauss estimulava, para que os bailarinos pudessem desenvolver repertórios particulares de movimentos e ter uma atuação criativa no Balé da Cidade.Ismael Ivo e a parceira criativa e bailarina Mara Borba em momento de confraternização na década de 80. Foto: Arquivo pessoal.Ismael Ivo e a parceira criativa e bailarina Mara Borba em momento de confraternização na década de 80. Foto: Arquivo pessoal.

A presença de Ismael Ivo em Bolero ocorreu através do grupo experimental formado por Klauss Vianna no Balé da Cidade – uma iniciativa ousada, que pretendia proporcionar ao elenco da companhia uma convivência com os criadores independentes de São Paulo. Além de Ivo, fez parte deste grupo uma nata de artistas que fazia a dança paulistana fervilhar – como Sônia Mota, Mara Borba, Mariana Muniz, Zeca Nunes, Denilto Gomes, Duda Costilhes, Susana Yamauchi, Fernando Lee, Ciça Meirelles, João Maurício, Vivien Buckup, Mazé Crescenti, J.C.Violla.

Da cena paulistana para a EuropaIsmael Ivo em espetáculo solo, acompanhado do violoncelista Dimos Goudaroulis, do projeto Logos-Diálogos (2013, no Teatro Alfa, São Paulo). Foto: Sokratis Nikoglou.Ismael Ivo em espetáculo solo, acompanhado do violoncelista Dimos Goudaroulis, do projeto Logos-Diálogos (2013, no Teatro Alfa, São Paulo). Foto: Sokratis Nikoglou.

A trajetória internacional de Ismael Ivo começou efetivamente em 1983, quando chegou a Nova York como bolsista da escola e da companhia jovem de Alvin Ailey (1931-1989). Logo sua vocação de solista se confirmou no La MaMa, o famoso teatro experimental novaiorquino, onde apresentou o solo O Rito do Corpo em Lua – o mesmo que fazia sucesso em São Paulo e que chamara a atenção de Ailey em uma apresentação em Salvador.

Em 1984 Ismael Ivo já estava na Áustria, onde teve a chance de fundar as Semanas de Dança Internacional de Viena, junto com o produtor Karl Regensburger. O evento, que cresceu e ganhou o nome de ImPulsTanz Festival, tornou-se um dos maiores da Europa. Em 1985 ele fixou residência em Berlim, onde criou e apresentou vários espetáculos solo (de início no Schaubühne Theater). Paralelamente à atuação como bailarino e coreógrafo, Ismael assumiu cargos importantes. De 1997 a 2000 foi diretor da companhia German National Theater, na cidade alemã de Weimar, para a qual coreografou O Beijo no Asfalto (Kuss im Rinnstein), de Nelson Rodrigues, sob direção do diretor teatral brasileiro Marcio Aurelio.

Ismael Ivo no espetáculo "Fra.ncis Bacon", criado com o bailarino e diretor teatral Johann Kresnik. Foto: Judith Lutz. Ismael Ivo no espetáculo "Fra.ncis Bacon", criado com o bailarino e diretor teatral Johann Kresnik. Foto: Judith Lutz.

De 2005 a 2012, ocupou a função de diretor do Festival Internacional de Dança da Bienal de Veneza e do Departamento de Dança da mesma Bienal, onde concebeu o projeto Arsenalle della Danza, em 2009 – o qual solidificou-se, em 2013, no Biblioteca do Corpo, em parceria com o Sesc de São Paulo. Com o objetivo de desenvolver e treinar jovens bailarinos profissionais, o Biblioteca do Corpo já produziu três espetáculos – No Sacre, Erêndira e Das Tripas… Coração, todos já apresentados na capital paulista.

Ao longo de sua carreira, Ismael Ivo ainda colaborou com artistas importantes da dança – como o coreógrafo alemão Johann Kresnik, o bailarino e coreógrafo japonês Ushio Amagatsu (do grupo Sankai Juku) e a bailarina brasileira Marcia Haydée, com a qual realizou os espetáculos Tristão e Isolda, Aura, Wie Callas.

Em 2010, Ismael Ivo recebeu a Ordem do Mérito Cultural do Brasil, concedida pelo Ministério da Cultura, então sob gestão de Juca Ferreira. Em 2015 Ismael foi transformado por Judith Makrell, crítica do The Guardian, em verbete do prestigioso The Oxford Dictionary of Dance. Sem dúvida um feito e uma honra para quem saiu da Vila Ema.

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Da Redação com Ana Francisca Ponzio, jornalista, crítica, curadora e produtora de eventos na área de dança.



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