Mito dos muros, pichador Carlos Adão vira tema de documentário - São Paulo São


Antes de a moda de mandar nudes viralizar na internet, Carlos Adão já era sexy. 
 
Mito controverso dos muros de São Paulo, o economista aposentado seria mais um pichador anônimo, não fosse o fato de sua arte consistir em estampar seu nome pela cidade, acompanhado de verbos intransitivos e adjetivos elogiosos, alguns de cunho sexual – "Carlos Adão é penetrante", "Viver Carlos Adão", "Carlos Adão é D+". 
 
Retrato de Carlos Adão; ele é tema do documentário \'Os 3 Atos de Carlos Adão\'. Foto: Karime Xavier / Folhapress.
 
Com 18 anos de prática, aos 61, o improvável personagem mais conhecido de observadores urbanos já pintou boa parte da metrópole, fez uma exposição (em 2010, no espaço Kabul, em São Paulo) e diz ter se candidatado quatro vezes, por diferentes partidos políticos. Agora, vira tema de documentário, planeja outra mostra e adentra um novo momento, 100% artista: "a fase Carlos Adão". Para inaugurá-la, o documentário "Os 3 Atos de Carlos Adão" conta a pitoresca história do homem que, de uma infância pobre, filho de funcionário público e costureira, tornou-se economista, depois aspirante a político, proprietário de uma loja de autopeças, de repente pichador e, hoje, praticamente um símbolo cult.
 
"São 3 atos na verdade. O ato da escolha, o ato do preto, o ato do verde": https://youtu.be/4pe8lThG_90
 
Grife
 
Em 2013, Adão foi procurado via Facebook por dois jovens recém-formados que montavam uma agência de propaganda na zona oeste de SP, a Balaclava, com a oferta de gerenciar sua marca. 
 
Além de orquestrar a produção do filme — em parceria com um estúdio de Juiz de Fora, o Inhamis—, a empresa passou a cuidar de três sites do artista: um dedicado à venda de seus produtos (inclui bonés, bolsas, adesivos e roupas íntimas), outro com seu portfólio, e um terceiro, que reúne todo o conteúdo Carlos Adão disponível na internet. 
 
Desde então, Adão foi convencido a deixar a política de lado, e tem maneirado nos termos que acompanham seu nome nas pichações. "Muitas crianças leem as paredes, tomo mais cuidado. Tem o 'Carlos Adão é Penetrante', por exemplo. Todo mundo pensa que é sexual, mas é o olhar que é penetrante", explica. 
 
Com base em depoimentos do artista, a agência estima que, de 1996 para cá, foram pintados 163 mil "Carlos Adão" em cinco Estados –um total de 7.400 litros de tinta. Os "três atos" que dão nome ao filme são tirados de sua técnica: primeiro, a escolha do local; segundo, o fundo preto; por fim, as letras verde-limão, quase fluorescentes, combinação escolhida ao acaso, diz o artista. 
 
Nem sempre foi assim. Quando começou, Adão pintava seu nome em vermelho em placas brancas, que espalhava por Taboão da Serra, onde se candidatou a um cargo público pela primeira vez. Foi de uma de suas campanhas que surgiu a frase, também encontrada nos muros, "Seleção 70 foi 10", de quando se candidatou a deputado federal pelo PTdoB, em 2006 (seu número era 7010). Nunca foi eleito. 
 
Seu maior trauma, porém, não foi frustração política, mas um divórcio, depois do qual virou mulherengo. Inclusive, começou sua arte egocêntrica por causa de uma mulher: pichou todos os muros no caminho do trabalho à casa dela, do Butantã ao Morumbi, após um pé na bunda.
 
Fase artista
 
O filme traz entrevistas com o fotógrafo Costa Lara e os tipógrafos Thiago Reginato e Tony de Marco, além do grafiteiro Mundano, criador do "Pimp My Carroça", projeto dedicado a catadores da materiais recicláveis. Foi ele o responsável por convencer Adão a ir dos muros às telas, produzindo os desenhos de traços infantis e cores berrantes que compuseram sua primeira e única exposição. 
 
Quadro feito por Carlos Adão. Foto: Divulgação.
 
Dela, diz ter vendido todos os 30 quadros expostos por R$ 100 –"34, fui buscar mais alguns em casa". Na internet, é possível encontrar alguns deles por R$ 500. 
 
Em seu estúdio, em Taboão, reuniu 400 telas para sua próxima mostra, ainda sem data ou local para acontecer. No verso de todas, há uma página de jornal, certificado de autenticidade desenvolvido por ele mesmo para evitar o plágio de sua estética. 
 
Hoje diz que só se candidataria pelo PCA, Partido da Constante Alternância, a ser criado por ele, brinca. Pretende pegar a estrada até o Espírito Santo, com seus galões de tinta, e quem sabe escrever sua biografia. Talvez o faça em verde-limão.
 
Beatriz Montesanti de São Paulo na Folha Ilustrada.
 


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