Caminhos - São Paulo São

São Paulo São Caminhos


5.000 câmeras 3D para preservar a arquitetura de um país em guerra. Uma equipe de arquitetos latinoamericanos que adentram os bairros mais conflituosos da Venezuela para projetar e construir equipamentos públicos junto à comunidade. Um arquiteto legendário que soube entender e aplicar na arquitetura as transformações da tecnologia nos últimos 50 anos. Esses são alguns projetos, iniciativas e pessoas que provaram ser líderes em 2015.

A equipe editorial de ArchDaily gostaria de reconhecer esses projetos por seu compromisso em promover práticas em arquitetura que atendem a muitas pessoas, em todos os cantos do mundo –da Bolívia a Londres, de Chicago a Veneza, de equipamentos públicos em favelas a terminais de drones na África. Essas são as histórias que nos inspiraram em 2015, e cuja influência esperamos continuar a ver em 2016.
 

Categoria: Novas Tecnologias
Harvard + Oxford Digital Preservation

Templo de Baalshamin. Imagem © Bernard Gagnon via Wikipedia (CC BY-SA 3.0)Templo de Baalshamin. Imagem © Bernard Gagnon via Wikipedia (CC BY-SA 3.0)

Templo de Baalshamin. Foto:Bernard Gagnon / Wikipedia.

Ao início do ano, à medida que o Estado Islâmico avançava através do Iraque e da Síria, suas tropas capturaram alguns dos sítios históricos mais apreciados do mundo, e não perdeu tempo em demonstrar uma iconoclastia que se encaixaria melhor com as guerras religiosas de séculos passados que hoje em dia. Enfrentados a essa atitude sobre o conflito cultural, o Instituto de Arqueologia Digital –um projeto colaborativo entre Harvard e Oxford – optou por uma resposta própria do século XXI. Armando seus parceiros locais com 5.000 câmeras 3D de baixo custo, esperam em 2017 reunir 20 milhões de imagens de estruturas históricas em franco risco, e planejam substitutos em 3D para aqueles monumentos onde o impensado venha a acontecer.

A escolha do Instituto de Arqueologia Digital por parte de ArchDaily é uma reflexão sobre o fato de que defender monumentos culturais na região é mais que somente reter a memória. Tal como argumenta Amr Al-Azm num artigo para a revista TIME, “uma vez que a violência atual termine, o povo da Síria necessitará encontrar a maneira de se reconectar com símbolos que alguma vez os uniu através de linhas religiosas e políticas. O passado do país, representado em seu rico patrimônio cultural, é chave”. Com sua resposta high-tech a essa ameaça existencial, o Instituto de Arqueologia Digital não só está preservando o passado da região, como também ajudando a guardar seu futuro. [RS]

Oculus Rift 

Oculus Rift. Imagem © Agnese SanvitoOculus Rift. Imagem © Agnese Sanvito

Oculus Rift. Foto: Agnese Sanvito.

A representação arquitetônica têm, ao longo do tempo, buscado transmitir a essência dos edifícios através de diferentes meios, de croquis a vídeos. Mas estes meios, os únicos até certo tempo atrás, careciam da possibilidade de capturar e transmitir verdadeiramente a experiência de estar em um edifício. Estórias de arquitetos que viajavam para os cantos mais longínquos do mundo a fim de aprender sobre a arquitetura daqueles lugares sempre comentam destes viajantes desenhando os espaços que visitaram pessoalmente. Le Corbusier fez isso em sua viagem ao Oriente, registrando sua experiência em anotações e croquis. A onipresença e facilidade da fotografia também teve um grande impacto na representação da arquitetura, e nos últimos anos, o registro em vídeo de edifícios e espaços acrescentou outra camada à narrativa arquitetônica. Mas é a realidade virtual que realmente abre novas portas para os meios como podemos transmitir uma experiência real. Não importa a quantos croquis, fotografias, desenhos ou vídeos do Panteão tenhamos acesso, não o conhecemos até que estejamos lá fisicamente para ver a luz passar pelo seu óculo. Agora, no entanto, esta experiência foi aproximada e capturada de um modo que faz frente a uma viagem à Itália.

A inovação tecnológica e certa acessibilidade do Oculus Rift abrem um mundo completamente novo para os arquitetos. Nossa profissão se baseia em materializar novas realidades que serão experienciadas de diferentes formas (dependendo da hora do dia e da estação do ano, por exemplo) e filtradas pelo olhar único de cada usuário.

 Os avanços proporcionados pelo Oculus estão capitalizando as promessas dessa tecnologia e permitindo que os arquitetos transmitam a realidade por meios digitais. As oportunidades oferecidas pela realidade virtual são infinitas... e estimulantes. [DB]

Norman Foster

Droneport em Rwand.  Cortesia de Foster + PartnersDroneport em Rwand. Cortesia de Foster + Partners

Aeroporto de drones em Ruanda. Imagem cortesia: Foster + Partners.

Na década de 1960, Norman Foster surgiu no cenário arquitetônico britânico como um personagem chave no movimento High-Tech, que utilizava a tecnologia como solução para problemas arquitetônicos. 50 anos depois, teria sido fácil manter a estética do movimento; em vez disso Foster carrega a chama desse espírito. ArchDaily ficou particularmente impressionado este ano por sua proposta para um Aeroporto de Drones que ajudaria a abastecer comunidades rurais de Ruanda. Com esse projeto, Foster mostrou verdadeiramente o poder de utilizar a tecnologia para fins humanitários. [RS]

Categoria: Comprometimento com a Sociedade.
Lema da Bienal de Veneza 2016

Alejandro Aravena e Paolo Baratta.  Cortesia de Biennale di VeneziaAlejandro Aravena e Paolo Baratta. Cortesia de Biennale di Venezia

 Alejandro Aravena e Paolo Baratta. Imagem: cortesia da Biennale di Venezia.

Fiel a seu interesse por entender a arquitetura e as cidades como um atalho à igualdade, o arquiteto chileno Alejandro Aravena propôs como tema central da próxima Bienal de Arquitetura de Veneza "Reporting From the Front". Sob este tema, Aravena faz uma chamada a apresentar as batalhas com as quais os habitantes de diversos territórios do planeta lutam para melhorar seus entornos construídos, destacando práticas nas que, apesar da escassez de meios, puderam intensificar os recursos disponíveis.

Esse enfoque humanista que propõe Aravena à chamada da Bienal faz eco a uma tendência à qual o interesse das novas gerações se volta cada dia com mais força: a arquitetura com consciência social. Vimos com entusiasmo como os arquitetos jovens se sentem inspirados pela ideia de que desde suas próprias práticas podem contribuir à construção de um mundo melhor. Essa Bienal deveria ser o cenário perfeito de intercâmbio dessas experiências, numa versão mais inclusiva, que possivelmente diluiria o papel protagônico do arquiteto em uma figura mais coletiva, que envolve também as ações da sociedade civil e dos líderes políticos e sociais, em busca de melhorar nosso entorno construído. [PM]

Arquitetas Invisiveis

 Cortesia de Arquitetas Invisíveis Cortesia de Arquitetas Invisíveis

 Imagem: cortesia das Arquitetas Invisíveis.

O coletivo brasileiro Arquitetas Invisíveis, criado por estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília, promove a discussão sobre a igualdade de gênero dentro do âmbito da arquitetura e do urbanismo, por meio do reconhecimento e divulgação da vida e obra de arquitetas (des)prestigiadas pela história.

O coletivo iniciou suas pesquisas há dois anos em busca de mulheres que atuam no campo e descobriu diversos projetos de grande relevância que não tiveram o merecido destaque. No dia das mulheres de 2015 trouxeram à tona 48 arquitetas ao ArchDaily. Na proposta de divulgar e descobrir mais sobre o trabalho feminino na arquitetura, o coletivo abriu uma chamada pública de artigos que abordassem o tema e agora faz uma campanha de financiamento coletivo para possibilitar sua primeira publicação impressa. [VD]

PICO Estudio - Espaços de Paz

Espacios de Paz in Venezuela. Image Courtesy of PICO EstudioEspacios de Paz in Venezuela. Image Courtesy of PICO Estudio

Espaços de Paz na Venezuela. Imagem: courtesia do PICO Estúdio.


Formado em 2010, este coletivo venezuelano está devolvendo a boa arquitetura aos cidadãos. Seu trabalho em terreno se fez visível através dos Espaços de Paz, um exercício de projeto participativo que em dois anos pôde reunir mais de 30 equipes de arquitetos para levantar 10 novos espaços públicos nos bairros mais violentos e degradados de Venezuela.

Distanciados da caridade, das lógicas dos clientes e tomando a responsabilidade social do arquiteto como princípio básico, seus 13 integrantes conseguiram que cada um de seus projetos construídos fossem também um espaço de transferência de conhecimentos e experiências, baseados na cooperação e na retroalimentação entre diversos atores sociais. [JT]

Categoria Comprometimento Urbano
Prefeitura de São Paulo

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 Av. Paulista Aberta para todos aos domingos em São Paulo. Foto: Leandro de Moraes.

A Prefeitura de São Paulo aprovou o novo Plano Diretor da cidade em 2014, desde então seus principais eixos estruturais estão em andamento e já demonstram mudanças significativas no cotidiano da capital paulista, recebendo destaque da mídia internacional que avalia a atual gestão como visionária e corajosa.

Os princípios, estratégias e instrumentos do novo Plano Diretor se baseiam na criação do Fundo de Desenvolvimento Urbano, combate à ociosidade e retenção especulativa dos imóveis que não cumprem sua função social, compatibilização do crescimento urbano com um novo padrão de mobilidade, incentivos para que as novas construções melhorem a sua inserção urbana, além de reforçar o compromisso com a agenda ambiental e abordar outros pontos fundamentais como a habitação e zonas de interesse especial.

Mesmo sob pressão de uma sociedade conservadora, a atual gestão conseguiu impulsionar e ganhar reconhecimento da população em algumas de suas principais ações, como inserir uma rede de ciclovias que possibilitam o uso - até então inimaginável - de bicicletas, criar novas faixas exclusivas para ônibus, abrir a avenida Paulista – ícone da cidade – para que os pedestres possam ocupá-la durante todos os domingos, incentivar a arte e cultura urbana.

Janette Sadik-Khan, ex-secretária de transportes de Nova York, considera que a atual gestão está preparando o terreno para uma São Paulo mais sustentável. Se ainda não é possível colocar a maior cidade da América Latina como uma das mais desenvolvidas num âmbito global, certamente pode-se concluir que ela deu grandes passos para atingir este objetivo. [ADBR]

Creative Camp do Canal 180

 A pacata e criativa cidade de Abrantes. Foto: cortesia Canal 180.

Localizado a curta distância da capital de Portugal, na adormecida cidade de Abrantes, um efervescente grupo de jovens artistas, músicos, designers e arquitetos são talvez a última coisa que se esperaria encontrar. Durante uma semana de julho, um festival (chamado “campo criativo”) organizado pelo canal de televisão aberta, o Canal 180, proporcionou um notável aumento na vida dessa pequena e tranquila cidade. O foco em arquitetura e design do Canal 180 os levou a convidar ArchDaily a participar na seleção de projetos de intervenção urbana. [BQ]

Discussão sobre Espaço Público no México

Iztapalapa. Image © Alejandro GutiérrezIztapalapa. Image © Alejandro Gutiérrez

Iztapalapa. Foto: Alejandro Gutiérrez.

O apagado contexto atual de Iztapalapa, uma das zonas mais desvalorizadas mas com grande riqueza ancestral de Cidade do México, tem sido um ponto focal para arquitetos e urbanistas, tanto locais como estrangeiros, que apostam pela recuperação do espaço público como meio de melhoria da habitabilidade e como unificador da estrutura social e cultural.

O exemplo desses três pontos urbanos reabilitados em seus aspectos formais e funcionais cria, a partir dessa discussão articulada com a comunidade, um efeito dominó para combater a insegurança e melhor a qualidade de vida dos habitantes. [DC]

Categoria: Projeto e Conceituação

Freddy Mamani

Trabalho de Freddy Mamani em El Alto. Foto: Alfredo Zeballos.

Freddy Mamani, arquiteto aimara boliviano, em sua infância brincava com os montes de areia, cimento e brita com que trabalhava seu pai. Sendo pedreiro, quis dar um passo adiante e estudou engenharia, construção e, recentemente, arquitetura. Aos 44 anos, já construiu mais de 60 obras em El Alto, propondo uma nova “arquitetura andina”. Em seus projetos em altura, concentra um rentável programa misto (comercial, residencial e social) caracterizado por um desenho eclético e formalmente expressivo, tanto em seu interior com em seu exterior, através de cores chamativas e elementos geométricos que projeta em obra, inspirados na cultura Tiahuanaco, antecedente do Império Inca.

Além do formalismo e rejeição local por parte das universidades e da elite branca, Mamani é uma resposta da convergência de específicos fatores econômicos, sociais e políticos na Bolívia. A nova burguesia comercial aimara, surgida no calor da expansão sem planejamento e controle de El Alto –a periferia de La Paz–, encontrou em Mamani alguém sem imposições academicistas que pretendia plasmar a identidade aimará na arquitetura, no consolidado processo plurinacional boliviano depois da ascensão de Evo Morales, seu primeiro presidente indígena. [NV]

Bienal de Arquitetura de Chicago

Johnston Marklee (Los Angeles, US). House is a House is a House is a House, 2015. Gramazio Kohler Research, ETH Zurich (Zurich, Switzerland) + Self-Assembly Lab, MIT (Cambridge, Massachusetts, United States). Rock Print, 2015. Photo Tom Harris, Copyright Hedrich Blessing.  Cortesia de Chicago Architecture BiennialJohnston Marklee (Los Angeles, US). House is a House is a House is a House, 2015. Gramazio Kohler Research, ETH Zurich (Zurich, Switzerland) + Self-Assembly Lab, MIT (Cambridge, Massachusetts, United States). Rock Print, 2015. Photo Tom Harris, Copyright Hedrich Blessing. Cortesia de Chicago Architecture Biennial

'House is a House is a House is a House', 2015. Foto: Tom Harris / Cortesia da Chicago Architecture Biennial.

A tão esperada Bienal de Chicago cumpriu com todas as expectativas. Desde a construção de casas em escala real até a decisão dos curadores em destacar uma incrível gama de obras, a Bienal aproximou a arquitetura ao público de uma maneira sem precedentes (pelo menos nesse século e para América do Norte). Ao mesmo tempo, os arquitetos se uniram numa conversa sumamente frutífera e inclusive controversa. ArchDaily reconhece não só os organizadores e curadores da Bienal mas também Chicago como uma cidade com iniciativa. Ver como a cidade promove a preocupação pelo entorno construído é um algo notável. Revisa nossa cobertura da Bienal aqui. [BQ]
 
Assemble Architects
Design for a winter garden in a derelict home in Granby Four Streets.  Cortesia de AssembleDesign for a winter garden in a derelict home in Granby Four Streets. Cortesia de Assemble
 
Projeto de jardim de inverno em casa abandonada em Granby Four Streets. Cortesia: Assemble.
 

Fundado em 2010, o coletivo britânico Assemble se move entre a arte, o design e a arquitetura, utilizando seus projetos como “ferramentas para melhorar a vida social e cultural”. Seu trabalho ganhou força e reconhecimento internacional este ano ao levar seu interesse em “abordar a desconexão entre o público e o processo de criação de lugares” à primeira Bienal de Arquitetura de Chicago. Recentemente, tornaram-se os primeiros arquitetos a ganhar o Prêmio Turner pelo projeto Granby Four Streets, que enfrenta o atual processo de gentrificação em Toxteth, Liverpool. [JTF]

Categoria: Sustentabilidade Social, Ambiental e Econômica

Global South Architecture

Pós-Desastre de uma escola por Vin Varavarn Architects. Imagem © Spaceshift StudioPós-Desastre de uma escola por Vin Varavarn Architects. Imagem © Spaceshift Studio

Reparos de um escola pós-desastre feito pela Vin Varavarn Architects. Foto: Spaceshift Studio.

O conceito de Sul Global é mais amplo que a definição estritamente econômica. Não se trata apenas dos países em desenvolvimento e daqueles ainda estagnados, mas também de um terreno fértil para a experimentação, desenvolvimento e consolidação de um tipo de arquitetura focada na identidade local e que recupera sua experiência construtiva e espacial, porém, adaptando-se a alguns cânones globais do “mundo desenvolvido”. Assim, o reconhecimento por parte do ArchDaily pretende destacar esta arquitetura local em um contexto global cada vez mais consciente de seu ecossistema econômico, social e político.

Em 2013, o então Diretor Geral da Organização Mundial do Comércio, Pascal Lamy, se referiu à África como o continente do crescimento do século XXI. Esse crescimento previsto significa um desafio para os arquitetos: projeta-se que em 2030 a população do continente cresça 58% comparado a 2010. No mesmo período, a porcentagem da população urbana passará de 36% a 50%, somando quase 450 milhões de novos residentes às cidades africanas em apenas duas décadas.

A responsabilidade de satisfazer essa demanda cairá principalmente nas mãos dos arquitetos africanos. Nos últimos anos vimos gratificamente o surgimento de um crescente número de arquitetos africanos incrivelmente talentosos: desde David AdjayeFrancis Kéré Kunlé Adeyemi, que triunfaram fora de seus países e depois regressaram, a profissionais como Mokona Makeka e Mphethi Morojele, até jovens promessas como Christian Benimana (MASS Design Group), que este ano apresentou uma proposta para a Bauhaus da África à ONU, com o objetivo de capacitar a próxima geração de arquitetos do continente.

National Park of Mali / Kere Architecture. Imagem © Iwan BaanNational Park of Mali / Kere Architecture. Imagem © Iwan Baan

Parque Nacional do Mali / Kere Architecture. Foto: Iwan Baan.

 

Entre as diversas dicotomias dos países asiáticos, dois fatores em comum: a constante necessidade de criar novos espaços para o habitar devido a alta densidade populacional e a ameaça permanente dos desastres naturais. Eles devem construir e reconstruir permanentemente.

O grande desafio dos arquitetos reside na produção de arquitetura duradoura e de qualidade em contrapartida a arquitetura efêmera de emergência. Esta aparente problemática se transforma em uma oportunidade de criar soluções rápidas, de baixo custo e eficientes, variáveis de acordo a realidade econômica de cada país.

Condição que, de certa forma, instigou os grandes arquitetos à repensar o modo de produzir em outras escalas e proporções  de valores -rapidez de execução, materiais alternativos e dimensões reduzidas - reaproximando-se da arquitetura vernacular e das tradições locais. Entre eles: o arquiteto japonês e Pritzker 2014, Shigeru Ban, desenvolveu projetos inovadores de refúgios emergenciais, habitacionais e equipamentos comunitários utilizando  material reciclado. No Vietnã, respondendo à demanda habitacional em setores de pouco recurso, os arquitetos do Vo Trong Nghia, criaram protótipos de habitação acessíveis, de fácil montagem e remontagem, usando o  bambu, como matéria-prima  básica - abundante na região.  Ambos exemplos citados, conseguiram de distintas formas, aproximar segmentos da sociedade através da boa arquitetura e atender  um maior numero de pessoas.

Diamond Island Community Center / Vo Trong Nghia Architects. Image © Hiroyuki OkiDiamond Island Community Center / Vo Trong Nghia Architects. Image © Hiroyuki Oki

 Centro Comunitário Ilha Diamante / Vo Trong Nghia Architects. Foto: Hiroyuki Oki.

A América Latina é rica em diversidade cultural, no entanto, o status quo da arquitetura tem premiado nas últimas décadas os projetos que transmitem uma imagem globalizada de desenvolvimento, de fachadas envidraçadas e completa desconexão com o contexto urbano, ou bem, a natureza como pano de fundo para complementar inspirações formais. 

Agora, enquanto a arquitetura chilena, mexicana, peruana e argentina se voltam para as cidades, por toda a América Latina surgem coletivos jovens que saem às ruas para enfrentar o projeto participativo em povoados que mais necessitam, como é o caso de Arquitectura Expandida (Colômbia) e PICO Estudio (Venezuela). A América Latina permanece num limbo entre o desenvolvimento econômico e a carência de serviços básicos. Enquanto o gt2P e o LAB.PRO.FAB expandem o exercício do desenho paramétrico no continente, aqui é onde a lógica do projeto para o “1%” começou, timidamente, a se quebrar.

O discurso atual tem reconhecido o projeto coerente, sem ostentações, porém eficiente, conceitualmente sólido, consciente do ecossistema econômico e social de seu entorno e com capacidade de construir na escassez de recursos, como o recente segundo lugar do ODA, Smiljan Radic (Chile), Estúdio Terra e Tuma (Brasil), Gabinete de Arquitectura (Paraguai) y AMA (Peru).

Produto de seu amadurecimento, o desafio que enfrentará a maior parte destes arquitetos é ver se são capazes de ampliar a escala de seus modelos de gestão, projeto e construção. No caso dos coletivos emergentes, trata-se de colocar à prova a coerência entre teoria e prática, resistindo à rotatividade de suas equipes.

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Participaram da nomeação, votação e redação dos textos: David Basulto (Fundador, CEO e Editor-Chefe), Becky Quintal (Editora Executiva), Pola Mora (Editora-Chefe, ArchDaily em Español/Plataforma Arquitectura), Joanna Helm (Editora-Chefe, ArchDaily Brasil), Rory Stott (Managing Editor, ArchDaily), Katie Watkins (Editor, ArchDaily), James Taylor Foster (Editor, ArchDaily), José Tomás Franco (Editor de Conteúdos, ArchDaily en Español), Nicolás Valencia (Editor de Conteúdos, ArchDaily en Español), Daniela Cruz (Editora de Conteúdos, ArchDaily México), Fernanda Castro (Editor de Conteúdo, Projeto), Diego Hernández (Production Editor, Projects), Danae Santibáñez (Editora Latam/Espanha ArchDaily), Luca Ameri (Editor, ArchDaily), Igor Fracalossi (Editor de Clássicos e Artigos, ArchDaily Brasil), Pedro Vada (Editor de Projetos, ArchDaily Brasil), Victor Delaqua (Editor, ArchDaily Brasil), Romullo Baratto (Editor, ArchDaily Brasil).

 

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Fonte: ArchDaily.


A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria de Serviços, entregou oficialmente nesta quinta-feira (17/12), em cerimônia realizada na Subprefeitura de Pinheiros, a nova iluminação da Marginal do Pinheiros. A obra que levou um ano para ser concluída exigiu investimentos de R$ 24,7 milhões. São 45 quilômetros de vias iluminadas por 3.409 luminárias LED – vai desde o Complexo Viário Heróis de 1932 (Cebolão) até a Avenida Interlagos nos dois sentidos.

“É apenas uma inauguração simbólica para uma obra muito importante para a cidade de São Paulo”, enfatizou a subprefeita de Pinheiros, Harmi Takyia, ao lembrar que a nova iluminação contribuiu para aumentar a sensação de segurança na região onde a subprefeitura está instalada.

“O término da obra é uma grande festa para a cidade. Imaginávamos conclui-la em apenas três meses, mas alterações no projeto como a de estendê-la até a Avenida Interlagos fez com que o prazo se alongasse”, lembrou Simão Pedro. “Sem dúvida, é uma obra de grande porte, que trouxe mais segurança aos motoristas e valorização à região”, destacou.

Ao falar sobre os benefícios dessa tecnologia – ilumina o dobro em relação às lâmpadas de vapor de sódio e consome cerca de 50% menos de energia elétrica-,o secretário revelou que este foi um dos motivos pelos quais vários trechos de São Paulo passaram a ser iluminados por LED.

Segundo ele, as experiências realizadas em avenidas como a Marginal do Pinheiros e 23 de Maio, bem como baixos do Elevado Costa e Silva (Minhocão), entre outras, contribuíram para que se partisse para um projeto maior, o de iluminar bairros inteiros por esse meio. O primeiro a ser beneficiado foi Heliópolis, que recebeu 1.277 luminárias, ao custo de R$ 3 milhões. O próximo passo, já iniciado pelo Jardim Monte Azul, região do M’Boi Mirim, prevê a remodelação de 10% de toda a cidade até a metade de 2016. Serão aproximadamente 55 mil luminárias a serem distribuídas pelos cerca de 200 bairros da Brasilândia, Sapopemba, Jardim Ângela, Lageado, Jardim Helena e Raposo Tavares, num investimento próximo a R$ 200 milhões.

Em sua fala, o diretor do Departamento de Iluminação Pública (Ilume), Alberto Serra, lembrou que a cidade possui aproximadamente 618 mil lâmpadas, e que obras como as da Marginal, além da implantação de 50 mil novos pontos em todo o município, contribuíram para que cerca de 50% do parque luminotécnico fosse remodelado nos últimos três anos.

Também presente ao acontecimento, o secretário de Direitos Humanos e Cidadania, Eduardo Suplicy, salientou que paralelamente à diminuição da velocidade imposta pela atual gestão nas principais vias, a nova iluminação da Marginal também está contribuindo para a redução de mortes provocadas pelo trânsito. “Tenho essa convicção porque ela amplia a visão dos motoristas”, enfatizou.

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Fonte: Secretaria Municipal de Serviços.


"Não se esqueça da minha Caloi", campanha criada pela house agency Novo Ciclo nos anos 1970, ficou gravada no imaginário infantil e popular e faz remissão a pais esquecidos de um dos presentes mais emblemáticos na cesta de fim de ano. Hoje, bike é sinônimo de qualidade de vida, mobilidade urbana no trânsito caótico de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, qualidade de vida.

Ciclofaixas e ciclovias estão em ascensão. A pioneira Bradesco Seguros está comemorando seis anos do seu projeto “CicloFaixa de Lazer”, que contabiliza 120,7 quilômetros de vias demarcadas na capital paulista, uma média de 120 mil pessoas pedalando aos domingos e feriados, cerca de 19 mil cones de segurança e pontos estratégicos com o serviço SOS Bike, que faz consertos gratuitos para os praticantes das pedaladas do bem.

O Itaú disponibiliza aluguel de bicicletas na cor laranja em São Paulo e no Rio de Janeiro, com preço subsidiado. O projeto teve início na capital fluminense e ajudou a marca a estreitar o relacionamento com a cidade, como costuma enfatizar o publicitário Nizan Guanaes, um entusiasta da ideia, que ajudou a construir o branding do banco nos últimos 20 anos.

Em São Paulo, a bicicleta não desfila apenas pelos espaços destinados ao veículo. Ela é tema de discussões que vão desde segurança, subtração de vagas, lojas que alegam ter perdido clientela com as ciclofaixas, críticas ao prefeito Fernando Haddad etc. Uma pesquisa encomendada pela Nova/SB ao Instituto Ilumeo apurou esse contraditório. O diretor de planejamento da agência Nova/SB, o executivo Sergio Silva, elenca alguns itens que provocam questionamentos: ciclistas vão ser alvos fáceis de bandidos, respiram mais poluição, aqui (São Paulo) não é Europa, projeto elitista, topografia péssima e algo para longo prazo.

“As pessoas demonstram que a preocupação com mobilidade nas metrópoles causa estresse. Quem tem smartphone usa Waze e Google Maps, para ver o melhor deslocamento. Em ônibus, utiliza o Moovit, que indica o tempo da viagem, o horário de chegada nos terminais e o trajeto. As ciclovias são necessárias. Em São Paulo, elas começam a ser ocupadas. É um processo irreversível. Em Bogotá, já são 359 km de ciclovias; a Cidade do México já ultrapassou os 100 km. Não podemos esquecer que a Holanda e a Dinamarca, países que são identificados como amigáveis à bicicleta, foram radicalmente contrários à implantação. O legal é que a ciclovia se integra a outros meios de mobilidade”, diz Silva, que atende, na agência, à Prefeitura de São Paulo.

Por outro lado, ambientalistas e especialistas em mobilidade urbana consideram inevitável a consolidação da bicicleta como meio de transporte. “A aceitação é progressiva. O ponto de partida vai conduzir à humanização. Como o trânsito só piora, a bicicleta vai ser alternativa. A estação Fradique Coutinho do metrô paulistano foi inaugurada com bicicletário. Outras estações estão adotando o modelo. São Paulo e outras cidades passaram a ter bares temáticos. Não tem volta”, acrescenta o diretor da nova/sb.

Assim como o skate, a bike está introduzindo um novo conceito de cultura urbana. Bares, lojas, parques e cafés passaram a servir de ponto de encontro e convivência. O Las Magrelas, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, é um espaço multidisciplinar com café, oficina, bar e galeria de arte. Esse coletivo ainda incrementa festas, gincanas e rodadas de videogame. No mesmo bairro, tem o KOF (King of the Fork), um café que une bike-lovers. Pertinho desses espaços foi inaugurado, há dois meses, um bicicletário no Largo da Batata.

A frota nacional de bicicletas é superior a 70 milhões de unidades. São comercializadas cerca de cinco milhões por ano. A tendência é de crescimento. O modismo ampliou o volume de bike-entregas em pizzarias, restaurantes e farmácias. Em São Paulo, o fechamento da Av. Paulista aos domingos intensificou o volume de clientes em lanchonetes, shoppings e food trucks. A Sodexo passou a patrocinar o Papai Noel de Bike em São Paulo.

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Paulo Macedo no PropMark.

 


Há muito tempo ouvi a seguinte afirmação: o ciclista é um explorador. Hoje percebo como ela é perfeita: pedalar por São Paulo faz a gente ficar mais curioso, querer explorar rotas alternativas aos caminhos que faz, procurar atalhos ou simplesmente sair sem rumo. Por isso, como donos de bancas de jornal e taxistas, o ciclista urbano é alguém que conhece muito bem os caminhos secretos da cidade.
 
Ter uma vida que cabe na mochila Quando se está de carro, é muito comum carregar coisas que não são usadas no dia-a-dia mas que vão se acumulando no porta-malas, banco traseiro ou mesmo pelo carro inteiro. Na bicicleta, mesmo aquela equipada com bagageiro e outros itens para carga, a capacidade é reduzida e você acaba carregando só o essencial. Pode parecer complicado no começo, mas depois de um tempo você vai pedalar com a sensação de que tudo o que precisa no cotidiano cabe na bicicleta.
 
Ponte móvel sobre o rio GuarapirangaPonte móvel sobre o rio Guarapiranga

Ponte Friedrich Bayer em Santo Amaro. Foto: Alex Gomes.
 
Ir e vir facilmente
Você está pedalando e topa com uma rua interditada. Sem problemas: vire a bicicleta e volte. Há algum obstáculo? Desvie e siga. A agilidade é um dos principais trunfos do ciclista. E pelo fato de a bicicleta deixar a pessoa em uma altura mais elevada que a dos carros, o ciclista tem um campo visual ampliado e consegue perceber com mais facilidade problemas há muitos metros adiante.
 
Querer pedalar mais longe No começo serão as pedaladas aos domingos, depois algumas durante a semana pra relaxar após o trabalho, daí você vai tentar ir trabalhar de bicicleta e, ao se dar conta, já está utilizando a bike no máximo de deslocamentos possíveis. Quando a gente percebe que consegue circular movido pelo próprio esforço, a sensação de querer ir além é automática.
 
Travessa Augusto Aníbal – V. OlímpiaTravessa Augusto Aníbal – V. Olímpia

Travessa Augusto Aníbal na Vila Olímpia. Foto: Alex Gomes.
 
Redescobrir a cidade
“Você redescobre a cidade”. Esse é um chavão que todo mundo que pedala em São Paulo diz. Faça o teste: dê uma volta de bicicleta pelo seu bairro e perceba quantas coisas que você nunca tinha notado parecem surgir. Por isso, ao pedalar acostume-se a andar com um celular ou uma câmera: você vai querer fotografar muitas coisas pelo caminho. Tenho amigos que pedalam com blocos de anotações e estão sempre registrando uma das inúmeras ideias que a metrópole inspira. Pedalar é mudar o jeito de ver a cidade e São Paulo, vaidosa, corresponde a esse olhar. Como disse o filósofo francês Gaston Bachelard, “as coisas devolvem-nos o que nelas procuramos”.

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Alex Gomes no Blog São Paulo na Bike.
 


O carro se aproxima rapidamente e o motorista buzina sem parar. Na esquina, o som chega antes do veículo, onde, no banco do passageiro, um homem branco, pálido e de cabelos grisalhos tem a boca aberta e torta, os olhos revirados. Uma mulher está com metade do corpo apoiado na janela de trás e gesticula para afastar os pedestres que iriam cruzar a rua.

“É para cá, é para cá”, grita ao motorista. Ela é morena e tem seios grandes, que saltam no decote da blusa de alcinha. Se segura quando o carro faz a curva. É a esquina do Hospital do Mandaqui, na zona norte.

A cena durou cinco segundos. Quem estava na fila do semáforo ou no ônibus vizinho talvez nem a tenha visto. Mas aquela imagem ficou na memória do grupo que, de mochilão nas costas, esperava o sinal abrir.

Durante três dias, em novembro, essas dez pessoas cruzaram a capital paulista a pé, de sul a norte. A sãopaulo acompanhou a expedição e presenciou episódios, como o narrado acima, que aconteceram pelo caminho. Andar pela metrópole é como ver a vida em câmara lenta, já que não se segue o ritmo dos carros. É estar mais devagar do que a cidade.

O trajeto foi de 65 km, do Grajaú (zona sul) à serra da Cantareira (norte). Chamada Travessia Ponto-à-Ponta, a caminhada foi organizada pelo arquiteto e artista plástico Renato Hofer.

 

 

Contrastes

Cinema no sul

Depois de um café na Cinemateca, na Vila Clementino, o professor de literatura Marco Roberto, 38,
e a psicóloga Simone Munhoz, 50, iriam assistir a um filme espanhol. 
Para Roberto, o melhor da cidade são os cinemas, museus e teatros.
"São Paulo é esse laboratório cultural que nos permite compreender o mundo em suas diferentes perspectivas."

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São Paulo é várias em uma. É cidade pequena onde comadres se cumprimentam no portão e o vizinho vende geladinho a R$ 0,75. Tem cara de litoral, com deques, estacionamentos de barcos e crianças que brincam na água. E pode ser chique, com casarões murados e festas na piscina, ou pobre, em barracos amontados num vale.

A travessia começou pelo interior. A partida foi às 8h de 20 de novembro, feriado, na estação Grajaú da CPTM, ponto final do transporte por trilhos na capital. A chuva que caíra durante toda a noite havia cessado e o grupo começou a caminhada nas ruas vazias do bairro de classe baixa, onde só mercadinhos estavam abertos. Ao sair de casa, uma senhora chamou a outra, que passava na calçada: “Tudo bem, querida?”. No sobe e desce dos morros, só um papagaio falava.

O clima litorâneo apareceu próximo à Guarapiranga (também no sul), no antigo Iate Clube Santa Paula, onde a elite paulistana se reunia para velejar e nadar na piscina, hoje vazia. Até 17 mil pessoas aproveitavam shows num enorme salão de bailes. O prédio, usado como depósito, está esquecido.

Às margens da água, um homem colocava uma minhoca no anzol para atrair piranhas e lambaris. Assistente administrativo, Márcio Saraiva, 40, costuma soltar os peixes. Quando não, come-os “fritinhos, com birita para acompanhar”. Ao lado dele, meninos molhavam os pés na Guarapiranga.

Ao fundo da pescaria, um conjunto residencial despontava na paisagem. Era o começo de uma mudança de cenário que acompanharia os caminhantes por boa parte do percurso. Em Santo Amaro, Campo Belo, Vila Mariana, Cambuci, Pari, Carandiru, Santana e Jardim Peri impera o cimento, em forma de casas ou prédios, até a floresta chegar, no extremo norte.

O que diferencia as zonas urbanas são as classes sociais que as povoam. “Aqui cabem cinco lotes do Grajaú”, disse o coordenador da expedição, Renato Hofer, ao ver um terreno no Alto da Boa Vista, área rica da zona sul.

No bairro pobre, os espaços das árvores foram tomados por sobrados pequenos e em mau estado. No Alto da Boa Vista, o verde abundante, os casarões refinados e as mulheres de roupa esportiva, passeando com goldens retrievers, faziam o visitante se sentir na Beverly Hills paulistana.

Turistas locais
 

Galinhada no centro

No coração do Canindé, ao lado do estádio da Portuguesa, uma placa de Raimundo Soares em tamanho real anuncia que a
Galinhada do Bahia está próxima. Há 40 anos na cidade, Soares é dono do restaurante que fica numa pequena vila.
Desde que chegou, vindo do interior da Bahia, mora ali. "É tranquilo, bom. Dá para curtir um forrozinho saudável."

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No mesmo Alto da Boa Vista, a expedição causava estranhamento por andar pelo concreto com roupa de trekking, às 15h de um feriado ensolarado.

Ao passar pelas calçadas, dava para ouvir os mergulhos nas piscinas e risadas dos moradores. Com calor, participantes da travessia se intrometeram em um churrasco, numa casa de muros baixos, para pedir água.

Um jovem loiro pareceu intrigado com o pedido. “Ah, claro!”, disse enquanto entregava as garrafas para um amigo encher. Tocava “Palco”, de Gilberto Gil:

–“Vocês estudam por aqui?”

–“Não, estamos passando só.”

–“São estrangeiras?”

– “Não, brasileiras.”

–“Mas de que Estado?”

–“Daqui de São Paulo mesmo. Estamos cruzando a cidade a pé.”

–“Para conhecer mais”¦”

– “Hm, legal. Interessante.” O amigo voltou e a viagem seguiu.

Perguntas como essas e olhares curiosos apareceram durante toda a caminhada. No Pari (centro), em uma rua sem saída, dois meninos que jogavam bola não paravam de encarar. “Ei, quem são vocês?”, repetiam.

As câmeras fotográficas também provocavam a curiosidade alheia. A questão do jovem loiro fez sentido –vocês são turistas?– quando os participantes se reuniram ao redor de um córrego do Grajaú para fotografá-lo. “Peraí, tenho que tirar uma foto.”

Mais a frente, o italiano Filippo Meucci, que integrava a expedição, sacou a Nikon analógica para fazer imagens do Tietê. Enquanto isso, motoristas viravam a cabeça para ver melhor a cena. Do Tietê? “A situação dos rios me toca. Eles viraram a parte ruim da cidade. Na Europa, é a parte nobre. No norte da Itália dá até para nadar.”

Foi para ver São Paulo do jeito como vê a Itália, onde esteve mais de dez vezes, que a designer e arquiteta Aya Nakai, 42, decidiu fazer a travessia. “Para saber se consigo ter um olhar de turista e me encantar com as coisas como em qualquer outra cidade.”

A expedição funcionou mesmo como uma viagem. Apesar da rota passar ao lado e dentro de estações de metrô, o grupo continuou a pé. A sensação era a de estar em uma trilha na floresta, onde não há mais opções a não ser continuar caminhando.

À noite, as pousadas foram nas casas de moradores dos bairros. Primeiro, na Vila Mariana (zona sul). Depois, no Jardim Peri (zona norte). O esquema foi parecido ao de um acampamento, onde uns usaram barracas e outros, sacos de dormir.

Mas ninguém havia saído da cidade. A ficha só caiu no retorno, feito de transporte público. Se a ida demorou 72 horas, a volta foi feita em 90 minutos. Cada luz que se acendia no painel do metrô eram quilômetros de pernada. “Como é rápido”, disseram alguns.

Cidade do carro
 

Verde no norte

Quando Aurelina Bezerra, 66, se mudou para o Jardim Peri, as árvores da serra da Cantareira ficavam pertinho de sua casa.
"Abria a janela, olhava aquele verdão e me sentia muito bem, agora nem tanto." Isso porque construções foram afastando Aurelina e o verde.
O que a consola são os pés de manga e limão que cultiva em vasos no quintal. "Aqui é o meu templo."

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Mais do que ato turístico, caminhar pela metrópole é um ato político, afirma o idealizador da expedição, Renato Hofer. Para ele, andar vai contra ideias predominantes, como a de de que você precisa ter um carro para viver.

“Essa é a cidade do automóvel. As pessoas fazem duas quadras de carro, vão à padaria de carro. Isso está muito inserido no universo delas. Vivemos na cidade do muro, do medo.”

Em trechos do caminho, a ausência de pedestres tornava o ambiente meio assustador. Nos arredores das grandes vias, como a Radial Leste, e debaixo dos viadutos, era raro cruzar com outras pessoas. As calçadas também não facilitavam a vida dos integrantes da expedição. Estreitas, obrigavam parte deles a andar pela rua.

Ao lado da estação Brás (centro), apesar do ir e vir dos trens da CPTM, a impressão era de que o lugar estava abandonado. Só um mendigo dormia por ali. A decisão foi conjunta: era melhor apressar o passo e ir embora.

“Pode ser algo banal, mas o único modo de ter uma cidade segura é haver gente caminhando pela rua”, escreve o italiano Francesco Careri no posfácio da edição brasileira de “Walkscapes”, lançado no país há dois anos. Careri, que esteve ma última Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 2013, fala sobre como circular a pé por aqui é diferente de fazer trajetos na Europa.

“Na América do Sul, caminhar significa enfrentar muitos medos: medo da cidade, medo do espaço público, medo de infringir as regras (…) e medo dos outros cidadãos, quase sempre percebidos como inimigos potenciais. Simplesmente, o caminhar dá medo, e, por isso, não se caminha mais (…).”

Nos anos 1990, Careri fundou o Stalker, projeto que propunha percorrer andando os limites de cidades europeias, buscando conhecer espaços que não estavam nos guias turísticos.

Em “Walkscapes”, ele conta que esse tipo de atividade não é novo. Começou com os dadaístas nos anos 1920 e foi usado por outras vanguardas artísticas. Caminhar tornou-se uma forma de fazer arte. Mas, também, de entender a cidade. O autor fala do prazer de “perder-se para conhecer”.

Os integrantes da travessia concordam. Para eles, não há melhor maneira de compreender São Paulo. Renato Hofer diz que andar é uma forma intensa de viver o território. Já o urbanista Roberto Fontes fala de “construir uma imagem” da metrópole na cabeça.

Para o italiano Filippo Meucci, que fotografou o Tietê, caminhar é ver de camarote a vida acontecendo. “Há tempo para olhar as pessoas, perceber o que fazem nas lojas, no cantinho da praça, o que falam entre si. Teve pessoas brigando, tomando alcoólicos no buteco…”

Um comerciante oferecendo perfumes em bandejas de isopor, africanos vendendo camisetas de futebol, velhinhas comprando véus brancos na frente da igreja, um cavalo olhando –de trás do muro– o movimento da rua, macacos brincando nas árvores, crianças brincando no chão, meninos brincando de lutar, homens brigando no bar, pinga no boteco, galinhada no restaurante de uma vila onde não passa ninguém, a avenida onde não para ninguém, o silêncio, o barulho. A vida, todos os dias, se misturando nas ruas.

Assista o vídeo: https://youtu.be/vm9NlPJMOrM

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Reportagem: Ingrid Fagundez / Design e desenvolvimento: Pilker e Ricardo Ampudia / Fotos e vídeos: Giovanni Bello. Revista São Paulo.


A população da cidade de São Paulo escolherá, neste domingo (6), os 1.162 novos representantes das 32 subprefeituras para compor o segundo biênio do Conselho Participativo Municipal. Criado em 2013, o conselho é um organismo autônomo da sociedade civil, reconhecido pela Prefeitura de São Paulo como instância de representação popular dos moradores de cada uma das regiões da cidade. 

Os conselheiros que serão eleitos terão a missão de fiscalizar e acompanhar as ações e gastos públicos de cada subprefeitura e das secretarias municipais e também apresentar demandas, necessidades e prioridades da população na área de sua abrangência. O mandato dos 1.113 conselheiros eleitos em dezembro de 2013 se encerra em janeiro do próximo ano, quando os novos integrantes tomarão posse para um mandato de dois anos, até janeiro de 2018. O segundo biênio do Conselho Participativo Municipal terá a participação de, no mínimo, 50% de mulheres em sua composição, garantida por lei sancionada pelo prefeito Fernando Haddad.

A eleição dos novos membros do conselho acontecerá por voto direto e não obrigatório, em meio manual. Poderão votar todas as pessoas com mais de 16 anos e portadoras de título de eleitor da capital paulista. Os eleitores também poderão apresentar um documento de identificação com foto expedido por órgão público. Os cidadãos poderão escolher até cinco conselheiros, de diferentes regiões ou de uma mesma localidade, de acordo com seu critério. Confira a lista de candidatos para a eleição.

Os locais de votação de cada eleitor não são os mesmos das eleições organizadas pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP). Os cidadãos poderão consultar onde votam digitando o número do título de eleitor no site do Conselho Participativo Municipal. No total, serão 154 endereços.

Os imigrantes também terão 35 cadeiras garantidas em 29 subprefeituras que contam com uma parcela representativa dessa população dentro de seus habitantes. As exceções são M’Boi Mirim, Cidade Tiradentes e Capela do Socorro, que não elegerão conselheiros imigrantes. No geral, cada subprefeitura terá uma vaga para imigrantes. Nas subprefeituras da Mooca, Vila Mariana, Sé e Vila Maria serão duas vagas; e em Pinheiros, três. Ao contrário do primeiro biênio, os eleitores imigrantes também votarão no domingo (6), mas com o local de votação restrito às sedes das 29 subprefeituras. Para votar, é preciso ser residente na cidade de São Paulo e apresentar documentação comprobatória no local de votação. Estão inscritos 93 candidatos imigrantes.

Atendendo a um pedido dos conselheiros atuais, os eleitos para o próximo mandato terão direito ao bilhete único gratuito, que deverá auxiliar nas tarefas de acompanhar reuniões e nas ações de fiscalização e acompanhamento dos serviços públicos.

Conselho

O Conselho Participativo Municipal tem entre 19 e 51 integrantes por bairro, de acordo com o tamanho da população, sendo em média um representante para cada 10 mil habitantes nas 32 subprefeituras. As eleições para a primeira composição do conselho aconteceram em dezembro de 2013, reuniram quase 3.000 candidatos e mais de 120 mil cidadãos puderam votar em até cinco representantes de seu bairro. Os 1.113 eleitos foram empossados no dia 25 de janeiro do ano passado, dia do aniversário da cidade.

Além dos candidatos brasileiros, em abril do ano passado, 20 imigrantes de 12 nacionalidades diferentes, moradores de 19 subprefeituras, foram eleitos conselheiros por voto direto de outros imigrantes. Ao todo, mais de 1.700 pessoas participaram dessa eleição, com 1.694 votos válidos. A abertura para imigrantes foi feita nas subprefeituras que apresentam pelo menos 0,5% de estrangeiros em sua população. 

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Fonte: Secretaria Executiva de Comunicação.

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