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Cidades como Paris foram reformadas e qualificadas no século 19 com pretexto de enfrentar doenças. Foto: Getty Images.Cidades como Paris foram reformadas e qualificadas no século 19 com pretexto de enfrentar doenças. Foto: Getty Images.

Cidades e epidemias têm uma relação intrincada. Ao longo da história, cidades se constituíram como locais propícios à disseminação de doenças. Centros econômicos, sociais e culturais, vocacionadas para conectar ideias e desenvolver soluções, responderam às epidemias com inovação. Mas a melhoria do espaço urbano – com saneamento e fornecimento de água, construção de parques e espaços abertos, melhores condições de transporte – frequentemente veio acompanhada da recriação da cidade precária nas periferias.

No momento em que este artigo é escrito, ainda é difícil vislumbrar o mundo pós-pandemia de COVID-19 que se espalhou por todo o planeta em apenas 3 meses desde que os primeiros casos foram detectados na cidade Wuhan, naChina, em dezembro de 2019. Cenários distópicos de devastação humana e econômica gerenciados por regimes totalitários ainda caminham em paralelo a visões de sociedades que consigam voltar às ruas adotando padrões mais sustentáveis e seguros para seus hábitos, formas de produção, consumo e organização social. De qualquer forma, paira a impressão de que o mundo não será mais o mesmo e que precisaremos reorganizar uma parte significativa das nossas vidas coletivas e individuais. A paralisação das atividades em escala global em virtude da COVID-19 pode orientar saídas não apenas para a pandemia, mas também para outras urgências que estão batendo à nossa porta faz algum tempo, em especial as mudanças climáticas e a perseverante (e ainda brutal) desigualdade social.

A verdade é: não dá mais para jogar a discussão dos nossos problemas para o futuro. Foto: Wans Spiess.A verdade é: não dá mais para jogar a discussão dos nossos problemas para o futuro. Foto: Wans Spiess.

Muitas das soluções emergenciais para reduzir a contaminação durante a pandemia de Coronavírus poderiam já existir se nossas cidades priorizassem a mobilidade ativa.

Patinetes são promissores, mas falta de planejamento, falhas do poder público e modelo de negócios são desafios para serviço se consolidar. Foto: Divulgação.Patinetes são promissores, mas falta de planejamento, falhas do poder público e modelo de negócios são desafios para serviço se consolidar. Foto: Divulgação.

Eles chegaram com estardalhaço. Da noite para o dia, milhares de patinetes elétricos apareceram pelas ruas. Muita gente, empolgada com a novidade, aderiu por diversão ou como uma alternativa moderna de transporte. Coisa "de primeiro mundo". Era o futuro, agora.

Singapura, Estocolmo (foto) e Londres criaram mecanismos de cobrança pelo impacto causado por quem insiste em circular em modos individuais motorizados nas áreas mais centrais. Foto: Ulf Bodin / Flickr.Singapura, Estocolmo (foto) e Londres criaram mecanismos de cobrança pelo impacto causado por quem insiste em circular em modos individuais motorizados nas áreas mais centrais. Foto: Ulf Bodin / Flickr.

Em plena era da informação, na qual cresce rapidamente o uso em tempo real de dados para a tomada de decisões, cada vez menos toleramos a ineficiência. No momento em que urge retomar o desenvolvimento no Brasil, salta aos olhos qualquer irracionalidade nos serviços ofertados, especialmente naqueles de natureza pública. No caso do transporte urbano, é inaceitável que o Brasil tenha sistemas de tão baixa qualidade, seja por falta de infraestrutura, gestão, tecnologia, informação ou regulação adequada. Estudos mostram que os congestionamentos e o consequente tempo perdido no trânsito representam, em média, perdas anuais superiores a R$250 bilhões, ou 4% do PIB nacional. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, estima-se que o espraiamento urbano onere o PIB das cidades em até 8%.

Estudo da Kantar sobre mobilidade urbana estima que transporte público, caminhada e bicicleta devem ‘roubar’ adeptos dos veículos até 2030. Foto: Getty Images.Estudo da Kantar sobre mobilidade urbana estima que transporte público, caminhada e bicicleta devem ‘roubar’ adeptos dos veículos até 2030. Foto: Getty Images.

O uso de carros na cidade de São Paulo deve cair 28% nos próximos dez anos, em paralelo com crescimentos nas utilizações do transporte público (alta de 10%), da caminhada (25%) e de bicicletas (47%).