Na cidade do futuro, teremos tudo o que precisamos em 15 minutos a pé, defende cientista - São Paulo São

 

O prefeita de Paris sonha com 'a cidade de 15 minutos'. Imagem: Paris en Commun.O prefeita de Paris sonha com 'a cidade de 15 minutos'. Imagem: Paris en Commun.

O cientista franco-colombiano Carlos Moreno lançou um conceito que está dando a volta ao mundo. Baseado em um sistema de reorganização urbana, ele imaginou a “cidade dos 15 minutos”, um projeto no qual os moradores terão acesso a tudo o que precisam a apenas 15 minutos de distância a pé. A ideia seduziu muitos políticos, entre eles a atual prefeita de Paris, que tenta se reeleger usando o modelo de Moreno como argumento de campanha.

Entrevista realizada por Braulio Moro na RFI.

Pedestres em Nakameguro, bairro da periferia de Tóquio no Japão. Foto: Toomore Chiang / Flickr.Pedestres em Nakameguro, bairro da periferia de Tóquio no Japão. Foto: Toomore Chiang / Flickr.

Parece quase utópico visto de metrópoles como São Paulo, Cidade do México ou Bogotá. Mas Carlos Moreno está convencido. Especialista em “cidades inteligentes”, o cientista da Universidade Paris 1 Panthéon Sorbonne argumenta que as zonas urbanas podem ser transformadas para que a maioria dos serviços esteja mais próximos dos habitantes. Segundo ele, essa transformação pode acarretar benefícios ambientais e, se bem implementada, não representa nenhum custo suplementar para a comunidade.

"A cidade de 15 minutos é um conceito fruto das minhas pesquisas, que busca recriar uma qualidade de vida, saindo do anonimato das metrópoles e de uma vida sempre apressada com longos trajetos entre a casa e o trabalho. É assim que se perde o tempo útil da vida”, explica. “Esse conceito consiste em redescobrir a proximidade geográfica e a proximidade familiar. Redescobrir o bairro para que a cidade não seja socialmente segmentada", explica.

Concretamente, o cientista propõe que em vez de termos um único centro nas cidades ou que as diferentes atividades (comerciais, industriais, administrativas, etc.) sejam realizadas em locais diferentes, a organização urbana seja feita por meio de vários centros". Ele dá como exemplo a prefeitura ou um ginásio, que passariam a ser abertos para outros usos, mas também de espaços que poderiam ser ocupados pela população para todos os tipos de atividade. Porém, o mais importante é que esses locais devem ser acessíveis a pé ou de bicicleta em, no máximo, 15 minutos.

Ele se inspirou dos bons resultados de algumas experiências em Tóquio, mas também estuda o urbanismo no México, na Colômbia e, é claro, em Paris, que considera um laboratório a céu aberto. A capital francesa concentra cerca de 2,5 milhões de pessoas e tem todos os problemas de uma grande capital.

Paris tem 21 mil habitantes por quilômetro quadrado

A via marginal que circunda Paris recebe mais de 1 milhão de veículos diariamente. Foto: Le Parisien.A via marginal que circunda Paris recebe mais de 1 milhão de veículos diariamente. Foto: Le Parisien.

O caso de Paris é emblemático para o pesquisador. Sétima cidade mais povoada do mundo, a capital francesa tem 21 mil habitantes por quilômetro quadrado. A via marginal que a circunda tem um trânsito tão denso que já é considerada a rota mais engarrafada da Europa, além de ser uma das mais poluídas. É por ela que passam mais de 1 milhão de veículos diariamente, entre parisienses que evitam atravessar o centro, e moradores vindos das cidades vizinhas, que trabalham na capital.  

No entanto, a capital francesa nem sempre foi assim. "Paris obedece a um princípio arquitetônico imaginado pelo barão Haussmann no século XIX, que foi muito propício à caminhada. É a cidade no mundo em que 54% das viagens são feitas a pé. Mas isso vem sendo esquecido. Paris é como um pequeno ovo, cheio de gente. Porém, um modo de vida baseado na ignorância da proximidade foi adotado”, sentencia. “O desenvolvimento econômico é baseado em centralidades e extremidades: as pessoas trabalham no oeste e vivem no leste, enquanto as indústrias são no norte ... Queremos oferecer uma transformação para que as ruas não sejam para carros, mas para pedestres e também um local em que se vive".

Seis coisas indispensáveis para a qualidade de vida

As pessoas caminham ao longo do canal de Saint Martin em Paris. Foto: Fred Dufour / AFP.As pessoas caminham ao longo do canal de Saint Martin em Paris. Foto: Fred Dufour / AFP.

Moreno explica que "após a Segunda Guerra Mundial, o planejamento urbano passou a ser concentrado em uma cidade funcional e produtiva, abandonando a noção de bem-estar ". No entanto, ele insiste que "a vida urbana deve permitir que cada pessoa acesse seis coisas fundamentais: morar com dignidade, trabalhar em boas condições, ter acesso à saúde, à educação, à diversão e aos produtos que precisa”. E, para ele, a qualidade de vida se concretiza apenas quando se reduz da distância para se alcançar essas condições.

Como outros políticos que começam a se inspirar do projeto de Moreno, a ideia da “cidade dos 15 minutos” agradou Anne Hildago, que tenta se reeleger para a prefeitura de Paris. Ferrenha defensora do uso de bicicletas no espaço urbano, a prefeita, que implementou várias medidas para diminuir o número de carros na capital, vem usando o conceito de Moreno em sua campanha.

"O paradigma do que tem sido a cidade moderna precisa ser mudado", martela o cientista. Ele insiste que seu projeto, visto por muitos como algo utópico, precisa de esforços do poder público. "Uma mudança tão radical implica uma boa presença do governo e concede aos cidadãos muito mais poder de decisão", explica. Mas para Moreno, que acabou se transformando em cabo eleitoral de Hidalgo, "com a vontade política necessária, essa cidade de 15 minutos é possível".

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Por Braulio Moro na RFI.



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