Pesquisa revela impactos da pandemia nos deslocamentos em capitais da América Latina - São Paulo São

Percentual de participantes da pesquisa que relataram redução no uso do transporte coletivo chegou a 82% em São Paulo. Foto: Alf Ribeiro / Shutterstock.Percentual de participantes da pesquisa que relataram redução no uso do transporte coletivo chegou a 82% em São Paulo. Foto: Alf Ribeiro / Shutterstock.

Como a pandemia de Covid-19 afetou a mobilidade urbana e o uso dos modos de transporte? Como se sentiram as pessoas que adotaram o trabalho remoto? Estas são algumas das perguntas que uma pesquisa aplicada no fim do ano passado em diversas cidades do mundo buscou responder – e que agora está em sua segunda fase.

O levantamento, organizado pelo Centro de Excelência BRT+ com apoio do WRI Brasil, incluiu nove cidades latino-americanas: Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Bogotá, Buenos Aires, Lima, Quito e Santiago. Nessas capitais, a pesquisa mostrou, por exemplo, que a maioria das pessoas passou a usar menos o transporte coletivo. O uso de modos como bicicleta e caminhada diminuiu no Brasil, mas aumentou em Buenos Aires e Bogotá, cidades que investiram em infraestrutura para a mobilidade ativa durante a pandemia.

Com a continuidade da crise sanitária e o avanço da vacinação, agora está sendo realizada uma segunda etapa da pesquisa, para avaliar como a situação da mobilidade urbana está evoluindo. Se você mora nas Regiões Metropolitanas de Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro ou São Paulo, clique na imagem abaixo e ajude a construir conhecimento sobre este momento tão desafiador.

Confira, a seguir, os resultados da primeira etapa da pesquisa para as nove cidades latino-americanas.

O boom do trabalho remoto

Próxima de zero no momento anterior à pandemia, a realização da atividade principal (em geral, trabalho ou estudo) de casa se tornou a parcela mais significativa da distribuição modal entre os entrevistados nas nove cidades, sendo inclusive superior a 50% em quase todas – à exceção de Lima (39%) e Quito (33%).

São Paulo (72%) e Buenos Aires (69%) são as cidades onde os participantes da pesquisa mais passaram a realizar a atividade principal de casa. Os gráficos a seguir mostram como mudou a proporção de cada modo em comparação a antes da pandemia.

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Por outro lado, um olhar mais apurado sobre a renda dos participantes do questionário revela uma realidade desigual: embora a amostra das cidades brasileiras tenha sido pequena para alguns dos estratos de renda, os resultados indicam que a população mais vulnerável continuou se deslocando mais durante a pandemia, consequentemente ficando mais exposta ao vírus – o que pode ter sido um dos motivos para o maior número de mortes por Covid-19 nos bairros periféricos.

Preocupação com o transporte coletivo

Chama a atenção a drástica diminuição no uso do transporte coletivo em todas as cidades, algo que está gerando consequências econômicas graves para vários dos sistemas. Nas nove cidades, mais de 50% dos participantes afirmaram ter reduzido a frequência com que utilizam o transporte coletivo, chegando a 82% dos participantes em São Paulo.

A preocupação com a transmissão de Covid-19 foi uma constante – em todas as cidades pesquisadas, mais de 60% dos respondentes afirmaram que estavam “extremamente preocupados” ou “muito preocupados” com a higiene no transporte público. O gráfico abaixo apresenta a distribuição das respostas para a pergunta “Quão preocupada(o) você está com a higiene no transporte público hoje?”.

Mudanças no transporte ativo

Enquanto nas cidades brasileiras e em Santiago, uma maioria dos entrevistados relatou ter diminuído o número de deslocamentos a pé e por bicicleta, as outras cidades latino-americanas tiveram aumentos superiores a 30% no uso de pelo menos um destes modos. Estes aumentos podem estar associados ao incentivo que algumas cidades deram a esses modos de transporte, que são os mais seguros em um momento de pandemia, ao construir ciclovias (Bogotá, Buenos Aires, Lima e Quito adotaram esta prática) ou implementar alargamentos em calçadas, entre outras medidas.

Adaptação ao trabalho remoto

Santiago (39%) foi a única cidade em que a maioria se disse menos produtiva. Foto: Bigstock.Santiago (39%) foi a única cidade em que a maioria se disse menos produtiva. Foto: Bigstock.

Além de confirmar que o trabalho remoto se tornou uma realidade para muitas pessoas, a pesquisa investigou a percepção de produtividade no trabalho de casa em comparação com o presencial. A maioria das pessoas participantes (28% de todos os respondentes, independente da cidade) considera que não houve alterações na produtividade. Em algumas cidades, a maioria das pessoas se considera mais produtiva – é o caso de Rio de Janeiro (54%), Belo Horizonte (50%) e Bogotá (51%). Em Porto Alegre e São Paulo, embora as pessoas se sintam, no geral, um pouco ou muito mais produtivas, boa parte delas declara estar um pouco menos produtiva (28% e 26% respectivamente). Santiago (39%) foi a única cidade em que a maioria se disse menos produtiva.

Quando perguntadas sobre quantos dias trabalhariam de casa no futuro (com a crise sanitária superada) caso pudessem escolher, considerando todas as cidades, em média, menos de 5% voltaria ao trabalho totalmente presencial, mais de 30% gostariam de trabalhar 3 dias de casa e quase 25% trabalhariam totalmente remoto. Bogotá (38%), Lima (30%) e Belo Horizonte (29%) foram as cidades com as maiores proporções de pessoas que optariam por esta última opção.

segunda etapa da pesquisa visa ampliar ainda mais os conhecimentos já obtidos para analisar como está evoluindo o impacto da Covid-19 na mobilidade urbana e nas questões relacionadas ao trabalho remoto. Tais respostas são vitais para embasar políticas públicas e também planejar a retomada pós-pandemia.

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Os resultados divergem dos apresentados no artigo com resultados preliminares, pois o número de respondentes aumentou após aquela divulgação. Fortaleza, cidade participante da primeira etapa da pesquisa, não atingiu o número mínimo de respostas necessário para tornar a amostra significativa, então não foi considerada das análises.

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Por Francisco Pasqual, Guillermo Petzhold e Cristina Albuquerque no WRI Brasil.



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