Não é carro x bicicletas. É sobre como redesenhar as cidades - São Paulo São

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Danilo Cersosimo é cientista social e mestre em estudos urbanos pela UCL (University College London), uma das principais universidades da Europa. Ele atua há quase 20 anos na área de pesquisa social, especialmente em cidades e urbanismo. Neste seu primeiro texto para o Outra Cidade, Danilo defende que mobilidade urbana não é cadeia alimentar. Não é uma questão de carros contra bicicletas e de bicicletas contra pedestres.

Para Danilo, mobilidade urbana significa repensar e redesenhar espaços urbanos para acomodar as novas formas pelas quais as pessoas se locomovem – e se locomoverão – pela cidade, para ter qualidade de vida.

Afinal, ninguém é apenas motorista, ciclista ou pedestre. As pessoas podem ser motoristas em uma hora, pedestres em outra, ciclistas em mais uma.  O ponto é como tornar cada uma dessas atividades eficiente, prazerosa e segura. Afinal, nenhum motorista acorda de manhã com vontade de passar horas no trânsito. Nenhum pedestre levanta com vontade de torcer o pé. Nenhum ciclista toma café da manhã pensando em como vai arrumar confusão.

E, ah, Danilo joga limpo: ele tem clientes na indústria de automóveis – e defende que eles têm de se repensar caso queiram continuar sendo relevantes no futuro.

A falsa cadeia alimentar 

Nos últimos anos tem havido um intenso debate sobre o impacto dos automóveis nas cidades. O trânsito intenso e as horas intermináveis em engarrafamentos levam ao empobrecimento da qualidade de vida e à poluição. As respostas a esse impacto estão vindo com força. Em vários países há pedágio urbano, normas rígidas para criar estacionamentos, barreiras à instalação de postos de combustível e redução da velocidade nas vias.  O automóvel virou vilão.

Por conta disso, há uma agenda que ganha cada vez mais voz, especialmente na Europa: o banimento dos carros dos centros urbanos. Alguns países querem banir o automóvel completamente da vida das pessoas, como o Leonardo Rossatto contou no texto sobre a redução da velocidade nas marginais, em São Paulo. Porém, esse debate precisa ser feito com um pouco mais de cuidado. O que nós precisamos pensar é que papel os automóveis vão ter na nossa vida nos próximos anos.

Eu e o debate doido 

Antes de continuarmos, é preciso dizer algumas coisas a meu respeito: nunca usei uma ciclovia, embora as considere necessárias. Também é importante ressaltar que atuo em pesquisa social, e parte dos clientes para os quais trabalho, e trabalhei, são do setor automobilístico.

Isto posto, é ainda mais importante frisar: não pretendo politizar o tema, no sentido de fazer um texto extremista, conquistar milhares de cliques e levantar uma nuvem de desinformação. Quero fugir do debate doido – prefiro o debate amplo e a política dos acordos possíveis. Por isso, algumas declarações de princípio.

  • Não acredito que ciclovias sejam a solução para todos os problemas, embora elas possam resolver alguns
  • Não prego a vilanização do automóvel, embora acredite que a indústria precise urgentemente se repensar
  • Acredito que carros e bicicletas precisarão encontrar meios de conviver no espaço urbano, de uma forma que ainda não conseguimos implantar

A paisagem do futuro 

As cidades sofrerão grandes alterações em suas paisagens ao longo das próximas décadas. Afinal, elas precisam mudar para oferecer qualidade de vida, para continuar atraindo gente talentosa.  Elas devem se transformar para continuar sendo viáveis. Não dá para aceitar, por muito mais tempo, as horas que perdemos em locomoção. Stress não é cláusula pétrea da vida urbana.

É por isso que as cidades precisarão repensar e dar mais lugar ao pedestre, tornando o caminhar cada vez mais viável. Compreendo o ceticismo dos brasileiros em relação a esta questão, seja por estarmos negativamente habituados às péssimas condições das nossas (estreitas) calçadas, seja – especialmente – pela insegurança que toma conta das nossas cidades. Ninguém gosta de correr riscos. No mais, as cidades (não somente no Brasil) costumam ter o espaço destinado ao pedestre ignorado pelos planejadores urbanos.

Falar em banimento dos automóveis me parece bastante extremo, mas acho a provocação válida para refletirmos sobre nossos paradigmas. No mínimo, nos leva a pensar em outras alternativas e novos modos de vida. Trata-se de pensar e repensar o uso do espaço e o tipo de convivência que temos nele. Trata-se de reimaginar o espaço no sentido de termos opções para motoristas, ciclistas e pedestres, tudo isso conectado (de maneira inteligente!) a um sistema bem feito e sustentável de trens, ônibus e bondes (e outros meios que a inovação nos oferecer).

Hamburg Green Network. Foto: Nick Lavars.


Os exemplos

É possível que os automóveis não sejam banidos das cidades, mas simplesmente se tornem algo obsoleto com o passar do tempo. É o que pretende Helsinki, na Finlândia. Lá, já se estuda a implementação de um sistema de mobilidade sob demanda, que integre todas as formas de transporte, público ou compartilhado, numa única forma de pagamento. Tudo acessível por meio de aplicativos de celular.

Hamburgo, segunda maior cidade da Alemanha, também possui uma agenda que visa reduzir significativamente o número de automóveis que circulam pelo centro da cidade nos próximos 20 anos. A cidade quer incentivar o uso das ciclovias e transporte sobre trilhos. Tudo isso faz parte de uma iniciativa chamada “Hamburg Green Network” e contempla também projetos de regeneração urbana e intervenções sustentáveis, valorizando o rio Elba e integrando-o (ainda mais) à cidade.

Em Bristol,  na Inglaterra, a prefeitura decidiu fechar as principais vias de acesso do centro da cidade com o intuito de trazer as pessoas para as ruas aos domingo. O projeto, batizado de “Make Sunday Special”, ou “Tornando o Domingo Especial” (numa tradução livre), talvez seja o que mais se pareça com iniciativas como a de fechar o Minhocão e a avenida Paulista aos domingos, em São Paulo. No caso de Bristol, as vias que levam ao centro permanecem livres aos automóveis. Veículos especiais são utilizados para ajudar no acesso de pessoas com algum tipo de dificuldade de locomoção. Bristol é um caso específico e trata-se de uma cidade pequena da Inglaterra, mas iniciativas como essas mostram que é possível estabelecer o diálogo e a convivência – especialmente porque os cidadãos de lá estão sendo ouvidos sobre essas iniciativas, no sentido de aperfeiçoá-las e melhor atender a população.

Não é só na Europa que o questionamento sobre o papel do automóvel está sendo repensado. Nos EUA, talvez o país com o a maior cultura automobilística do mundo, esse debate também já existe.  Por lá,  o que se vê são medidas restritivas ao uso do automóvel, como banimento em certas zonas ou fechamento de vias, pedágio urbano e redução de velocidade. É verdade que tais medidas também estão presentes na maioria das cidades europeias, como Londres Paris. Porém, na Europa, como vimos em alguns exemplos acima, a agenda “car free”, livre de carros, tem procurado repensar a cidade como um todo, restringindo o uso do automóvel mas, ao mesmo tempo, promovendo mais espaço para o pedestre, o ciclista e o transporte de massa. Não é tirar por tirar – é tirar com plano e propósito. Em algumas cidades americanas, como Nova York, isso está começando a acontecer, mas ainda de uma maneira tímida. Carros continuam tendo livre trânsito em Manhattan, por exemplo.

Se por um lado os americanos são culturalmente mais identificado com a simbologia do automóvel, com as grandes estradas, por outro o europeu tem mais senso coletivo, o que explica em parte as razões pelas quais iniciativas como zonas de pedestres, ciclovias e uso do transporte coletivo sejam mais facilmente aceitos na Europa do que nos EUA. E, nesse sentido, o Brasil é mais parecido com os EUA do que com a Europa. Nós somos um país de automóveis também. E isso leva a uma série de perguntas.

 
E agora?

Em uma outra oportunidade vamos abordar o tema com foco também em países da América Latina e da Ásia, com histórias mais semelhantes às do Brasil. 

Certamente estamos vivenciando a transformação de um importante ícone social e cultural da nossa época. A indústria automobilística está atenta a isso, especialmente nos centros onde esta agenda já ganhou mais força. Porém, não se trata somente de veículos limpos ou mais compactos. É uma questão (também) de repensar e redesenhar o espaço urbano e suas funções econômicas e sociais.

Quem diria, afinal, que um dia a avenida Paulista se transformaria num parque aos domingos? Ou que o Minhocão, feio daquele jeito, seria defendido porque pode se transformar num parque?

Num futuro próximo poderemos testemunhar a quebra de vários outros paradigmas. Afinal, a questão vai muito além de fechar ou não uma via para os carros. Significa organizar o espaço público para termos a cidade que queremos.

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Por Leandro Beguoc no OutraCidade.