Gentilezas podem transformar a cultura de uma cidade - São Paulo São

Atos positivos estimulam a chamada cidadania ativa, que é a participação na cidade, o fortalecimento do senso de comunidade. Imagem: Reprodução.Atos positivos estimulam a chamada cidadania ativa, que é a participação na cidade, o fortalecimento do senso de comunidade. Imagem: Reprodução.

A Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) começou há alguns anos um grande trabalho de pesquisa sobre a gentileza, a bondade, a empatia e a solidariedade. O resultado foi a abertura, no início de 2020, do Bedari Kindness Institute, o Instituto da Gentileza, organização que se dedica à pesquisa, educação e prática da gentileza, com o objetivo de estimular cidadãos e líderes a construir sociedades mais humanas.

O Instituto, o primeiro com esse foco no mundo, recebeu uma doação de US$ 20 milhões do casal de filantropos norte-americanos Jennifer e Matthew C. Harris, da Fundação Bedari. "Nosso objetivo é que a humanidade descubra e pratique a gentileza que existe em cada um de nós”, diz Matthew Harris, cofundador do centro. "É preciso muita pesquisa para entender por que ela está tão escassa no mundo moderno”.

Ações como ajudar um vizinho idoso, deixar a pessoa que tem menos compras passar na sua frente na fila no supermercado e abrir a porta para alguém entrar primeiro são atitudes gentis no dia a dia. Mas há também “gentilezas urbanas” que são muito importantes no exercício da cidadania. Compartilhar o espaço público requer atitudes gentis, para que existam o bem-estar, o equilíbrio e uma atmosfera saudável nas ruas e entre as pessoas.

As gentilezas urbanas deixam a cidade mais bonita, limpa, acolhedora e saudável. Foto: Getty Images.As gentilezas urbanas deixam a cidade mais bonita, limpa, acolhedora e saudável. Foto: Getty Images.

Há empresas e também pessoas que se propõem a “adotar” praças e jardins que estão deteriorados, recuperando essas preciosas áreas verdes, tão importantes para a saúde da população e da própria cidade.

Há quem participe de grupos que promovem mutirões de limpeza em áreas abandonadas e até quem saia de casa diariamente com um saco plástico e uma luva de borracha a tiracolo, recolhendo no seu caminho todo o lixo encontrado nas ruas. Pode parecer estranho, mas essa atitude é inspiradora e exemplar. Quem não se lembra dos torcedores japoneses, durante a Copa de 2014, recolhendo o lixo nos estádios? Não só o que eles produziram, mas também os resíduos deixados por outras pessoas.

Um grau de civilidade e conscientização que ainda não atingimos no Brasil, mas é preciso insistir nessa educação, e o exemplo pode ser uma das maneiras mais eficientes. As gentilezas urbanas deixam a cidade mais bonita, limpa, acolhedora e saudável. Além disso esses atos positivos estimulam a chamada cidadania ativa, que é a participação na cidade, o fortalecimento do senso de comunidade. 

Em Recife, a comunidade Sítio São Brás ganhou as cores do projeto Mais Vida nos Morros. Foto: Andréa Rêgo Barros.Em Recife, a comunidade Sítio São Brás ganhou as cores do projeto Mais Vida nos Morros. Foto: Andréa Rêgo Barros.

Em Recife, a comunidade Sítio São Brás ganhou recentemente as cores do projeto Mais Vida nos Morros, melhorando a vida de 13 mil recifenses. Um local de descarte irregular de lixo se transformou numa horta comunitária, construída e cuidada por moradores e crianças da região, enquanto o artista visual Raoni Assis revitalizou as fachadas e muros locais. 
 
Junto a seus professores, as crianças se envolveram nesse projeto, aprendendo também a importância da compostagem do lixo orgânico e de uma alimentação saudável.É muito positivo motivar crianças a participar de ações em suas comunidades. Elas desenvolvem a criatividade, a autoconfiança e a capacidade de aprendizado, ao mesmo tempo em que engajam suas famílias para ajudar e se sentem empoderadas por contribuir para conhecer e melhorar o seu entorno.
 
A gentileza urbana aviva os sentimentos de responsabilidade, solidariedade, iniciativa e respeito mútuo. E favorece a capacidade de sonhar e de transformar a realidade.

Sozinho, o aposentado Hélio da Silva plantou 25 mil árvores e recuperou área degradada em São Paulo. Foto: Arquivo Pessoal. Sozinho, o aposentado Hélio da Silva plantou 25 mil árvores e recuperou área degradada em São Paulo. Foto: Arquivo Pessoal.

“Quem disse que uma andorinha só não faz verão?” O comentário de um popular na internet sobre o Parque Linear Tiquatira resume bem a história por trás do verde de uma das principais áreas de lazer e recreação da Zona Leste de São Paulo. Às margens do córrego que dá nome ao bosque, as mais de 25 mil árvores presentes surgiram, em sua maior parte, da perseverança de um único cidadão.

Hélio da Silva, 70 anos, administrador de empresas aposentado, mais conhecido pela merecida alcunha de “Plantador de Árvores”, plantou a primeira muda no local em 23 de novembro de 2013. Quatro anos e 5 mil árvores depois, a recuperação de uma área antes degradada motivou a Prefeitura de São Paulo a transformar o bosque no primeiro parque linear (no decurso de um rio) da capital paulista.

Quem passeia pela Vila Madalena, encontra não apenas a diversidade cosmopolita com restaurantes de todos os estilos e sotaques, além de bares, centros e museus, mas também um lugar bastante arborizado, repleto de praças e áreas verdes, que convidam as pessoas a caminhar e se encontrar para conversar e se divertir.

A Horta das Corujas nasceu de um projeto do grupo Hortelões Urbanos. Foto: João A. Fagim.A Horta das Corujas nasceu de um projeto do grupo Hortelões Urbanos. Foto: João A. Fagim.Entre a Vila Madalena e o Sumarezinho, a Horta das Corujas criou um espaço de convívio social e educação ambiental. Trata-se de uma horta comunitária experimental, na qual os voluntários cultivam hortaliças e ensinam outros moradores a plantarem também. Aberta ao público para visitas, a horta nasceu de um projeto do grupo Hortelões Urbanos, que hoje conta com 82 mil integrantes no Facebook e tem como objetivo estimular a criação de hortas comunitárias na cidade, ajudando as pessoas a cultivar alimentos em casa.

Em 2020, desde o início da pandemia, foi exemplar a mobilização de brasileiros que arregaçaram as mangas para fazer e distribuir marmitas na cidade, ajudar vizinhos idosos a fazer as compras ou ainda auxiliar pessoas com dificuldades tecnológicas. 

No campo da cidadania, o engajamento das pessoas também está crescendo, especialmente por causa da tecnologia. Foto: Corrida Amiga.No campo da cidadania, o engajamento das pessoas também está crescendo, especialmente por causa da tecnologia. Foto: Corrida Amiga.

Aliás, a tecnologia vem ajudando as pessoas a se engajarem mais em projetos do bem. Com recursos de inteligência artificial, as informações movimentadas no ambiente digital formam grandes bancos de dados (big data) que ajudam e orientam a tomada de decisões de gestores públicos e privados. Esse é o conceito do QZela, um aplicativo de “zeladoria urbana participativa” que permite aos cidadãos compartilhar problemas da cidade com os gestores públicos e assim promover mudanças positivas.

Como se vê, a gentileza pode ser exercitada de diferentes maneiras. O importante é deixar o individualismo de lado e desenvolver a empatia, ajudando no que for possível para melhorar a qualidade de vida das pessoas e das cidades. Além dos diversos benefícios práticos e de importantes razões municipais e cívicas para ser gentil, há vantagens físicas e emocionais. Estudos científicos já demonstraram que a gentileza favorece enormemente a saúde física e mental das pessoas, pois combate o estresse e aumenta a imunidade. A gentileza, na verdade, é contagiosa. Ela gera mais e mais ações positivas, e melhora o mundo em que vivemos.

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Tegra Incorporadora é parceira da iniciativa.

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Por Chantal Brissac da Redação.



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