Espaços públicos, essenciais para a felicidade - São Paulo São

Espaços públicos humanizam as cidades e reforçam o sentido principal da vida em sociedade. Foto: João A. Fagim.Espaços públicos humanizam as cidades e reforçam o sentido principal da vida em sociedade. Foto: João A. Fagim.

Um livro lançado pela fundação canadense HealthBridge (link para o PDF) se debruça sobre a questão dos espaços públicos nas cidades: ruas, calçadas, ciclovias, parques, praças, mercados tradicionais e pequenas praças – e como as pessoas os usam.

De acordo com os autores da obra, devemos todos trabalhar para salvar locais públicos, cuidando-os para que se mantenham vivos, saudáveis e valorizados: esses espaços urbanos “servem para aumentar a felicidade humana e promover um sentido de coletividade e cidadania, sem os quais é impossível viver bem nas cidades”. Sabemos que enormes mudanças ocorreram em cidades de todo o mundo nas últimas duas décadas. As crianças, que costumavam caminhar para a escola e brincar nas ruas, hoje vivem fechadas (antes mesmo da pandemia) em suas casas, diante de telas digitais. Mais carros e motocicletas aumentaram a insegurança nas ruas, além da poluição do ar.

Mas há o que fazer, dizem urbanistas e pesquisadores. Precisamos usar, abraçar e proteger os espaços públicos, vitais para as cidades e o desenvolvimento humano saudável. Por isso é tão vital quando as empresas e até mesmo grupos de pessoas se mobilizam para adotar praças, jardins e outros espaços, cuidando para que eles se mantenham limpos, seguros e abertos à população. Quando isso acontece, a comunidade do entorno apoia a iniciativa e também luta para proteger e valorizar esses lugares, que promovem uma mudança positiva em suas vidas. 

A ideia por trás das cidades de 15 minutos foi desenvolvida por Carlos Moreno, um professor da Sorbonne que visava melhorar a qualidade de vida urbana. Imagem: Paris en Common.A ideia por trás das cidades de 15 minutos foi desenvolvida por Carlos Moreno, um professor da Sorbonne que visava melhorar a qualidade de vida urbana. Imagem: Paris en Common.Os especialistas ouvidos no livro defendem um “design” das cidades muito acessível a todas as pessoas: crianças, jovens, adultos, idosos, deficientes, cadeirantes. Uma metrópole que possa ser acessada com segurança a pé, de bicicleta e de transporte coletivo, e que reúna um comércio misto e diversificado, além de serviços básicos para os moradores da região. Este propósito vai de encontro ao conceito criado pelo cientista franco-colombiano Carlos Moreno, da "Cidade de 15 Minutos". Ao apoiarmos e fortalecermos os pequenos negócios existentes nos bairros e nas comunidades, além dos espaços públicos, garantimos que pessoas de todas as idades e rendas tenham lugares atraentes para se reunir, ao ar livre, na esfera pública, promovendo a socialização, essencial para vivermos bem.

Não há necessidade de focar em apenas um perfil ou estilo urbano. Bairros e cidades especializadas e específicas não funcionam. Acredita-se que tanto os arranha-céus como as casas térreas podem compartilhar o mesmo bairro, assim como o shopping center e o mercadinho tradicional, o restaurante chique e a lanchonete popular da esquina. Todos podem contribuir para uma cidade animada e habitável. 

Mas quando, ressaltam os autores, em nome do progresso e da modernidade há a permissão para expulsar tudo o que não é igual a isso, a cidade perde. E muito. Porque as pessoas, a força viva de qualquer lugar, são desprezadas e excluídas. Não há diversidade, tampouco inclusão. Os valores humanos caem por terra e a região pode se tornar exposta à violência, fruto da desigualdade social. 

A história da Praça Israels Plads reflete a história da transformação de Copenhague: a transição entre dois mundos, a cidade e o parque vizinho. Foto: Ana Paula Wickert.A história da Praça Israels Plads reflete a história da transformação de Copenhague: a transição entre dois mundos, a cidade e o parque vizinho. Foto: Ana Paula Wickert.

As pessoas são animais inerentemente sociais, incapazes de prosperar sem interações humanas, e essas interações requerem um local. Não é suficiente ver os membros da família e colegas; misturar-se ou pelo menos observar estranhos e conhecidos casuais fornecem a garantia necessária de que a pessoa faz parte de uma comunidade maior, vital e funcional. O premiado arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl lembra que, entre os requisitos que são atendidos nos espaços públicos, estão a necessidade de contato, de conhecimento e de estimulação: “Estar perto de outras pessoas também lembra as pessoas da importância de cuidarmos uns dos outros”, afirma Ghel.

Algumas cidades estão reagindo nesse sentido, buscando formas de humanizar ainda mais os seus espaços e incrementar os espaços públicos. Nova York é um exemplo, um oásis bem-vindo de verde, cultura e modernidade, que atrai ciclistas, passeadores de cães, patinadores, moradores e turistas.

Foi marcante a gestão de Michael Bloomberg, prefeito da cidade entre 2002 e 2013. Ele baniu a circulação de automóveis na Times Square, como parte de uma política para tornar a cidade mais humana, segura e sustentável; incentivou a circulação do pedestre, fechando ruas e melhorando os hábitos de deslocamento da população; reduziu os limites de velocidade em quatorze zonas da cidade, passando de 50 km/h para 30 km/h; e incorporou 450 km de ciclovias, além de ter adotado um sistema de bikes compartilhadas com 6 mil bicicletas em 330 estações. O resultado é que houve uma redução de 40% nas fatalidades de trânsito, quatro vezes mais ciclistas nas ruas e Nova York é a cidade americana que lidera o combate às mudanças climáticas – até 2030, as emissões de gases do efeito estufa serão 30% menores. 

Time Square em Nova York, antes e depois das transformações da gestão Bloomberg. Imagem: New York City Department of Transportation (DOT).Time Square em Nova York, antes e depois das transformações da gestão Bloomberg. Imagem: New York City Department of Transportation (DOT).

Outras metrópoles focadas em aumentar a oferta de espaços públicos ao ar livre e favorecer a mobilidade ativa com mais ciclovias e calçadas maiores são Barcelona, Paris, Milão e Copenhague, entre outras. Para Jan Gehl, o papel das ruas e calçadas não é apenas para movimento e acesso a edifícios, mas também para local de encontro e diversão.

A largura da calçada, portanto, não pode ser sacrificada devido ao volume de veículos. As calçadas devem ser reconhecidas e respeitadas como órgãos insubstituíveis de segurança de pessoas de todas as idades. “Nós, humanos, somos pedestres, animais ambulantes. Assim como os peixes precisam nadar, pássaros voar, precisamos andar. As cidades precisam ser feitas para caminhar. Também gostamos de ver pessoas, estar com as pessoas. Foi descoberto que as pessoas preferem se sentar em bancos públicos onde passam mais pessoas”, disse Henrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá.

“Caminhar é mais do que um meio de transporte. Significa exercício, ar fresco e a chance de passear. Caminhar pode ser divertido. Dá tempo para olhar ao redor, as pessoas, as vitrines e os eventos. Caminhar também permite que as pessoas parem, mudem de direção e experimentem coisas. É uma maneira flexível de se mover pela cidade e apela a todos os sentidos. Caminhar combina todas essas qualidades e opções: transporte, exercício, experiência e prazer”, diz o grande urbanista Jan Gehl, conhecido por seu livro “Cidades para Pessoas”. E são realmente para elas, para todos nós, que as cidades são feitas.

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Tegra Incorporadora é parceira da iniciativa.


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Por Chantal Brissac da Redação.



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