A filosofia do caminhar - São Paulo São

Existem maneiras de caminhar que na verdade são estilos filosóficos. Foto: Getty Images.Existem maneiras de caminhar que na verdade são estilos filosóficos. Foto: Getty Images.Caminhar é realmente a forma mais democrática, saudável, econômica e sustentável de se deslocar pelas cidades. Andando, imprimimos um ritmo próprio e original ao passeio, enquanto observamos o entorno e o vaivém das outras pessoas. Além disso, a atividade regular previne várias doenças crônicas, favorece a circulação e o cérebro, reduz os níveis de estresse e melhora o humor e a memória, entre tantos benefícios.

Andar a pé diz respeito à saúde pública e ao bem-estar nas cidades. Metrópoles que estimulam e facilitam a caminhada como meio de transporte elevam a qualidade de vida da população. E as cidades devem estar preparadas para acolher todos os tipos de pedestres – adultos, crianças, jovens, idosos e os que têm limitações e dificuldades, usando cadeiras de rodas. Cidades inclusivas reestruturam seus espaços de acordo com a escala do pedestre.
“O caminhar é uma das primeiras coisas que aprendemos na vida, e essa atividade é inerente ao ser humano." diz Wans Spiess do CalçadaSP.“O caminhar é uma das primeiras coisas que aprendemos na vida, e essa atividade é inerente ao ser humano." diz Wans Spiess do CalçadaSP.Wans Spiess, fundadora do CalçadaSP, lembra da importância das calçadas, símbolo de respeito e cidadania, e de como o caminhar é um tema transversal: “Um tema que reflete em melhor saúde, menos carro na rua, menos emissão de CO2, mais segurança, que favorece o comércio local, ajuda a conhecer o patrimônio e as histórias da cidade, e vários outros motivos...”, diz. “O caminhar é uma das primeiras coisas que aprendemos na vida, e essa atividade é inerente ao ser humano. Afinal, em algum momento do dia todos somos pedestres, até quem está em cadeira de rodas ou desmontado da bicicleta”.

Para o filósofo francês Frédéric Gros, autor de “Caminhar, uma filosofia” e “Desobedecer”, o caminhar é também uma forma de pensar melhor. Ele faz em seus livros uma ode à caminhada como exercício de liberdade, por estabelecer uma relação particular do corpo com o mundo e abrir o caminho para o pensamento, para a filosofia.

Especialista em psiquiatria, filosofia penal e editor dos últimos cursos de Michel Foucault no Collège de France, Gros escreveu um tratado sobre o caminhar que conecta as ideias de pensadores como Kant, Thoreau, Nietzsche, Rimbaud e Rousseau com suas caminhadas. Uma reivindicação ao prazer de passear.

Frederic Gros escreveu um tratado sobre o caminhar que conecta as idéias de pensadores como Kant, Thoreau, Nietzsche e Rousseau com suas caminhadas. Foto: Getty Images. Frederic Gros escreveu um tratado sobre o caminhar que conecta as idéias de pensadores como Kant, Thoreau, Nietzsche e Rousseau com suas caminhadas. Foto: Getty Images. Em seu livro, ele conta que as caminhadas do jovem poeta francês Arthur Rimbaud ajudavam a extravasar sua raiva, enquanto o filósofo e escritor alemão Friedrich Nietzsche imprimia uma energia própria na sua marcha rápida. Já Immanuel Kant era metódico: saía todos os dias no mesmo horário e fazia a mesma rota.

O americano Henry David Thoreau foi um dos precursores do conceito de desobediência civil, um abolicionista importante, um inspirador para o movimento hippie, um ecologista precoce, um defensor da frugalidade e um caminhante obstinado. “Caminhada”, um livro pequeno e fácil de ler, é considerado por Gros o primeiro tratado filosófico sobre a caminhada. Nele, estão suas idéias que misturam o caminhar e a natureza: “Os errantes são aqueles que estão em casa em toda parte.” Suas caminhadas nunca duravam menos de três horas, todos os dias, partindo de madrugada, para entrar em contato com a força inevitável do dia e da natureza. “Mas a caminhada de que falo nada tem que ver com exercício (…) É antes o motivo e a aventura do dia.”

Sem falar ainda do líder indiano Mahatma Gandhi e sua política de resistência, que, em março de 1930, para protestar contra o domínio colonial britânico, que proibia a extração do próprio sal pelos indianos, fez história ao caminhar 400 km para apanhar um punhado de sal. 

“Andar nos ensina a desobedecer. O caminhante se retira do conforto e da segurança que fazem da obediência algo tão sedutor”, diz Gros.

Caminhada matinal de Gandhi com membros próximos do Ashram (comunidade) e sua família, 1946. Foto: Margaret Bourke-White. Caminhada matinal de Gandhi com membros próximos do Ashram (comunidade) e sua família, 1946. Foto: Margaret Bourke-White.

Empolgado caminhante, ele contou a Leticia Blanco, do jornal espanhol El Mundo, que começou a caminhar relativamente tarde, aos 20 anos, mas esse início foi um marco na sua história, fazendo-o não só pesquisar sobre o tema como também adotar o transporte a pé como estilo de vida. “Caminhamos para nos reinventar, para ganhar outras identidades, outras possibilidades. Na vida diária tudo está associado a alguma função, profissão, um discurso, uma postura. Andar a pé é se livrar disso tudo. No final, a caminhada é não mais do que uma relação entre um corpo, uma paisagem e uma trilha”.

Ele lamenta que as cidades atualmente não são feitas para os pedestres e que os jovens não costumam andar muito a pé. “As novas gerações consideram, e eles podem estar certos, que você tem que ser louco para ir aos lugares a pé, especialmente quando têm à disposição todos os tipos de invenções técnicas que fazem com que não tenham que andar. Para eles, a caminhada é um pouco monótona, em parte porque eles se acostumaram a mudar as telas de imagens que usam muito rapidamente e, quando andamos, as paisagens evoluem muito lentamente. Para algumas pessoas, a caminhada é o exato oposto do significado de prazer, porque nós tendemos a comparar prazer com excitação. E para que haja excitação é preciso uma novidade. Diante disso, descobrir o prazer de caminhar pode ser algo completamente exótico. Descobre-se uma dimensão que hoje está praticamente banida de nossa vida: a lentidão, a presença física. Durante a caminhada, todos os sentidos estão presentes: ouvimos os ruídos da floresta, se percebem as luzes, os aromas”.

Thoreau e sua estátua em Walden Pond (MT) onde ele ficou isolado por quase dois anos enquanto trabalhava em seus diários e em ““Walden“ ou “A Vida nos Bosques". Foto: Herzogbr / Creative Commons. Thoreau e sua estátua em Walden Pond (MT) onde ele ficou isolado por quase dois anos enquanto trabalhava em seus diários e em ““Walden“ ou “A Vida nos Bosques". Foto: Herzogbr / Creative Commons. Em seu ensaio, Gros associou a caminhada com grandes filósofos, pois segundo ele esses pensadores transformaram as montanhas e florestas em locais de trabalho. “Para eles, o andar não era um esporte ou um passeio turístico. Realmente, eles saíam com seus cadernos e lápis para encontrar novas ideias. Solidão era uma das condições para a criação”, pontuou o escritor e filósofo.

Frédéric Gros está certo de que caminhar nos ensina a desobedecer. “Porque andar nos obriga a ter uma distância que é também uma distância crítica. No mundo acadêmico, todo mundo é obrigado a provar o que diz. A provocação que faço aos pensadores é que você não é o que você pensa, mas como você anda”.

Andar, portanto, é uma experiência autêntica, libertária e revolucionária. E que só faz bem: para a saúde do corpo e da mente e das cidades também.

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Por Chantal Brissac da Redação.

 



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