O Jardim Secreto: o topo da Prefeitura de São Paulo é um oásis botânico no meio da selva de pedra - São Paulo São

Quem anda pelo Vale do Anhangabaú muitas vezes se esquece de olhar para os detalhes preciosos da região central de São Paulo.

Se direcionar sua atenção para o topo do Edifício Matarazzo, pode ser que aviste folhagens verdes e árvores, cena que pode até parecer uma miragem. Pois saiba que esse jardim secreto no terraço da Prefeitura é real, um oásis botânico no meio da selva de pedra.

O edifício por si só, apelidado de “Banespinha”, já deveria captar o olhar dos desatentos. Isso porque a arquitetura tem traços que nos levam de volta ao século XIX. Inaugurado no final de 1930 no Viaduto do Chá, o projeto assinado pela empresa de incorporação e engenharia Severo e Villares, com revisão e alterações do arquiteto italiano Marcello Piacentini, pertenceu à poderosa família que o batizou.


Os traços do prédio imponente, bruto e ainda assim elegante, revelam uma face de São Paulo que é das mais conhecidas: a força laboral. “Seus edifícios traduzem a visão de uma nova cidade, com uma nova organização social e uma nova organização do trabalho. Simbolizam o movimento, o trabalho assalariado, a pressa, o dinheiro, o trânsito, a transformação da cidade e da vida da população urbana”, nas palavras do Escritório Técnico Ramos de Azevedo - a mesma do Theatro Municipal -, nome do engenheiro arquiteto que a fundou em 1907 e que carrega o nome do antigo sócio desde 1991.

 

Antes de ser Patrimônio Histórico, pertenceu ao empresário Conde Francisco Matarazzo Júnior, que teve mais de 350 empresas no Brasil, e naquele endereço, inaugurado em 1939, funcionava a sede de uma das indústrias da família. Em 1972, o prédio foi vendido ao Grupo Audi, depois repassado ao banco Banespa. Até que, em 2004, foi cedido à Prefeitura para quitar uma dívida e se tornou sede da administração municipal.

Para construí-lo, foram importadas 170 mil placas de mármore traventino de Roma. Dizem que este é o único edifício do mundo inteiramente revestido neste material. A arquitetura sóbria tem elementos neoclássicos e monumentais, típicos do estilo fascista importado por Piacentini, que era o favorito do ditador italiano Benito Mussolini. Na fachada, além das 68 janelas estão símbolos que representam as várias indústrias em que os Matarazzo atuavam, além do brasão da família. A estátua Sereia dos Lagos, de João Batista Ferri, adorna a vista lateral.

No hall, grandes pilastras ornamentadas em mármore e um antigo mapa do Brasil, um tanto confuso ainda na sua configuração, atraem os olhares. Quando o prédio ainda pertencia ao Grupo Audi, luz natural entrava no térreo através de um vão, que infelizmente foi coberto. Pegando o elevador, os visitantes vão até o 12º andar (curiosamente, não existe 13º andar por questões supersticiosas da época), mas é no 14º, após um lance de escada, que se alcança o bem mais valioso daquele edifício, carregado de materiais tão ricos.

Acima da casca de mármore e dos 27.800 m² de área construída, um respiro: o jardim suspenso que carrega consigo 400 espécies de plantas. O antigo zelador, Walter Galera, era o responsável pelo espaço a 80 metros de altura e o transformou no que é hoje. O jardineiro fiel permaneceu na manutenção do bosque desde a época dos Matarazzo até o dia de sua morte, em 1995. É ele quem dá nome ao terraço, uma singela homenagem à seu trabalho de grande importância. 

 

 

 


Percorrendo este refúgio particular, vemos plantas ornamentais - como orquídeas, árvores frutíferas e de várias partes do mundo, que ultrapassam 8 metros de altura, ervas medicinais e um tranquilo lago de carpas, que traz um raro momento de paz no centro paulistano. Vários mirantes apontam para as estrelas da vizinhança, como o Theatro Municipal e o Shopping Light.

Do alto, a poluição parece nos dar uma trégua para a contemplação da paisagem árida da capital, que nos engole. Ao olhar para o lado, uma imensidão botânica no telhado verde, tendência para os dias atuais, 50 anos depois de sua fundação. Louco, né? Mas São Paulo é exatamente assim, morde e assopra; sufoca e liberta.

 

 

 

 

 


Vai lá:

Visitas gratuitas ao Edifício Matarazzo
Viaduto do Chá, 15 – Anhangabaú – Centro. 
Horários das visitas: Segunda a quinta-feira: 10h, 12h e 15h.
Sextas-feiras: 15h, 17h e 19h.
Sábados: 10h e 14h.

Agendamentos aos fins de semana devem ser feitos através do [email protected] até às 14h do dia anterior.
Demais dias não é preciso agendar previamente.

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Por Brunella Nunes.

 



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