Na 9º Mostra SP de Fotografia o alerta: 'nem os paraísos estão livres de plástico' - São Paulo São

É assustador constatar que até mesmo as praias mais protegidas do arquipélago de Fernando de Noronha – situado a 400 km de distância da costa do nordeste brasileiro, área de preservação ambiental e patrimônio cultural do país – estão contaminadas por resíduos plásticos.

Em tom de alerta, três fotógrafos e ativistas ambientais, moradores de Fernando de Noronha, falaram sobre a presença crescente do plástico nas ilhas, interferindo na biodiversidade da região. Luiza Sampaio, Doug Monteiro e Michelle Roth participaram, na última sexta-feira (5/07) da mesa de conversas “Paraísos Plastificados”, dentro da programação da 9º Mostra SP de Fotografia – que acontece até 4 de agosto na Vila Madalena. O encontro, com exibição de fotos e vídeos de Noronha, contou com a mediação da jornalista ambiental Paulina Chamorro, curadora do evento.

“Há um lixo ‘social’ e um lixo ‘viajante’ nas praias de Noronha”, disse Luiza. O social, explicou, é o que surge depois de um fim de semana, férias ou feriado prolongado. Ele está mais presente nas praias “de dentro” do arquipélago, aquelas voltadas para o continente. “São resíduos que vêm das atividades locais, como festas, baladas, pessoas nas praias: embalagens, copos, canudos, pratinhos, garfinhos”. Já o chamado lixo “viajante” é mais facilmente encontrado nas praias “de fora” – as  que estão de frente para o mar aberto. Esse é o que mais preocupa os ambientalistas e amantes de Noronha, pois sobre ele há menos possibilidade de controle. 

Foto: Daniel Kfouri.Foto: Daniel Kfouri.

Segundo Michelle, nas praias "de fora" há pouco plástico social – já que a maior parte dessas áreas não é aberta ao público, por estarem dentro do Parque Nacional Marinho, área de visitação controlada. O que aparece por lá em grande quantidade é o plástico que chega de longe, provavelmente material descartado por navios ou trazido de outros lugares do mundo pelas correntes marítimas. Uma pesquisa pelos códigos de barras das embalagens permite identificar suas origens: África, Indonésia, China, Oriente Médio, entre outras.

Doug Monteiro, instrutor de mergulho em Noronha, disse que, com frequência, em suas atividades subaquáticas, coleta uma grande quantidade de copos e embalagens plásticas. O lixo considerado “social”, acreditam os debatedores,  deve diminuir em médio prazo. Isso porque, em 11 de abril, entrou em vigor um decreto proibindo a entrada e comercialização de alguns tipos de plásticos descartáveis no arquipélago. “Nós, ao lado de outras pessoas de Noronha, temos feito um trabalho de conscientização ambiental muito forte com moradores e comerciantes do local, barqueiros e turistas”, disse Luiza.

Foto: Daniel Kfouri.Foto: Daniel Kfouri.

O lixo “viajante”, observaram, é de difícil controle e preocupa porque, com o passar dos tempo, gera resíduos microscópicos de plástico, um risco para todas as espécies. "O microplástico já é visível nas ilhas”, disse Michelle. “São pequenos fragmentos de plástico desintegrado, que (por não se decompor) se misturam com a areia das praias”, pontuou. “É um problema em várias partes do mundo, infelizmente”,  disse a jornalista Paulina. “A areia fica ‘crocante’ e colorida, é assustador, e praticamente impossível fazer a limpeza e a coleta desse material, que interfere no ambiente”, observou. Paulina lembrou que esse problema foi apontado pela primeira vez em 1994, por um cientista britânico.

Sem perder a esperança

Apesar dos diversos problemas apontados, os integrantes da mesa visualizam um futuro com menos problemas ambientais em Fernando de Noronha. Educadora em escolas da ilha, Luiza aposta no envolvimento das novas gerações para a redução do plástico. Crianças e jovens dessas escolas são convidados para participar de mutirões que recolhem resíduos plásticos das praias. Michelle e Doug também acreditam que a via da conscientização é a melhor alternativa. Eles trabalham em ações próximas a turistas, com mergulho e fotografia, e o tema é sempre recorrente nas conversas.

Tartaruga verde (Chelonia mydas), morta em Fernando de Noronha enroscada em um saco plástico. Foto: Instituto Chico Mendes.Tartaruga verde (Chelonia mydas), morta em Fernando de Noronha enroscada em um saco plástico. Foto: Instituto Chico Mendes.

Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido, reconhecem. No arquipélago, por exemplo, não existe um sistema público de coleta seletiva. Todo o lixo gerado na ilha – uma média de 14 toneladas por dia – é recolhido para uma usina de triagem, sem separação. Na usina, parte do material orgânico segue para sistemas de compostagem e o vidro é triturado para reuso como areia em construções. Plásticos, papéis e metais são separados e, junto com o restante do lixo, estocados para envio ao continente – o que é feito semanalmente.

Operação retira cerca de três mil toneladas de lixo do arquipélago pernambucano. Foto: Auricélio Romão.Operação retira cerca de três mil toneladas de lixo do arquipélago pernambucano. Foto: Auricélio Romão.

Apenas no ano passado, segundo dados oficiais de turismo, Fernando de Noronha recebeu 100 mil visitantes. “Temos de mudar conceitos; é difícil mas possível”, afirmou Luiza, que sempre estimula seus alunos a consumirem produtos que possam “voltar para a terra”, eliminando a ideia de que o lixo  é algo que se joga “fora”. 

Os três fotógrafos estão com trabalhos na Vila Madalena, dentro da programação da mostra. Doug Monteiro expõe na Rua Aspicuelta, 23; Luiza Sampaio mostra seu trabalho na Rua Girassol, 326; e Michelle Roth marca presença na Rua Wisard, 271.

Acompanhe a 9ª Mostra SP de Fotografia no Facebook. O São Paulo São é parceiro da iniciativa.

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Por Maria Lígia Pagenotto para a Mostra SP de Fotografia.





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