A última sessão de cinema (que eu perdi)... - São Paulo São

Em atividade entre 1987 e 1996, o AeroAnta marcou época como misto de restaurante, bar, pista de dança e palco para shows. Foto: Divulgação.Em atividade entre 1987 e 1996, o AeroAnta marcou época como misto de restaurante, bar, pista de dança e palco para shows. Foto: Divulgação.

O meu amigo Mauricio Bussab (da Tratore, a maior distribuidora de música independente do Brasil) outro dia fez um post provocativo (eu achei provocativo) dizendo que não tem saudades das baladas do passado. Assim como os desenhos (palavras dele, não minhas), as que existem hoje são bem melhores porque os espaços são melhores, os serviços idem e tem também a tecnologia que deu um up em muita coisa.

Concordei com a história das baladas (aliás, não lembro se ele usou essa palavra). Memória afetiva é algo diferente da análise concreta das casas que a gente tinha na época, vendo pela qualidade do som, do espaço, do atendimento, da variedade e tal. Com os desenhos, aí é assunto para bar.


Agora eu mudo da balada para o cinema. Tudo isso por causa do Cinearte.

Se tem alguém que não sabe, o Cinearte era um espaço no Conjunto Nacional, na avenida Paulista. Era. Porque na noite da quarta-feira, às 21h30, exibiu "Parasita" e depois fechou as portas. Tratava-se mesmo da última sessão de cinema. A última sessão da sala 1 do Cinearte, com lotação de 300 pessoas. Segundo uma matéria do Estadão, tinha umas 50 pessoas na despedida. Não chegou nem à metade.

Cinearte, tradicional conjunto de duas salas localizado dentro do Conjunto Nacional, na região da Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Nilton Fukuda / Estadão Conteúdo. Cinearte, tradicional conjunto de duas salas localizado dentro do Conjunto Nacional, na região da Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Nilton Fukuda / Estadão Conteúdo.

Eu queria ter estado lá (uma funcionária me disse, por telefone, que teria lugares. Ela já devia desconfiar que a comoção não seria suficiente para lotar as salas. Tinha ligado para saber mais do fechamento e ela me contou que todos os funcionários seriam desligados naquele dia mesmo. "Muita gente?", perguntei. "Não, uns sete funcionários". Um pequeno exército, pensei. E ela se apressou em dizer que estava feliz de ter trabalhado tantos anos no cinema. "Já era hora de ir", comentou, em um tom que não tinha amargura).
 
Queria ter ido, mas não houve chance pra mim. Uma pena. Teria revisto "Parasita" sem problemas. Vi o longa sul-coreano tem tempo, em 18 de novembro - e desde que saí da sessão naquele dia vinha dizendo que era o filme do ano. Pois foi o "filme do ano", o filme que virou história no Oscar, foi ele que fez as honras da casa, encerrando uma história que começou em 1963 (na ocasião, o espaço se chamava Cine Rio).

Cena do filme 'Parasita' (2019) do diretor sul-coreano Joon-ho Bong. Foto: Divulgação.Cena do filme 'Parasita' (2019) do diretor sul-coreano Joon-ho Bong. Foto: Divulgação.

Eu queria ter ido por uma triste "licença poética" (pensando no filme de Peter Bogdanovich) e porque queria ser testemunha do fato. É um cinema de rua que fecha as cortinas. E aí lembro também de "Cinema Paradiso", filme que por muitos anos abracei como uma das obras prediletas.
 
Analisando como as coisas se dão comigo, creio que posso dizer que não sou saudosista. Não desse tipo de coisa. Imagino que não serei a velhinha dizendo a uma audiência mais jovem "bom era no meu tempo". Porque frequentemente não era bom mesmo. Também não quero ser a deslumbrada com toda e qualquer tecnologia e evolução e invenção. Creio que também não sou desse tipo.
 
No texto do Estadão sobre a última sessão do Cinearte, há um cinéfilo (identificado dessa maneira) dizendo que vira seu primeiro Star Wars em 1977 em um cinema da avenida Ipiranga. Eu quase falei alto que meu primeiro Star Wars foi também no Ipiranga. Aí lembrei que tinha mais de um cinema na avenida. O meu primeiro "Guerra nas Estrelas", como se chamava a franquia no Brasil no início, foi mesmo no Cine Ipiranga. E foi "O Império Contra Ataca". Não me recordo o ano.

Espectadores na sala 1 do Cinearte na última sessão do cinema. Foto: Blog Salas de Cinema de São Paulo/Veja SP.Espectadores na sala 1 do Cinearte na última sessão do cinema. Foto: Blog Salas de Cinema de São Paulo/Veja SP.

Cinema de rua é algo diferente mesmo. Passei por alguns. Não só no Brasil. Ter cinema em shopping é um facilitador, admito, fazendo careta. Eu detesto shoppings (e supermercados). Por mim, nunca mais entrava em um, mas as demandas modernas te levam para lá. Isso não quer dizer que, por ser de rua, todo cinema era essa maravilha (já me acomodei em cadeiras bem desconfortáveis - e até em banco que lembrava arquibancada, mas isso é uma recordação interessante). Não mesmo. Mas tudo bem.
 
Em alguns casos, a memória afetiva pesa bastante, como as sessões no cineclube do Bixiga, na 13 de maio, durante a faculdade. A gente tinha aula de sábado que rolava nesse lugar. Víamos filmes do Fellini e depois rolava um debate. Sei de gente que dormiu profundamente nas sessões. Eu adorava.

Até pelo cine Ipiranga eu tenho afeto. Ter visto "O Império Contra-Ataca" lá com meu pai e minha irmã do meio foi muito legal. Saí deslumbrada. Acho até que só vi mais um filme com meu pai no cinema. E foi "O Senhor dos Anéis", o terceiro. Já tinha visto antes (eu e os filhotinhos pegávamos a pré-estreia da trilogia OSdA e dos filmes do Harry Potter sempre). Mas fui de novo, com meu pai, que queria saber como a história terminava. Vimos em cinema de shopping.

Voltando ao cine Ipiranga... o afeto se dá também porque vi lá o desenho da Disney que considerei o mais triste de todos (talvez ainda seja). Era "Bambi". A campina onde a mãe de Bambi foi morta se tornou a maior campina que já vi na vida. Parecia imensa. Eu era apenas uma menina pequena e muitas coisas "eram" imensas. Mas aquilo, aquela cena, aquele choque se agigantou pra mim porque foi visto na tela do cinema. Na tela do cine Ipiranga.
 
Essas memórias descritas confusamente neste post são para mostrar que gostei bastante dos meus momentos em cinema de rua. Mas reconheço que as grandes salas estão nos shoppings. A mais alta tecnologia está nos ambientes fechados e frios (às vezes congelante) dos shoppings. Com isso, não quero dizer que cinema de rua deveria desaparecer. Por que? Para ceder seu lugar a estacionamentos, a restaurantes, a uma loja de roupa, a um templo religioso? Não. Prefiro cinema de rua.

Talvez fosse preciso dar outro ar a eles. Hoje, alguns carregam um quê de circuito alternativo, o que me agrada. Pode ser que enveredassem ainda mais nisso, abrindo seu espaço para experiências bem diferentes. Já teve até festa com DJ no Belas Artes, avançando pela madrugada, nos intervalos de algumas sessões. Ou teria sido no Itaú Unibanco da Augusta? 

Eu não sei. Estou escrevendo desordenadamente.

Em Pinheiros o Cinesala, na Rua Fradique Coutinho, no coração do bairro (e quase da Vila Madalena). Foto: Refúgios Urbanos.Em Pinheiros o Cinesala, na Rua Fradique Coutinho, no coração do bairro (e quase da Vila Madalena). Foto: Refúgios Urbanos.

Queria que o Cinearte continuasse. Como continua o Bela Artes. Como existe o Cinesala, na Fradique Coutinho, em Pinheiros (que mudou de nome algumas vezes). Aliás, foi no Cinesala que quase marquei um encontro com um cinéfilo, com quem depois tive um affair ("Casablanca" foi o que nos uniu... digamos). Quase rolou o encontro lá: ele não pode ir porque tinha vindo a São Paulo por motivo de trabalho - e o trabalho o prendeu.
 
Cinema de rua, então, foi quase local de date. Foi minha primeira experiência de cinema fora do Brasil (num lugar tão diferente de tudo que podia ser obra de Fellini). Foi minha opção para matar o tempo enquanto aguardava a hora de pegar uma longa jornada aérea de volta pra São Paulo (sessão matutina de "Meia Noite em Paris" em Cannes). Foi o lugar onde fui pela última vez ao cinema com... deixa pra lá.
 

Gosto de cinema de rua. Eles poderiam ser melhores do que são hoje, como espaço e serviço, imagino (curto o Reserva, que é legal, embora ache caro). Há uma proposta de reativação do cine Ipiranga que vai ser mais do que cinema. Se a promessa vingar, será um local com tela boa, com áudio de primeira, com comidinhas gostosas de verdade, com bar decente, com área de gamers e, creio, espaço para baladas. Opa! Olhaí as baladas de novo!

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Lena Castellón é jornalista e fundadora da Lexis Comunicação.

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