O humor e a história na obra de Ugo Giorgetti

Para falar do trabalho de Ugo Giorgetti, a escritora Rosane Pavam usa dois termos bem precisos, ambos começados por agá – história e humor. Ao termo humor, ela ajunta um adjetivo também muito apropriado: “frio”. E eis aí seu livro O Cineasta Historiador – O Humor Frio e o Filme Sábado, de Ugo Giorgetti (Ed. Alameda), que será lançado nesta segunda, 21, na Livraria Martins Fontes. O livro, acompanhado do DVD de Sábado, custa R$ 48. Rosane é editora de Cultura da revista Carta Capital. Ugo Giorgetti, considerado o grande retratista de São Paulo no cinema, é cronista do Estado (escreve aos domingos na seção de Esportes).
 
O Cineasta Historiador tem origem na dissertação de mestrado defendida por Rosane Pavam na USP. Ela foi orientada por um especialista em humor, o historiador Elias Tomé Saliba (autor de Raízes do Riso, obra fundamental sobre o assunto), que também escreve o prefácio do volume. Na capa, uma foto significativa, e igualmente bem escolhida – em tom sépia, vemos o famoso Edifício Martinelli, primeiro arranha-céu paulistano e durante décadas símbolo da modernidade de uma capital que, até o final do século 19, não passava de uma província.
 
O Martinelli nasceu sob o signo da pujança ítalo-paulistana. Depois decaiu. Nos anos 1970, já degradado, foi objeto do olhar agudo de Ugo Giorgetti em seu documentário Edifício Martinelli, no qual mostrava a fauna humana que lá se instalara. O velho edifício, e este filme, são matrizes para Sábado, também ambientado num prédio outrora de luxo, e agora decadente, ficção que Ugo filmou em 1995, e agora tornado objeto de reflexão acadêmica.
 
O filme ambienta-se num edifício decadente, que conserva um último signo do luxo de outrora – seu vistoso elevador. Esta “locação” é requisitada por uma equipe publicitária para nela gravar um comercial. O filme possui cenas hilárias, como a multidão de famélicos que avança sobre os alimentos trazidos para a equipe de filmagem, o churrasco dos moradores na laje do prédio e, em especial, a do elevador que enguiça, prendendo em seu interior personagens bastante heterogêneos. Quem são? A dondoca vivida por Maria Padilha e dois agentes funerários (Otávio Augusto e o compositor Tom Zé) que vieram de rabecão buscar o “morto”, interpretado por Gianni Ratto.
 
Há de tudo um pouco em Sábado, mas sobretudo um estudo irônico do complicado convívio das diferenças sociais no Brasil. Tudo é exposto sob o signo do que Rosane Pavam resume no conceito definidor de “humor frio”, tirado do escritor siciliano Luigi Pirandello (em O Humorismo) e que define o tipo de graça que busca mais a reflexão que a gargalhada. Riso frio, porém cortante. A inteligência agradece.

Serviço
Lançamento do livro ‘O Cineasta Historiador’.

Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista, 509. 
Hoje, a partir das 18h30.
 
Luiz Zanin Oricchio em O Estado de S.Paulo. 

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