O Largo da Batata, quem diria, está melhorando!

O grande espaço de significado histórico, aberto no meio de Pinheiros era um descampado árido, sem bancos, feito com material de qualidade discutível, com poucas árvores esquálidas, sem atrativos e sem serviços aos passageiros dos ônibus e metrô, ciclistas, freqüentadores e passantes.
 

Antes-depois

Três anos depois, é possível ver que o largo está mudando. Os passageiros que pegam os ônibus agora têm pontos cobertos, ainda numa quantidade menor do que a demanda. A ciclovia que passa no meio foi sinalizada. Foi instalado um bicicletário que vive lotado. Uma mesa de pingue pongue serve de distração.

Mesas e cadeiras de boa qualidade foram instaladas. Cadeiras de praia estão à disposição durante o dia. A área próxima à Igreja ganhou um banco feito com sobra de uma árvore por um artista. Equipamentos de ginástica e até um lugar para crianças brincarem surgiram. Do outro lado da Faria Lima, o Mercado de Pinheiros está ganhando mais boxes e começa a se integrar ao largo. Melhor que tudo, foram plantadas novas árvores.

Novos bancos no Largo da Batata. Foto: Mauro Calliari.

 

Bancos, mesas e o pingue pongue. Foto: Mauro Calliari.

Pessoas interessadas na mudança fizeram a diferença

Pode parecer pouco para um lugar tão grande e que teve tantos investimentos e, de fato, é mesmo. Falta muita coisa e é fácil listar o que precisa ser feito. No entanto, o propósito desse post é destacar outro aspecto. As mudanças que já ocorreram são a expressão concreta de algo muito especial e muito raro em São Paulo: a vontade das pessoas de tornarem um lugar melhor.

As mudanças não aconteceram por acaso. Moradores do entorno, coletivos que procuram cuidar da praça, como o “A Batata precisa de você” e o “Não Largue da Batata”, ONG´s, ativistas, representantes de conselhos municipais, comerciantes se uniram e, aos poucos, foram tendo apoio dos órgãos municipais. A subprefeitura de Pinheiros começou a fazer aquilo que se espera do poder público, a  coordenação entre outras áreas da prefeitura – Secretaria de Obras, do Verde, de Urbanismo, CET, entre tantos outros, que não se falavam, ou falavam menos do que deviam.

Cadeiras de praia na Batata. Foto: Mauro Calliari.

A ocupação da praça. Foto: Facebook / Reprodução.

Houve iniciativas surpreendentes por parte de pessoas que resolveram ocupar os espaços que ninguém ocupava. Grupos de pessoas e coletivos começaram a criar e instalar, por conta própria, o mobiliário urbano que faltava. Outras pessoas começaram a criar pequenas hortas. Um morador, irritado com a demora da prefeitura, foi lá e plantou mudas de árvores, demonstrando na prática que as coisas poderiam andar mais rapidamente e gerando discussões sobre o que se pode e o que não se pode fazer no espaço público.

Mapa de reformas a partir das oficinas com interessados. Imagem: Reprodução.

O projeto original, desfigurado, foi rediscutido, num processo longo e extenuante. Algumas oficinas levantaram o que as pessoas queriam. Foi feito aquilo que deveria ter sido feito desde o início: separar as áreas da grande esplanada vazia, refazer os trajetos, pensar nas interfaces e nas travessias, nos materiais e nos equipamentos urbanos.

E como tem gente que usa a praça! Pessoas saem do metrô, chegam aos pontos de ônibus, vão ao comércio, assistem às missas, vão aos bares no entorno. Além desse movimento, há grupos de pessoas que aparecem atraídas pelas festas e pelas atividadaes promovidas pelos coletivos e por instituições. Grevistas aparecem por lá; manifestantes também dão as caras. Há até baile na rua, como mostra esse vídeo, que acompanhou o movimento do largo num fim de semana.

Aprendizados

As mudanças foram sendo demandadas e estão sendo acompanhadas por grupos de pessoas interessadas. Eu acompanhei parte dessas mudanças, como conselheiro de Pinheiros e, junto com os outros participantes, aprendi que os espaços públicos precisam de pessoas que cuidem, que acompanhem e que cobrem o poder público. Aprendi também que a prefeitura tem tantos órgãos e secretarias que é preciso que alguém faça a coordenação. As subprefeituras são os órgãos mais adequados a fazer isso. A partir de 1º de janeiro, elas mudam de nome e ganham o status de Prefeituras Regionais. Tomara que esse novo nome também inspire um aumento no protagonismo.

Área da Igreja. Foto: Mauro Calliari.

Também aprendemos que  há órgãos que não parecem ter se dado conta da importância das intervenções que realizaram. O metrô talvez seja a entidade que mais deixou de contribuir para o espaço público. O órgão, de responsabilidade estadual, claramente não deu importância ao seu trabalho de criação de espaços de qualidade. As entradas são acanhadas, o trânsito de pessoas é confuso, não há área de espera e a ligação com o resto do largo é pífia.  

Descobrimos também que os colegiados precisam de representantes locais. É o caso da Operação Urbana Faria Lima, que captou mais de 2 bilhões de reais em créditos relativos ao aumento do potencial construtivo. No seu Grupo Gestor, não há nenhum representante de pessoas que usam o lugar e eles também começaram a receber questionamentos sobre as reformas da praça durante as reuniões.

Prestação de contas na Subprefeitura de Pinheiros. Foto: Mauro Calliari.

Vai ser interessante acompanhar os próximos anos. Acredito que o comércio local, assim como os escritórios do entorno, possam participar mais das decisões e da melhoria da infraestrutura, como, aliás, já começou a fazer a Sul América, que patrocina as cadeiras e os guarda-sóis.

O largo ainda está longe de ser  um espaço extraordinário, mas já é um lugar que tem significado, aquele que vem da vivência cotidiana. Se quiser conferir, vá lá no domingo que vem, dia 11 de dezembro. O pessoal anda planejando um monte de atividades e pode ser ma chance de conhecer um lugar tão difícil como emblemático na história da cidade.

***
Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no blog Caminhadas Urbanas do Estadão. 

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