O que é ‘placemaking’ e como ele pode transformar as cidades para melhor?

O placemaking, que em uma tradução literal pode ser entendido como a produção de lugares, tem como objetivo a transformação de espaços públicos na busca por criar oportunidades para estreitar as conexões entre as pessoas e estes locais. Placemaking deve ser entendido, portanto, como um processo centrado nas pessoas e suas necessidades, aspirações, desejos e visões, o que o torna dependente da participação da comunidade.

Sundance Square forma o núcleo de um novo distrito urbano caminhável em Fort Worth, TX, USA. Cortesia de PPS Autores como Jane Jacobs e William H. Whyte lançaram, na década de 1960, noções que se tornaram bases para a construção do placemaking enquanto conceito, ainda que este tenha se firmado como tal décadas depois. A visão direcionada à criação de bairros ativos, espaços públicos convidativos e cidades que de fato atendem às necessidades dos seus habitantes em diferentes níveis foram algumas das principais contribuições para a posterior criação e estabelecimento deste conceito.

O Project for Public Spaces (PPS), uma das entidades que atua na promoção de iniciativas de placemaking em diferentes países do mundo, iniciou a utilizar o termo consistentemente na década de 1990, após o desenvolvimento gradual da abordagem durante os quinze anos anteriores. Além de promover propostas práticas em cidades ao redor do mundo, o PPS tem contribuído para alargar o alcance do conceito através, por exemplo, do lançamento de bases para avaliar a qualidade de um espaço público e de conselhos para fazer das cidades lugares melhores para se viver.

Entre as principais contribuições do PPS para a cristalização do conceito, estão os onze princípios do placemaking:

  1. A comunidade é quem sabe construa lugares, não projetos
  2. Procure parceiros
  3. Eles sempre dizem “não é possível fazer
  4. Você pode enxergar muito apenas observando
  5. Tenha uma visão
  6. A forma dá suporte à função
  7. Triangulação
  8. Experimentação: mais leve, rápido e barato
  9. Dinheiro não é um problema
  10. Nunca acaba

Os princípios, descritos neste booklet elaborado pelo PPS, podem ser encontrados em uma série de projetos para espaços públicos que buscam criar lugares significativos para a comunidade. Um exemplo é a intervenção Precollinear Park desenvolvida pela Torino Stratosferica em conjunto com centenas de habitantes de Turim, Itália. O projeto, concluído em 2020, apropria-se do espaço antes ocupado por uma linha de bonde, já abandonada, para garantir aos habitantes uma área de lazer ao ar livre onde pudesse ser mantido o distanciamento social, devido à pandemia de Covid-19.

Estação de Tramway no Precollinear Park de Turim, Itália. Foto: Torino Stratosferica A partir da participação de mais de 700 residentes da cidade, tanto no compartilhamento de ideias e sugestões como em campanhas de crowdfunding, o parque linear foi viabilizado e equipado com bancos, cadeiras, vasos de flores e um caminho em zigue-zague que conduz ao pequeno palco para eventos. O projeto tornou-se uma atração permanente em constante adaptação para a cidade e seus habitantes, que poderão participar de exposições e workshops futuros.

Mas, assim como tem acontecido com muitos conceitos surgidos nas últimas décadas, o placemaking também tem sido utilizado de forma banal para descrever projetos que não necessariamente se enquadram no termo em uma espécie de rótulo superficial. Isto é, interpretado menos como um processo e mais como uma marca. 

Uma multidão de moradores assiste a um filme no Discovery Green, Houston, TX, USA. Foto: PPS.

Como já foi dito, a produção de lugares, segundo o conceito do placemaking, vai muito além da requalificação de espaços públicos, portanto, sua qualidade não pode ser mensurada apenas pelo seu caráter físico. Este aspecto torna ainda mais relevante o conhecimento da sua definição e dos seus processos específicos, para que, enfim, os espaços públicos possam ser reinventados e as conexões sólidas entre lugar e comunidade possam ser construídas de forma coletiva.

***
Por Susanna Moreira no Arch Daily.  

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