Para mudar a forma como vivemos nas cidades é preciso colocar os pés na rua

Nos mais de 100 anos que nos separam daquelas reflexões, as ruas do Rio de Janeiro e de todo o mundo viveram mudanças cruciais, que reorientaram a cultura, a política e a economia urbana. As cidades contemporâneas são um amálgama de um processo histórico marcado pelo êxodo rural e pelo fascínio da modernidade. O século XX nos deixou como legado cidades hostis e gigantescas manchas urbanas com desequilíbrios territoriais e dramas humanos de todos os tipos.

Olhar para trás e compreender essas transformações é tão fundamental quanto, neste momento, treinar o olhar para identificar oportunidades de mudanças na forma como nossas sociedades definem prioridades para o usufruto coletivo da cidade.

Crônicas e poesias continuam absolutamente necessárias para tocar nossas almas, mas é hora da gestão das grandes cidades serem tocadas pela realidade: o modo como vivemos nos meios urbanos alcançou um patamar insustentável. Encarar o problema e encontrar meios para revertê-lo passa pelo resgate da possibilidade de caminhar e, mais que isso, do prazer de flanar pela cidade. Como João do Rio, conhecer os tipos e costumes que nela habitam – a pé.

Foi neste esforço de unir diversas vozes engajadas na construção de cidades caminháveis que organizei, juntamente com o arquiteto e urbanista Victor Andrade, do LABMOB/UFRJ, o livro Cidades de Pedestres – a caminhabilidade no Brasil e no mundo. O livro reúne artigos inéditos de autores que têm se debruçado sobre medidas de pedestrianização e proposto alternativas viáveis à lógica de segregação que conhecemos tão bem.

A relação dos pedestres com cidades como São Paulo, Copenhague e Nova York é o tema do livro “Cidades de Pedestres – A Caminhabilidade" no Brasil e no Mundo. Foto: Marcelo Andrade.

Caminhar é uma forma de se reconectar com o espaço físico e, principalmente, com o espaço social que nos cerca. A escolha de uma mobilidade que nos transporta isolados do mundo, como indivíduos encapsulados que não se relacionam com a vida lá fora não deve prevalecer. Não podemos continuar privilegiando o privado em detrimento do público, enquanto políticas mal orientadas maltratam nossos sonhos de vivermos em cidades mais equitativas e mais democráticas e, sobretudo, de construirmos um futuro possível, respirável, caminhável. O caminho é longo. É urgente darmos o primeiro passo.

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Clarisse Cunha Linke trabalha em planejamento e implementação de políticas e programas sociais desde 2001, com experiência no Brasil, Moçambique e Namíbia. É mestre em Políticas Sociais, ONGs e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science, onde recebeu o prêmio “Titmuss Examination Prize”. Artigo publicado originalmente no ITDP.

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