Projeto VivaSP recupera milhares de histórias de uma cidade multifacetada

 
Em 25 de janeiro, São Paulo completa 462 anos como a maior e mais importante metrópole brasileira. Conhecida por receber gente de várias regiões do Brasil e do mundo, a capital paulista guarda histórias multifacetadas em suas ruas, vielas e avenidas – e nas memórias de seus moradores. São elas que a ferramenta colaborativa VivaSP veio descortinar.  
 
O VivaSP é uma biografia viva, uma história de São Paulo contada por pessoas comuns. O projeto teve origem no rádio, no qual em 2003 ouvintes passaram a contar histórias curtas sobre a cidade. Um site, transformado em diário coletivo, reunia essas contações e inspirava novas histórias. Nesse formato híbrido, o projeto reuniu mais de 8 mil histórias até 2009.
 
Em 2016, o VivaSP ressurge em formato multimídia: as crônicas e relatos mais significativos desse acervo serão publicados na forma de antologias digitais, com fotos e vídeos. As antologias poderão ser consultadas por tema, região da cidade ou por década; para quem preferir, os livros ainda poderão ser impressos.
 
Colaboração em todos os níveis  
 
Assim como a ideia original do projeto era a colaboração, o financiamento do novo formato também será coletivo. A “vaquinha” virtual começará depois do Carnaval na plataforma de crowdfunding Catarse, sendo apoiada por uma fanpage no Facebook a partir de janeiro, quando a cidade faz aniversário.  
 
A campanha de arrecadação ficará no ar de fevereiro até início de abril. A iniciativa das antologias digitais também surgiu de forma colaborativa, como um desafio entre os Amigos dos Editores Digitais (AEDs). Segundo a coordenadora Gabriela Dias, a ideia era incentivar projetos editoriais inovadores no grupo, que reúne mais de 2.700 pessoas.  Criado pelo antropólogo e historiador Juliano Spyer, o projeto VivaSP terá os livros lançados pela editora Alpendre, especializada em e-books e recém-premiada pelo “melhor e-book de gastronomia do Brasil” no Gourmand Cookbook Awards 
 
Sobre o VivaSP  
 
O VivaSP estreou no segundo semestre de 2003, antecipando a comemoração dos 450 anos de São Paulo em janeiro de 2004. Inspirado em Achei que meu pai fosse Deus (e outras histórias verdadeiras da vida americana), do escritor norte-americano Paul Auster, o projeto incentivava ouvintes de rádio a contarem histórias curtas sobre a cidade. Elas iam ao ar toda semana na Eldorado AM e FM e na internet.
 
Até 2009, a plataforma recebeu mais de 8 mil histórias escritas por pessoas comuns, que falam principalmente sobre as transformações ocorridas em São Paulo e tocam em temas atuais como mobilidade, violência, qualidade de vida e meio ambiente. O grupo de autores passou também a se reunir para encontros e passeios pela cidade, evidenciando que um cidadão só se sente parte de uma cidade quando de fato se ocupa das experiências e das inquietações que ela pode proporcionar.
 
Conheça alguns trechos das crônicas 

 
“Logo depois das hortas dos portugueses, começava a grande várzea do Tietê que se espalhava a perder de vista e a qual nossa turma costumava percorrer, chapinhando a água à procura de rãs, ovos de codorna, passarinhos, preás, bananas do brejo, morangossilvestres, mangas, goiabas, amoras, enfim, tudo que se encontrava num “safári urbano”. Quando chovia, o Tietê inundava aqueles campos, e, então, acrescentávamos ao nosso “safári de caça” a temporada de natação. Nossa turminha procurava o poço que ficava próximo da Companhia Vidraria Santa Marina. Não raro algum garoto mais “metido” pagar com a vida o excesso de arrojo nas águas barrentas das chamadas “lagoas”. (…) Ainda iríamos participar de muitas histórias em nossa infância feliz e despreocupada na várzea do Tietê. Depois, transformaram a várzea num canal de esgoto, criando um problema infeliz e insolúvel para tantas gerações”. ‘A várzea do Tietê’, de Walter Santos Macedo.
 
“Um cavalo era o meu sonho de consumo e tudo o que eu gostaria de ganhar de presente de Natal. Naqueles idos da década de 1960, com a imaginação correndo solta pelos bairros tranquilos e recém-implantados na cidade, entre os campos formados pelo desmatamento ou terraplenagem, tudo era possível para mim. Até ter um cavalo! Como não tínhamos espaço suficiente, meu pai burlava as minhas investidas e me levava, juntamente com os meus irmãos, para Interlagos, onde se podia alugar cavalos por hora para passeios pelo bairro, que era uma seguida interligação de várias porções de mato. (…) Como as corridas eram mais raras que os cavalos de aluguel, nosso caminho para a diversão semanal tinha como ponto final a represa [de Guarapiranga]. A cavalo andávamos em torno da mesma e íamos até o Clube Castelo, atravessando riachinhos limpos em pontes de madeira com muita vegetação típica da Mata Atlântica”. ‘Interlagos a Cavalo’, de Silvana Boni de Souza.
 
“Naquele domingo de céu azul, resolvi vestir uma calça comprida (imaginem!) e um top discreto. No ônibus, percebia o desconforto das pessoas. Calça comprida era para ser usada por mulheres só no inverno, durante as férias, em lugares distantes como Campos do Jordão. Voltei a pé até a Praça da República, para tomar meu ônibus, o João Ramalho, que parava em frente ao Cine Marabá (o máximo!), quase na esquina da Ipiranga com a São João. Não ficou por menos. Foram contar à minha mãe que me viram, em plena Praça da República (que era linda e bem cuidada), no domingo, ao meio-dia, de calça comprida!” ‘Escândalo na República’, de Neusa Longo.
 
“Era uma rua de um só quarteirão. Ligava a Cardoso de Almeida à Monte Alegre, no alto das Perdizes. Chamava-se Rua Doutor Estevam de Almeida (…). Eu disse chamava-se porque ainda existe uma rua no lugar mas não é, nem de longe, a rua de minha infância. Era uma rua cheia de vida. Logo cedo vinham o Turco Verdureiro com sua carroça multicolorida de verduras e legumes; a Cabreira, anunciada pelos guizos de suas cabras, vendendo leite tirado na hora, seguidos do padeiro português em sua carrocinha, oferecendo pães para todos os gostos arrumados em uma cesta de vime. (…) Começava a escurecer. As mães surgiam nos portões chamando para o banho. “Só mais um pouquinho!” Era nessa hora também que, vez por outra, passavam dois personagens marcantes: um negro alto e forte apregoando – “Olha o pinhão! Pinhão cozido!” – e um tipo caipira, balaio na cabeça – “A pamonha! Pamonha quentinha!”. ‘A minha Doutor Estevam’, de Roberto Pereira da Fonseca.

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Paulo Ferreira / Mundo Comunicação e Assessoria.
 

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