Quando estranhos param o que estão fazendo para assistir juntos ao eclipse, a cidade se torna de fato o lugar do encontro

Todos olhavam para a sombra que se formava sobre a lua.

A sombra que se via, aprendemos, é a de nosso próprio planeta, ou em outras palavras, a nossa própria sombra projetada a  dezenas de milhares de quilômetros.

A enormidade do fato astronômico deu a transcendência necessária para justificar a pequena pausa no ir e vir daquelas pessoas.

Enquanto alguns olhavam calados para a lua, pensando  talvez em Hiparcos, Copérnico e astrônomos maias, outros conversavam, em voz baixa.

O fato é que o eclipse levou paulistanos a pararem um pouquinho e olhar para cima. Juntos.

Além da raridade do alinhamento dos astros, o encontro de pessoas é sempre um fato que merece ser comemorado.

Afinal, não são tão freqüentes as ocasiões em que estranhos se encontram nessa cidade.

Na copa do mundo, uma TV ligada na padaria dava margem para uma conversinha rápida – “quanto está Peru e Dinamarca?”. No Reveillon na Paulista, poucas conversas, mas a cumplicidade de quem olha para o relógio no exato segundo em que um ano novo começa. No Carnaval, mais olhares e catuabas que palavras. No dia a dia, numa loja, no ônibus ou na feira, às vezes alguma coisa faz com que pessoas estranhas abram por segundos a janela da desconfiança e troquem algumas palavras.

É o momento em que a cidade se torna, na prática, aquilo que alguns sociólogos falam, mas que muitos habitantes não sentem cotidianamente, o lugar do encontro.

Por isso, quando acabou o eclipse e alguém num prédio soltou um rojão, achei que fez sentido. Não gosto dos rojões, há até uma boa lei contra eles, mas talvez o sujeito tivesse guardado o artefato para comemorar um gol que não veio e percebeu que deveria comemorar outra coisa. Que ele escolhesse o fim do eclipse para finalmente extravasar, me pareceu um gesto quase solidário. Era apenas alguém querendo repartir a emoção que estava sentindo sozinho com pessoas que ele não via.

Em São Paulo, além dos parques, como o Ibirapuera (foto), a selva dos arranha-céus foi ambiente propício para registrar o eclipse. Fernando Frazão / Agência Brasil.

No próximo eclipse, quem sabe ele também esteja na rua, entre estranhos, procurando um lugar num raro mirante paulistano para ver a própria sombra refletida na lua.

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Mauro Calliari é administrador de empresas, mestre em urbanismo e consultor organizacional. Artigo publicado originalmente no seu blog Caminhadas Urbanas. 

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