Em Turim, na Itália, encontro ‘Slow Food‘ avalia carne e conclui: alguma coisa está fora da ordem

Em 2015, o maior consumo per capita de carne vermelha do mundo foi nosso. Já em matéria de frango, ficamos com o segundo lugar, consumindo mais “carne branca” que China e Europa juntas! A nossa predileção pelo sabor suíno nos deixa na quinta posição. Moendo tudo, surge um sistema  bilionário, com agropecuaristas e seus jatinhos, campanha internacional como melhor carne do mundo, escândalos políticos, cachês milionários, inovações gourmet e por aí vai. Mas talvez seja a hora de começar a tirar o carro da frente dos bois. 
 

De 22 a 26 de setembro foi realizada em Turim, na Itália, a sétima edição do Terra Madre, encontro que reuniu mais de sete mil ativistas de 143 países do movimento Slow Food. Sob o mantra “ame a terra”, o evento tomou conta dos parques, praças, museus, castelos, teatros e até da residência real, em mais de 950 atividades entre debates, palestras, shows, filmes e exposição com centenas de representantes da produção artesanal de iguarias dos cinco continentes. Houve mais de 500 mil visitantes.

O Terra Madre teve a presença do presidente da Itália, Sérgio Matarella, que reconheceu a importância da iniciativa em nível global e declarou que “todo mundo só tem a ganhar com a soberania alimentar”. O movimento Slow Food foi criado em 1986, na própria cidade de Turim, por Carlo Petrini e a partir daí vem emitindo alertas importantes sobre a discrepância da superprodução de alimentos em nome da saciedade da população mundial. A tradução simplista, “comer devagar ou comida lenta” é só a essência de toda uma causa que vem sendo articulada junto a foodies, entidades, indústria e governos, que visa o alimento bom, limpo e justo. Segundo Petrini, uma espécie de Dom Quixote poético e cheio de frases de efeito, já são três décadas de militância confirmando que algo está fora da ordem.

“De um lado, 800 milhões de pessoas passam fome, de outro dois bilhões sofrem dos malefícios da superalimentação. Temos produzido muita tecnologia e informação. Mas tecnologia e informação não são de comer! É preciso um retorno à valorização e ao desenvolvimento da agricultura e do pastoreio”. Segundo ele, “foi no século 16 que a horta foi parar na porta dos fundos, antes jardim e horta eram uma coisa só. Precisamos religar a beleza do plantio e do manejo da terra ao dia a dia, até nas grandes metrópoles, para criar uma atmosfera nova de solidariedade social”.

Ao contrário do que podem pensar os mais puristas, o movimento não defende o vegetarianismo, mas sim valoriza a convivência harmoniosa entre os reinos animal e vegetal. Porque a terra sem animais vira um deserto e do deserto nada se tira da terra. Aí está uma questão nervosa, principalmente na sociedade atual: o consumo consciente da carne. O recado “slow meat” é que se compreenda a essência da vida, que se defenda a diversidade e as diferenças de costumes e toda carne seja considerada como algo muito nobre.

O consumo deve ser feito com respeito, em pouca quantidade e com mais qualidade, para interromper o ciclo de devastação das florestas, da perda da biodiversidade, do desperdício de água, da mudança climática e dos superantibióticos. Na contramão, o Brasil, celeiro e sede da criação extensiva de animais para todo o planeta, foi citado como um dos protagonistas das distorções do exagero e do desperdício em toda a cadeia, manejo, distribuição, comercialização e rebaixamento das carnes em segunda ou terceira linhas. O cenário apresentado pela organização é crítico: anualmente o Brasil produz mais de 80 milhões de toneladas de milho e outras 86 milhões de toneladas de soja para conseguir 26 toneladas de carne.

O movimento Slow Food foi criado em 1986, em Turim, por Carlo Petrini. Foto: Divulgação.

O gigantismo exigido pela plantação dos insumos que alimentam este ranking nos coroa absolutos no pódio do uso de pesticidas agrícolas: somos o “número um” no ataque às defesas da natureza, não amamos a terra. Por aqui, a cobrança pela sustentabilidade na produção da carne ainda é tacanha. Alguns pequenos movimentos dos grandes frigoríficos são responsáveis por novos produtos, mais “saudáveis ou goumet”, infelizmente custando mais caro.

Da produção acelerada e da crueldade aplicada na criação dos animais é bom nem falar. A legislação é branda, antiga e se renova naquilo que interessa à própria atividade. Por isso é importante ecoar a mensagem do Terra Madre e a sua recomendação “slow meat”. O grito de guerra da passeata que tomou conta das ruas de Turim resume a conta: “eles são muitos, mas somos milhões”. Então é no quesito “frequência” que cada um tem o poder de diminuir e frear esta máquina de moer recursos naturais.

O churrasquinho do domingo, a picanha do boteco e o bife nosso de cada dia têm de deixar de ser gula para virar degustação, uma iguaria, de vez em quando. A carne deve voltar a ser um mito em nossa vida. Temos de aceitar a contrariedade inerente ao consumo da carne na trajetória e cultura humanas. Afinal, no princípio, o próprio homem era a carne e o alimento de muitos animais. E então a história se inverteu. Ao longo do tempo, novos significados e ideologias surgiram em torno do abate dos animais. Em nome dos deuses, dos poderosos e até do sofrimento, a carne tornou-se oferenda em rituais de sacrifício.

Por outro lado, também virou uma espécie de talismã, símbolo de esperança, prosperidade e boa sorte em celebrações da vida. Para alguns é tabu e para outros, prazer. Simboliza privação e ostentação, ofensa e orgulho ao mesmo tempo. Mas no fim do dia, em nome da carne, estamos cometendo muitos pecados. Carne não é bandejinha. Não pode ser banalizada assim. É um animal que nasceu e morreu para nos alimentar. Tem de ser apreciada com muita parcimônia e dignidade. Guarnecida de valores assim, a carne é sana!

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* Marisa Furtado é VP de inovação da Fábrica. Também atua como especialista em gastronomia, história e cultura do Madame Aubergine Cozinha & Cultura.
**Artigo publicado originalmente no Caderno de Propaganda & Marketing.

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