Sobre a escuta ativa, o que as crianças têm a dizer?

“Um dia ensolarado, embalado ao som de uma banda de Jazz, exposições de arte ao redor, produtores autorais e ótima gastronomia, compunham o cenário. Voluntários a postos, de repente, despretensiosamente uma menina aparentemente jovem e menor de idade, sentou-se em uma cadeira e permaneceu por alguns instantes conectada ao seu celular. Fui ao seu encontro, sentei-me em sua frente, pronunciei um singelo oi e perguntei se ela gostaria de conversar. Neste instante, timidamente ela interrompeu o uso do celular me direcionou os olhos e perguntou espantada: – “Mas eu sou só uma criança, não tenho nada importante para dizer” (sic). 

Fiquei surpresa com a sua colocação e automática desvalorização. É como se uma criança não pudesse conversar, ocupar este lugar de troca em que um outro, adulto, está disposto a ouvir o que ela tem a dizer. Imediatamente me coloquei à sua disposição e demonstrei meu interesse em ouvir, conhecer, conversar sobre qualquer coisa do seu mundo infantil. Pontuei que no nosso projeto,  estamos disponíveis e queremos escutar crianças e adolescentes. 

Comecei perguntando sua idade, ela respondeu 11 anos e engatou uma longa conversa que se iniciou com o motivo que a levou à feira, seguindo para a relação familiar com os pais, escola, mudanças, medos, desejos, responsabilidades, amizades, escolha profissional, desempenho escolar, foram muitos os assuntos… Temáticas complexas, profundas, que permeiam sua vida e que pediram espaço naquele dia quente. 

Após quase uma hora de conversa, nossa conversa foi interrompida pela mãe da criança. A garota respondeu que conversava e a mãe sugeriu que ela fosse comprar algo para comer, pois deveria estar com fome. A menina pediu para a mãe lhe comprar algo e não demonstrou estar muito preocupada com isso no momento. Sua alma tinha fome do quê? O que de fato desejava? Conversar parecia mais importante naquele exato momento, mas infelizmente sua mãe não pôde perceber isto e ordenou que a filha fosse comprar algo para comer. Rapidamente despediu-se e saiu para realizar o desejo de sua mãe. 

Será que as crianças gostam de conversar? O que as crianças têm a dizer? Foto: Shutterstock.

Após algum tempo, surpreendentemente, a mesma menina que havia questionado meu interesse sobre a sua história e seu direito de falar dos percalços de sua vida aos 11 anos, voltou a se aproximar de nossas cadeiras. No momento eu estava conversando com outra pessoa e ela permaneceu por alguns instantes por perto, sem sentar-se, depois foi embora. Mais tarde, quando eu estava livre, insistentemente ela retornou disposta a continuar a conversa anteriormente interrompida, desejante de um lugar de escuta e troca. Contente com a situação, novamente me disponibilizei e seguimos por mais uma hora conversando, prolongando os assuntos antes descritos. Até que, mais uma vez, sua mãe apareceu e solicitou que ela a ajudasse. A menina disse que iria em instantes, conseguiu se despedir de mim e finalizou dizendo que em algum momento gostaria de ser a pessoa que está do “outro lado” (sic.), ocupar a minha posição, sentar disponível para escutar e se conectar com um outro desconhecido, que passeia em uma feira por aí…” (Adriana Greco, voluntária do Sidewalk Talk Conversas na Calçada)

Como podemos ver, diferentemente do que a princípio imaginado, ela tinha muita coisa importante para dizer. E, ao encontrar uma boa interlocutora a conversa aconteceu e ela pode, inclusive, manifestar o seu desejo em também poder escutar uma outra pessoa. 

Na nossa rotina tão frenética, damos ouvidos às crianças? Foto: Shutterstock.

Os pais/responsáveis muitas vezes esperam que os filhos realizem seus desejos, esquecem que eles são dotados de desejos, necessidades próprias e que como pais, precisam estar atentos e abertos para acolherem as demandas. Isto não significa concordar com o filho, ou aceitar sem nenhuma reflexão, mas se permitir escutar e estabelecer um diálogo. As crianças precisam brincar, estudar, conviver, conversar, manifestar seus desejos, realizar trocas com outras crianças e construir vínculos. 

A cidade nos parece ser um ótimo palco para ser explorado entre pais e filhos e render boas conversas, caminhadas e brincadeiras que possam surgir desta exploração. Em tempos de hiperconectividade, um passeio pelas ruas, uma paradinha estratégica  numa praça, uma conversa com os comerciantes do bairro podem ser iniciativas criativas e lúdicas; uma ótima ferramenta na descoberta e construção da alteridade, no interesse pelo Outro que cruzar o seu caminho.

Habitar uma sociedade mais solidária, atenta às necessidades, aos direitos infantis e que proporcione espaços públicos acolhedores, que abracem e acolham a infância.

***
Por Adriana Greco & Patrícia Maria Martins & Luiz Alfredo Santos do Sidewalk Talk – Conversas na Calçada, que escrevem quinzenalmente no São Paulo. 

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