Teatro do Centro da Terra, no Sumaré, reabre para receber artistas inovadores

A construção no subsolo do edifício localizado na estreita Rua Piracuama foi ideia do premiado diretor de teatro Ricardo Karman, que também é arquiteto. O teatro intimista com palco italiano, pequeno, e plateia para cem pessoas levou dez anos para ficar pronto e pelo menos outros cinco para ser completamente regularizado pela Prefeitura de São Paulo. Para chegar ao teatro, é preciso descer 61 degraus de escada ou usar um elevador. Apesar da profundeza, internet “pega lá embaixo”.

Questionado sobre como surgiu a ideia do teatro subterrâneo, Karman explica que foi guiado por um instinto pragmático. “Todos os meus trabalhos são processuais [quando o projeto não tem desfecho definido e avança conforme as oportunidades]. Eu ensaiava em um salão ao lado deste terreno com a Kompanhia do Centro da Terra, que fundei em 1989, e pensava que era um bom espaço para um teatro”, explicou.

O diretor contou que as obras foram difíceis porque demandavam muito dinheiro, engenharia para fortalecer a estrutura do prédio e licenças da Prefeitura. “Era difícil e não tinha muito dinheiro, mas fiz um trabalho guerrilheiro e que contou com ajudas inesperadas, como dos próprios fiscais da Prefeitura que vinham aqui e acabavam se encantando com a ideia.”, disse.

A inauguração do Teatro do Centro da Terra ocorreu oficialmente em 2001, mas em 1999, Karman realizou a abertura do espaço para convidados casando-se com a artista plástica Keren Ora Karman no palco, após alguns dias de ensaio e com a presença de críticos de teatro. “Foi divertido. Os críticos perguntavam se ganharíamos o prêmio Shell”, conta o diretor, que dois anos mais tarde foi agraciado com o prêmio pelo espetáculo “Viagem ao Centro da Terra”.

Keren assumiu a gestão do espaço, criando cursos de artes para crianças e adolescentes, e elaborando o conceito da nova fase do teatro, que nesta segunda se torna um espaço cultural com apresentações musicais e curadoria para receber mais peças de teatro.

“Temos que dar conteúdo ao espaço e resgatamos o conceito do trabalho que fizemos no Circuito Petrobras em 2001, quando diversos grupos apresentaram espetáculos experimentais aqui”, relembra Keren. “Será um espaço alternativo, experimental e contemporâneo, apresentando artistas cujos trabalhos envolvem pesquisa, experiência e momentos de encantamento”, explicou.

O fundador do teatro ajuda a explicar o conceito da nova proposta. “Onde está o contemporâneo? Qual é a linguagem do nosso tempo? Como é a expressão artística dessa era de deslumbramento e velocidade? Queremos trazer para cá a produção dos caras que justamente expressam esse pensamento contemporâneo”, disse Karman.

Três curadores vão ajudar na seleção dos artistas e projetos que se apresentam no Centro da Terra. O diretor Ruy Filho trará espetáculos de duas semanas e que poderão ocupar todos os ambientes do edifício, inclusive as escadas e o café-bar. O dramaturgo Dib Carneiro Neto cuida do projeto infantil. “Se for Chapeuzinho Vermelho, que tenha uma nova proposta para a velha história”, explicou.

A programação teatral ainda está sendo preparada pelos curadores, mas a musical, que será desenvolvida pelo jornalista Alexandre Matias, começa nesta segunda. Ele oferecerá uma nova proposta de temporada de shows, com quatro apresentações diferentes de um mesmo artista, que é desafiado a sair da zona de conforto.

“Acho que o show virou uma apresentação formulaica. Os artistas começam todos os shows de uma temporada com a mesma música, depois de algumas canções apresentam os músicos, em seguida fazem uma gracinha. Perde o inesperado”, explica Matias.

Tatá Aeroplano, como Frito Sampler, e Julia Valiengo que se apresentam nesta segunda. Foto: Divulgação.

O primeiro artista a se apresentar é o prolífico Tatá Aeroplano, que já desenvolve projetos musicais de gêneros e parceiros diversos, como Otto, Criolo e Karina Buhr. “Serão quatro segundas-feiras bem diferentes entre si em que poderei explorar coisas que realmente gosto, inclusive com a exibição de clipes que dirigi”, adianta Tatá.

“Apesar de completar 15 anos de carreira, não vou apresentar músicas antigas. Gosto de olhar para frente e buscar novidades. Vou apresentar o que estou fazendo e o que vou lançar, apontando para o futuro e para os próximo 15 anos”, explica.

Os shows de Tatá Aeroplano acontecem às segundas, acontecem às 20 horas. Os ingressos estão à venda pela internet e custam R$ 30.

Funcionários cuidam dos últimos detalhes antes da reinauguração do Teatro, no Sumaré, na Zona Oeste de SP. Foto: Alan Morici / G1.

“Estamos lutando todos esses anos para manter este espaço sem patrocínio. É uma atitude de resistência”, afirma Karman. “Todo mundo fala que a arte é a cereja do bolo, que primeiro você tem que garantir a alimentação, o plano de saúde, a moradia, e só depois você pode sentar em uma sala de concerto e ouvir música. Eu discordo. A arte pra gente é o gosto do bolo, é o nosso cotidiano, é o que a gente come, vive, pensa e vê”, completa.

Serviço

Teatro do Centro da Terra
Rua Piracuama, 19 Sumaré, São Paulo.
Tel: (11) 3675 1595.
Email: teatro@centrodaterra.com.br
Site: http://www.centrodaterra.com.br/

***
Por Vivian Reis, G1 São Paulo.

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