Trip Transformadores: personalidades que, com coragem, inteligência e originalidade, ajudam a promover o avanço do coletivo

É preciso uma dose extra de coragem para lutar contra os problemas enraizados na cultura brasileira. Há 13 anos, o Trip Transformadores reconhece o trabalho de gente corajosa que, com seus trabalhos, ideias e iniciativas de grande impacto ou originalidade, ajudam a promover o avanço do coletivo. “O prêmio existe para celebrar pessoas que descobriram maneiras mais inteligentes e generosas de gastar seu tempo nesta breve passagem por este planeta”, afirma o editor e fundador da Trip, Paulo Lima.

Os homenageados de 2019 são figuras inspiradoras que ajudam a evidenciar, de forma muito clara, a ideia de que só vai ficar bom para alguém quando estiver bom para todo mundo. Personalidades que usam sua visibilidade para reverberar causas importantes, gente que transforma uma luta individual em luta coletiva, que muda as engrenagens de um sistema injusto e violento e se dedica a desenvolver um jeito mais humano de lidar com as questões da sociedade.

São pessoas que estão na linha de frente apontando caminhos para a transformação e que traduzem o nosso jeito de olhar o mundo. E elas já estão entre nós. Conheça os homenageados deste ano:

Altamiran Lopes Ribeiro | Socioambiental em foco

Para o piauiense de 39 anos, preservar o modo de vida de comunidades tradicionais — quilombolas, indígenas, quebradeiras de coco e geraizeiros, por exemplo — é também cuidar do meio ambiente: “Essas pessoas têm uma relação forte com a natureza e a noção de que é preciso preservar rios, nascentes, plantar da melhor forma, sem o veneno que contamina o solo e a água”, explica. O trabalho dele, com foco no desenvolvimento socioambiental, passa por evitar que grupos como esses sejam expulsos de suas terras,  enfrentando a grilagem e o avanço do agronegócio no nordeste do Brasil.

No país que lidera o ranking de mortes de ambientalistas – foram 57 em 2017, segundo o relatório da ONG britânica Global Witness –, ele conta que recebe ameaças constantes, mas segue na defesa dos mais vulneráveis: “O medo existe, mas você  vai deixar seus irmãos morrendo? Muitas vezes, eles não se defendem porque não têm informação”, diz. Em 2018, Altamiran denunciou grileiros que agem na região de Matopiba ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. 

Altamiran atua há oito anos como coordenador da Pastoral da Terra (organização que protege trabalhadores rurais) e há seis tem dedicado esforços à região do Matopiba, que abrange partes dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, área conhecida como a “última fronteira agrícola” do país. “Os confrontos agrários estavam se acirrando cada vez mais, as pessoas estavam sofrendo com a pistolagem, sendo expulsas”, conta. “A terra passou a ser um atrativo financeiro para investimento internacional, está na mira de empresas e grandes fazendeiros.”

Yvonne Bezerra de Mello – Educação sem barreiras

Como educar crianças de rua em situação de extrema vulnerabilidade? Essa foi a pergunta que a carioca Yvonne, 72 anos, se fez quando voltou ao Brasil em 1980. Ela havia acabado de concluir um doutorado na Sorbonne, onde se dedicou a entender os problemas de aprendizado em crianças vivendo em estado de guerra em cinco países: Etiópia, Sudão, Quênia, Tanzânia e Angola. “Elas têm bloqueio de aprendizado devido a traumas e estresse constante, que, em qualquer indivíduo, provocam a perda da memória curta e a incapacidade de memorização”, explica a filóloga e linguista. No Rio, ela identificou problemas semelhantes nas crianças e adolescentes das ruas e passou 13 anos dando aulas no que chama de “escola sem portas nem janelas”, que era a própria rua.

Durante esse período, desenvolveu uma metodologia de ensino inovadora, que envolve exercícios de cálculo rápido e memorização. Conhecida como UERÊ-MELLO, a pedagogia de Yvonne já ajudou mais de 7 mil crianças, capacitou mais de 18 mil professores no Brasil e no exterior e vem auxiliando países europeus a lidarem com a nova geração de alunos refugiados. “Para uma criança de 6 anos aprender a ler e escrever, teria que ter 4 mil palavras na memória. Atendo crianças que não têm nem 500. Ainda assim, conseguimos uma resiliência de 95% de desbloqueio cognitivo”, celebra.

Em 1993, Yvonne testemunhou a Chacina da Candelária – por esse motivo, foi sequestrada por oito policiais armados que a ameaçaram para que não fosse ao tribunal – e decidiu abrir uma escola para reunir as crianças que sobreviveram à tragédia. Foi assim que surgiu o Projeto UERÊ, que, em 1998, se tornaria uma escola com portas e janelas na Favela da Maré.

O método UERÊ-MELLO foi reconhecida pela Unesco como um dos seis melhores do mundo para lidar com crianças em zonas de risco. “Mesmo crianças que vêm de situações violentissimas aprendem”, diz.

Eduardo Schenberg – A psicodelia a serviço da saúde mental

Em busca de tratamentos mais eficientes para transtornos mentais, Eduardo Schenberg, 39 anos, decidiu estudar os efeitos de drogas psicoativas, como ayahuasca e MDMA no cérebro humano. “O transtorno do estresse pós-traumático, a dependência química e a depressão, que hoje é a maior causa de ausência no trabalho no Brasil, com um impacto econômico e social gigantesco, são três das doenças que têm bastante potencial de tratamento pela psicoterapia assistida por psicodélicos”, explica.

Eduardo, mestre em psicobiologia e doutor em neurociências, percebeu o avanço das pesquisas com psicodélicos no exterior e decidiu criar, em 2011, o Instituto Plantando Consciência para desenvolver estudos com essa abordagem no Brasil. “Os psicodélicos são substâncias muito mal faladas, proibidas e com um histórico infeliz de mau uso. Mas, quando empregados terapeuticamente por profissionais bem treinados, que cumprem uma série de protocolos, fornecem resultados mais rápidos e eficazes do que os tratamentos psiquiátricos atuais.”

Schenberg defende que é possível fazer um uso seguro de drogas e que a proibição aumenta o perigo dessas substâncias quando afasta as pessoas de informações sobre a dose adequada e a qualidade do que estão consumindo. “A proibição impacta também na saúde mental de quem não usa drogas, porque todo mundo anda por aí com medo e a indústria da segurança está levando o Brasil para uma escalada armamentista”, acrescenta.

Simone Mozzilli – Do diagnóstico à ação

A paulistana já trabalhava como voluntária ajudando crianças em tratamento de câncer quando foi internada para remover o que seria, a princípio, um cisto no ovário, em 2011. Ela tinha 34 anos e, depois de 9 horas de cirurgia, ela acordou na UTI, onde recebeu o diagnóstico de que estava com câncer em fase avançada, com uma estimativa de sobrevida que não passava de 30%. Hoje, aos 41, está curada e ampliou a abrangência do trabalho que faz para melhorar a vida de crianças e adolescentes que passam pelo tratamento da doença. “Depois de receber o diagnóstico, fui procurar informação sobre minha doença em sites de hospitais, porque pensei que seria mais adequado. Mas sempre falavam que o meu tipo de câncer era um dos piores, davam o número de mortes. Eu fiquei ainda mais apavorada”, conta Simone, que percebeu que essa situação também afetava as crianças.

Assim, em 2013, criou a ONG Beaba, que tem como missão informar crianças e acompanhantes sobre uma série de termos médicos e procedimentos que muitos têm dificuldade de entender. A ideia é que se familiarizarem (e se tranquilizem) durante essa jornada.

As ações e materiais (como cartilha, aplicativo e game) desenvolvidos pela ONG já impactaram mais de 700 mil pessoas. Em 2018, Simone transformou a cartilha que desenvolveu em um game que já foi baixado por cerca de 15 mil pessoas. Por meio dele, a criança ou adolescente aprende brincando o significado de termos do mundo oncológico, como biópsia e hemograma. “É muito mais fácil quando a criança entende o que é a quimioterapia e porque ela está fazendo aquilo, ela se engaja muito mais no tratamento”, explica.

Conceição Evaristo – Reescrevendo o Brasil

Uma das principais escritoras contemporâneas do Brasil, Conceição Evaristo encontrou na literatura um caminho para promover a empatia. “Minha escrita é profundamente marcada pela minha posição de mulher negra na sociedade brasileira. Apesar dessa realidade muito específica, essa literatura tem a força de provocar brancos, negros, jovens, mulheres e homens. Isso me emociona muito”, diz. Aos 72 anos, a mineira, que hoje mora em Maricá, região metropolitana do Rio de Janeiro, já publicou mais de 10 livros e sua existência e trabalho são fundamentais para promover a temática negra e combater o racismo estrutural no Brasil. 

Na infância pobre em Belo Horizonte, ela descobriu o gosto pelas palavras: “Minha mãe, que não tinha nem o primário completo, inventava muitas histórias para a gente [ela e os nove irmãos]. Meu primeiro contato com a palavra foi por meio da oralidade”, conta. Ainda jovem, teve que conciliar os estudos com o trabalho como empregada doméstica, e, tempos depois, se tornou professora e doutora em literatura. 

Apesar de escrever desde a adolescência, foi só em 1990, aos 44 anos, que Conceição publicou seu primeiro livro, na série Cadernos Negros, editada pelo coletivo Quilombhoje. Em 2018, apareceu cotada para a Academia Brasileira de Letras, onde seria a primeira mulher negra, mas, apesar da intensa campanha popular, perdeu o lugar para Cacá Diegues. Em 2015, ganhou um prêmio Jabuti pelo livro de contos Olhos d’água (Pallas) e, em 2019, será homenageada como “personalidade literária do ano” durante a cerimônia de entrega do prêmio.

Tabata Amaral – Educar para sonhar

“Foi a educação que me permitiu sonhar com um futuro diferente. Por isso eu luto para que todos tenham acesso a uma escola pública de qualidade”, defende Tabata Amaral, que, aos 25 anos, exerce seu primeiro mandato como deputada federal. Filha de um cobrador de ônibus e de uma diarista, a paulistana é um dos nomes mais promissores na, tão sonhada, renovação da política brasileira. 

Sua história começa em uma ocupação na Vila Missionária, bairro da periferia de São Paulo, onde viveu boa parte da vida. Aluna dedicada, ela venceu diversas olimpíadas científicas e conquistou uma bolsa integral na renomada Universidade Harvard, nos Estados Unidos, onde se formou em Ciências Políticas e Astrofísica. 

Seu ativismo pela educação começou ainda no ensino médio. Em 2010, criou o Projeto VOA!, que prepara alunos de escolas públicas para participar de olimpíadas científicas por meio de aulas oferecidas por estudantes de colégios particulares. Em 2014, fundou o Mapa Educação, que fiscaliza políticas educacionais e realiza debates para tornar a educação uma prioridade na agenda nacional. 

Atualmente, sua luta acontece no congresso, onde vem se destacando pela maneira firme e corajosa com que defende o que acredita. Logo no início do mandato, foi destaque em todos os jornais pelo confrontamento com o então ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez. “Em um trimestre, não é possível que o senhor apresente um Powerpoint com três desejos para cada área da Educação. Cadê os projetos? Cadê as metas?”, questionou. 

Tabata também faz questão de usar sua voz para inspirar outros jovens. Quando eu converso com alunos de ensino médio, sempre digo que, depois que a gente alcança os nossos sonhos, temos que voltar para nossas comunidades para que todo mundo ao redor possa dizer: ‘Eu também posso sonhar’.”

Pedro Bial – Muito além do entretenimento

Por Carol Ito

Pedro Bial já foi correspondente internacional, diretor de documentários, jornalista de guerra e apresentador do reality show mais popular do país, o Big Brother Brasil. Sua diversa e bem sucedida carreira no jornalismo e no entretenimento fez dele um dos maiores comunicadores do país e o capacitou para a importante missão que desempenha agora: levar, para o maior canal aberto do Brasil, debates de altíssimo nível, sobre alguns dos mais importantes temas da atualidade.

Assuntos como racismo, homofobia, luto, ciência e religião, que até pouco tempo não eram discutidos com o devido cuidado na televisão, são tratados de forma acessível, inteligente e ponderada graças à sua condução. 

À frente do programa Conversa do Bial, no ar na Rede Globo há quase dois anos, ele tem promovido encontros entre pessoas dos mais diversos perfis – sejam elas ativistas, generais, pastores ou ateus – e levado informação de qualidade a inúmeras pessoas em um momento especialmente polarizado da nossa história. Com isso, vem ajudando a enfrentar o radicalismo e a tornar o Brasil um pouco mais inteligente. 

Rodrigo Mendes – Incluir para educar 

Por Carol Ito

Rodrigo Mendes ficou tetraplégico aos 18 anos, depois de levar um tiro no pescoço durante um assalto. O paulistano, que passou anos em tratamento, transformou uma situação de adversidade em uma alavanca, ao invés de uma âncora. Ele dedica sua vida para garantir que pessoas com deficiência tenham acesso à educação de qualidade, não só em escolas especiais, mas junto de todas as outras crianças, em qualquer escola, seja ela pública ou particular. 

Há 25 anos, ele fundou o Instituto Rodrigo Mendes, uma organização sem fins lucrativos que busca promover uma educação inclusiva, a partir da formação de professores, da mobilização de escolas e famílias e do acompanhamento de políticas públicas. Para ampliar seu propósito, ele criou, em 2012, o Portal Diversa, um acervo de boas práticas na educação, além de outros programas de formação de professores em todo o Brasil.

“Até pouco tempo, a única opção para pessoas com deficiência era a escola especial, que limita muito a interação da criança com o resto do mundo. Ela precisa ser desafiada para atingir o máximo de seu potencial”, explica Rodrigo, que também fala sobre a importância de conviver com a diversidade desde cedo. “A gente tá falando de uma mudança na escola que é melhor para todo mundo, que torna a pedagogia mais promissora para todos.”

Formado em administração de empresas com mestrado em gestão da diversidade humana (tudo na Fundação Getúlio Vargas), Rodrigo iniciou, em paralelo com a atuação no instituto, uma carreira em consultoria de empresas na gigante do setor, a Accenture, onde trabalhou em projetos em diferentes indústrias. Em 2008, foi nomeado como Young Global Leader do Fórum Econômico Mundial.

Dexter e Iberê Dias – Opostos complementares 

“Não tem cachê maior ou melhor do que ver a vida de alguém mudar bem ali na sua frente, por conta do seu trabalho. É foda”, diz Dexter. O rapper usa sua visibilidade para promover o projeto Trampo Justo, iniciativa do juiz Iberê Dias que se volta aos cerca de 8 mil jovens que vivem em casas de acolhimento no estado de São Paulo. O foco é criar pontes para o mercado profissional para quem, aos 18 anos, precisa encarar o mundo sozinho. 

Com trajetórias de vidas completamente diferentes, o juiz e o rapper que passou 13 anos de sua vida atrás das grades e está em liberdade há quase dez, mostram que a desigualdade de oportunidades é o que leva muitos jovens a ingressarem no mundo do crime.  

Para ajudar a mudar essa história, Dexter faz questão de usar a sua própria experiência como alerta. “Minha ideia é mostrar para essas pessoas que elas têm, sim, um potencial muito grande, que não precisam do crime para sobreviver. No fundo, a linha é uma só: salvar vidas. Trocar ideia para que, de alguma forma, elas se encontrem e passem a ter o que eu tenho, que é vontade de viver”, diz. A figura de alguém que saiba falar de igual para igual com esses jovens é fundamental para o sucesso do projeto. “Por mais que eu lide com adolescentes desse perfil, é inevitável que eles olhem para mim e digam: ‘Pô, é fácil você vir aqui me falar para trabalhar. É um homem branco, de classe média alta, que estudou em bons colégios… Você não faz ideia do que é ser pobre e negro na periferia’. E eles têm razão”, explica o juiz.

Walter Casagrande – O que a vida quer da gente é coragem  

Filho de um caminhoneiro e de uma dona de casa, Walter Casagrande nem chegou a concluir o segundo grau. Não teve tempo: aos 17 anos já era jogador de futebol profissional. Dois anos depois, aos 19, tornou-se o homem-gol do seu clube do coração, o Corinthians. Era o começo da década de 80, fase da mítica “democracia Corinthiana”, um movimento que defendia as eleições diretas em tempos de Ditadura Militar e, junto com o melhor amigo Sócrates, ele se transformou em um símbolo político e viveu seus melhores anos no futebol. 

Mas a vida guardava surpresas para Casagrande. Depois de encerrar sua bem sucedida carreira no esporte- e com a mesma força que teve para conquistar todos os seus sonhos – ele foi empurrado ladeira abaixo. A cerveja, a maconha, a cocaína e tudo o que ele sempre achou que dominava, aos poucos, o derrotaram. Quando deu por si, estava em uma clínica de reabilitação depois de passar dias em coma por causa de um acidente de carro. Casagrande perdia de goleada. 

O ex-jogador e comentarista passou por um longo e doloroso processo de reabilitação e reconquistou as rédeas de sua história. Hoje é das pouquíssimas personalidades que tem coragem de vir a público falar sobre o tema, ajudando a desconstruir o estereótipo que envolve a doença. 

Em 2013, lançou a biografia Casagrande e seus Demônios, escrita pelo jornalista Gilvan Ribeiro, em que revelou detalhes de sua luta. Em 2018, participou da série “Prisão química”, do Fantástico, na TV Globo, em que abriu o jogo sobre sua dependência em uma franca conversa com o médico Drauzio Varella. “O acolhimento tem que vir do Estado, para que, assim, as outras pessoas entendam que o que temos que dar para um dependente químico é acolhimento”, diz Casagrande, um sujeito gigante, de 1,91 metro de altura, força e coragem.

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