Única pública do gênero na cidade, Escola de Dança de SP faz 75 anos

Garotos e garotas começam a trocar suas jaquetas, bonés, calças jeans e tênis por collants pretos, meias-calças salmão (as meninas), calças de malha preta e collants brancos (os meninos). É hora do almoço e eles estão chegando de várias áreas da cidade à zona central, para aprenderem uma profissão: a dança. 
 
São os alunos dos ciclos intermediário e profissionalizante da Escola de Dança de São Paulo —o único centro de ensino de esse gênero público da cidade, que completa 75 anos de atividade em 2015 (veja apresentações comemorativas abaixo). 
 
Para chegar aos palcos, as crianças e os adolescentes passam de 15 a 20 horas por semana nas salas do quarto e quinto andar da Praça das Artes, complexo cultural inaugurado no fim de 2012 que abriga os grupos artísticos do Theatro Municipal e as escolas municipais de dança e música. 

A mudança da escola dos baixos do Anhangabaú para o novo edifício ocorreu logo após uma série de mudanças na estrutura da escola, desencadeadas pela entrada da nova diretoria, em 2011. A mais simbólica foi a mudança de nome. O centro de ensino chamava-se, desde sua fundação, em 1940, Escola Municipal de Bailado. “No século 21, não existe ‘bailado’. É outro entendimento do balé”, diz Susana Yamauchi, hoje diretora da escola em que, nos anos 60, foi aluna. 
 
Susana Yamauchi, diretora da Escola de Dança de São Paulo; na década de 1960, ela estudou na instituição. Foto: Pedro Saad / Folhapress.

O balé continua eixo importante da formação, mas no novo currículo, que veio com a mudança do nome e regimento, a técnica clássica está mais integrada a outras disciplinas, como composição, dança moderna e contemporânea ou consciência corporal.

“É uma escola profissionalizante, não para domesticar o aluno a subir a perna ou fazer ‘fouettés’ [giros com a perna no ar]. Temos responsabilidade com essas crianças que vêm de longe, passam muitas horas aqui, precisamos oferecer um leque que contemple as diversas formas de expressão na dança”, diz Susana.

Isso não quer dizer que as diferentes formas de dançar nunca estiveram presentes nas sete décadas de história da escola. Mas nunca tiveram tanta força nem estiveram tão integradas como agora. “As outras técnicas só entravam nos últimos anos e orbitavam em torno do balé”, afirma a diretora. 

As mudanças não agradaram a todos. No início da gestão, chegaram a dizer que a atual diretoria era “do contemporâneo” e, por isso, iria” “matar o balé”. 

Ninguém morreu. As aulas de balé continuam, com pianista tocando ao vivo, em salas com pisos de linóleo (tecido impermeável untado com óleo de linhaça) como os usados em espetáculos profissionais —luxos raros nas academias particulares. 
“Tem balé, mas tem o resto, o aluno tem que comer do prato todo. Ser bailarino é assim mesmo, muito difícil, ainda mais no Brasil”, diz Susana.
 
 
Aula na Escola de Dança de São Paulo, na Praça das Artes, no centro paulistano. Foto: Pedro Saad / Folhapress.
 

Quero ser Pavlova 

A Escola de Bailado foi fundada na primeira gestão de Prestes Maia (1896-1965), que foi nomeado prefeito em 1938, por Adhemar de Barros.

Era a época em que os antigos barões do café e a nova burguesia se encantavam com a cena cultural “europeia” da cidade: óperas, música clássica, balés de repertório.

O Theatro Municipal, inaugurado em 1911, já recebia grandes nomes da dança mundial: Anna Pavlova, Isadora Duncan, Nijinsky.

As filhas da alta burguesia também sonhavam se apresentar de sapatilhas de ponta e tutus nesse palco, e as companhias de ópera precisavam de elenco para seu corpo de baile.

Junte-se a esse caldo os bailarinos internacionais que se mudavam de uma Europa entre guerras para as Américas, e estava pronto para sair do forno uma escola de dança pública com todos os requintes de uma escola de elite. A começar por seus diretores e professores. Os primeiros foram o tcheco Vaslav Veltchek (1897-19670) e a russa Maria Olenewa.

“Na época, a escola do Theatro Municipal era o lugar onde toda jovem bem-nascida gostaria de estar”, afirma Susana.

Os alunos aprendiam clássico de repertório e formavam o corpo de baile do Theatro -o Balé da Cidade de São Paulo só seria criado em 1968, então com o nome de Corpo de Baile Municipal e com uma estrutura independente da Escola de Bailado. 

A agitação política e cultural que incendiou a dança paulistana na década de 1970 bateu às portas da escola no início dos anos 1980, quando diretores como Ady Addor e Klaus Vianna (1928-92) tentaram implantar inovações didáticas e artísticas na instituição.
 
Mas foi só no início da década de 1990 que o então diretor Acácio Vallim Jr. conseguiu mudar o regimento da escola e incorporar elementos da dança contemporânea à grade curricular. 

Addor e Vianna sofreram resistência tanto dos administradores públicos quanto de professores e pais dos alunos -muitos tinham (e ainda têm, segundo Susana) uma visão romântica da dança, e esperavam da escola uma formação estritamente clássica. 
 
O clima político também não ajudava. Klauss Vianna, por exemplo, foi muito criticado por criar um curso noturno de balé só para homens —algo raro até hoje— em sua breve passagem como diretor da escola, entre 1981 e 82. 

O curso acabou sendo fechado em 1987 pelo então prefeito Jânio Quadros, que proibiu a entrada de homossexuais na escola. Por criticar a medida do prefeito, o bailarino e ex-diretor da escola foi agredido em frente à sua casa. 

Hoje, as aulas de balé só para homens estão nas grades dos cursos livres, oferecidos à comunidade. São 25 modalidades, algumas para crianças —visando, inclusive, às que não passaram no processo de seleção para novos alunos. 
 
 
Aluno da Escola de Dança de São Paulo, Lincon Sampaio do Nascimento, 16, faz cover de Michael Jackson. Foto: Pedro Saad / Folhapress.
 
Há também vários cursos para adultos, que vão do balé ao pilates. Para participar, são abertas inscrições a cada ano e as vagas (entre 20 e 30 para cada curso) são definidas por sorteio público. No último ano, 740 pessoas frequentaram os cursos livres da escola. 
 
Para entrar no curso profissionalizante, que tem hoje cerca de 400 alunos, o caminho é mais árduo. A cada ano, são abertas vagas para novos alunos e os candidatos são selecionados em audições —as próximas serão em dezembro, para o ano letivo de 2016. 
 
Nesta seleção, 875 candidatos concorrem às quase 80 vagas, a maioria delas para o primeiro ano do ciclo fundamental, em que a média é sete candidatos por vaga. Já para os adolescentes entre 13 e 15 anos que querem entrar no quarto ano da escola, a média é 25 candidatos por vaga. 
 
Theatro Municipal de São Paulo.
Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, República, região central, tel. 3053-2100. 
Atelier Balé Jovem, sáb. (28): 20h, dom. (29): 18h. 
Centro Cultural São Paulo.
Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso, região sul, tel. 3397-4002. 
Semana de Dança: Atelier Balé Jovem, ter. (24) e qua. (25): 21h.

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Iara Biderman, colaboração para a Folha.

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