Jean Renoir, amigo dos homens

Essa definição arguta (e talvez um tanto injusta com Hitchcock) ajuda a entender o encanto perene do cinema de Jean Renoir (1894-1979) e, ao mesmo tempo, destaca aquilo que perpassa e unifica sua vasta filmografia: o infinito interesse pelos indivíduos concretos, imperfeitos, contraditórios, mais do que pelas ideias abstratas, enredos dramáticos ou grandes construções estéticas.

Essa obra única e essencial está quase completa na grande retrospectiva A vida lá fora: o cinema de Jean Renoir, em cartaz até 27 de fevereiro no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. A partir de 15 de fevereiro, a mostra segue também para Brasília, e de 1º a 27 de março estará no Rio de Janeiro. São nada menos que trinta longas-metragens do diretor, além de dois documentários a seu respeito. 

Fase áurea

Do cinema mudo ao início dos anos 1960, Renoir atravessou diversas fases, incluindo o exílio em Hollywood durante a Segunda Guerra e a volta à Europa a partir de 1950. Ao longo desse tempo todo, não fez um único filme ruim, fraco ou desinteressante, mas seu apogeu, sem a menor dúvida, deu-se na década de 1930, em que, como quem não quer nada, encadeou filmes memoráveis como A cadela, Boudu salvo das águas, Madame Bovary, Toni, Bas-fond, A Marselhesa, A besta humana, sem falar dos pontos culminantes que são A grande ilusão (1937) e A regra do jogo (1939), frequentemente citados nas listas de melhores de todos os tempos.

O que chama a atenção nessa fase luminosa é a sem-cerimônia com que Renoir aborda seus temas, bem como o calor humano com que se aproxima de seus personagens. Seja tratando de um grande assunto histórico, como a Revolução Francesa (em A Marselhesa), seja retratando as peripécias cotidianas de um sem-teto (em Boudu), seu olhar está sempre voltado para o detalhe terreno, fugaz, por vezes banal, que no entanto revela muito das contradições sociais e da moral embutida em cada gesto ou palavra.

Um exemplo singelo: em A Marselhesa, uma conversa descontraída sobre a recente introdução da batata na dieta urbana francesa é tão importante quanto o combate contra as forças monarquistas que tentavam barrar a Revolução. A ausência de grandiloquência e solenidade de sua poética e de seu lirismo permite que Renoir, no espaço de um ano, empreenda com a mesma desenvoltura a adaptação de um romance clássico (Madame Bovary, 1934) e uma crônica realista dos amores e percalços de trabalhadores rurais e imigrantes pobres no sul da França, em Toni (1935), tido como precursor do neorrealismo italiano que surgiria dez anos depois.

Se em A grande ilusão, ambientado na Primeira Guerra (da qual Renoir participou como aviador), realçam-se os laços horizontais de classe e extração social que atravessam as fronteiras nacionais, em A regra do jogo todo o teatro da sociedade se concentra num único fim de semana numa casa de campo em que um grupo de aristocratas e burgueses se reúne para caçar, festejar, flertar, sob os olhos de uma criadagem vívida e heterogênea. A fluidez das múltiplas ações simultâneas dá uma impressão de espontaneidade e improviso que levou Truffaut a dizer que tinha vontade de voltar ao cinema todas as noites para verificar se as coisas aconteceriam do mesmo jeito ou seriam diferentes.

Jean Renoir e Marcel Dalio nas filmagens de ‘A Regra do Jogo‘ (1939). Foto: Lévin Sam.Frescor Inimitável

Uma prova indireta da vitalidade intransferível de Renoir são os remakes de suas obras por outros diretores. Mesmo quando são ótimas realizações de cineastas extraordinários, como Fritz Lang (que refilmou A cadela como Almas perversas e A besta humana como Desejo Humano ) ou Robert Altman (que transformou A regra do jogo em Assassinato em Gosford Park), estamos longe do frescor do original.

O próprio Renoir, ao emigrar para Hollywood nos anos 1940, ganhou em rigor e precisão, mas perdeu um tanto da sua leveza. Retomou seu brilho ao voltar à Europa, realizando dois filmes maduros e exuberantes que sintetizam sua paixão pelo espetáculo, em sua vertente mais popular: A carruagem de ouro (1952) e French can can (1955).

Filho de um dos grandes artistas do século XIX (o pintor impressionista Auguste Renoir), Jean Renoir foi sem dúvida um dos maiores do século XX. Buscava com sua arte “expressar a humanidade comum a todos os homens”, como lembrou Ingmar Bergman ao receber em seu nome um Oscar honorário em 1975. É isso, nada mais nada menos, que esses trinta filmes têm a nos mostrar.

Aqui, em francês com legendas em inglês, o cineasta fala sobre sua arte, com o despojamento e a paixão que o caracterizam.

Serviço

Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo.
Rua Álvares Penteado, 112 – Centro / São Paulo.
Telefone (11) 3113-3651.
Funcionamento: de quarta a segunda, das 9h às 21h.

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José Geraldo Couto é jornalista, crítico de cinema e tradutor. Artigo publicado originarialmente no Blog do IMS.

 

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