Mulheres usam lambe-lambes para combater e denunciar abusos em São Paulo

 

Até o fim do ano passado, Aline Fidalgo, 35, e Mari Vieira, 40, nem imaginavam a existência uma da outra. Foi só quando explodiu a campanha #MeuAmigoSecreto – usada nas redes sociais para denunciar casos de machismo – , que as duas descobriram ter um relacionamento com o mesmo homem, que se comportava de maneira abusiva. Depois de um encontro para conversar, elas decidiram ir às ruas e espalhar mensagens para ajudar outras mulheres que passaram por situações parecidas.

“Encontramos uma rede de mulheres sofrendo na mão desse cara e, desde o começo, surgiu a vontade de fazer alguma coisa que não fosse uma vingança pessoal”, conta Mari. “Nós precisávamos atingir outras mulheres, precisávamos de uma ação pública”, diz Aline, que também toca o projeto JapoNega. Em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, elas saíram, pela primeira vez, para colar pequenos cartazes, os chamados lambe-lambes, com frases como “não seja boazinha, grite” e “o ônibus é público, meu corpo não”.

O projeto encontra ecos em diversos pontos da cidade: nos últimos meses, vários projetos feministas de mesmo formato começaram a pipocar, animando outras mulheres a espalhar seus cartazes. Em parte, esse “boom” de lambes se deve à oficina Se Essa Rua Fosse Nossa, organizada pela escritora Ryane Leão, 27, do projeto Onde Jazz Meu Coração, e pela estudante de arquitetura Lela Brandão, 22, do Frida Feminista.

“Quando criei o Frida Feminista, estava muito envolvida com as questões do feminismo depois do término de um relacionamento e percebi que, se alguém tivesse me dito aquelas coisas antes, teria sido mais fácil”, conta Lela, que já acompanhava o Onde Jazz Meu Coração pela rede Instagram —ao lado de cerca de 50 mil seguidores. Foi por ali que Lela entrou em contato com Ryane convidando-a para colar lambes juntas pelas ruas da capital.

“Nós duas tínhamos a ideia de criar uma oficina, porque sentíamos necessidade de colocar outras mulheres com a gente para falar por meio dos muros”, diz a escritora.

Em janeiro, elas realizaram o primeiro encontro, no apartamento de Ryane. Dali, nasceram pelo menos dois novos projetos, o Encontrarte, de Mari e Aline, e o Manifesto das Minas, de Bianca Maciel, 21. Em abril, nove mulheres, de perfis variados e idades entre 18 e 35 anos, participaram do segundo encontro, acompanhado pela sãopaulo.

Sentadas em cangas no chão e ao som de rappers como Karol Conka e Tássia Reis, negras, brancas, solteiras, casadas, brasileiras ou não (havia uma portuguesa e outra nascida nos Estados Unidos) se reuniram entre papéis, canetas e dois gatos curiosos para falar de feminismo e aprender a fazer os lambe-lambes.

“Eu até me arrisquei com alguns versos autorais. Mas a dúvida agora é como eu devo assinar o meu nome no lambe”, disse uma das participantes.

Ryane conta que já teve seu nome riscado várias vezes. “Imagino que seja a expressão da revolta de alguém com o meu trabalho. Mas eu não ligo. Escrevo de novo, e vou escrever quantas vezes for necessário”.

Já havia anoitecido quando elas saíram do apartamento na rua Vergueiro em direção à avenida Paulista para colar os cartazes. Curiosas, as pessoas paravam para perguntar sobre a atividade ou sacavam o celular para fotografar —uma menina que não fazia parte da oficina resolveu participar, colando alguns lambes antes de seguir o seu caminho.

‘Isso vai dar lambe’

Para as artistas, tudo pode ser inspiração para um lambe —as conversas com amigas, trechos de letras de músicas, pequenas situações do cotidiano. “A rua me inspira muito. No ônibus, eu sempre fico atenta”, diz Bianca, do Manifesto das Minas.

O desafio, é sintetizar em poucas palavras temas espinhosos. “O lambe tem que ser curto, não é um livro. O negócio é chegar na frase [certa]”, afirma Mari.

Clotilde Perez, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), doutora em semiótica e fundadora da Casa Semio, diz que o lambe possui um apelo publicitário. “E isso sem nenhum demérito. É uma linguagem de síntese e de impacto.”

“O lambe resgata dimensões de artesanato – está revestido pelo trabalho de uma pessoa -, de economia – é de baixo custo – e de autoria. Em um contexto de crise, é um grito estético onde a ética está abalada”, afirma a professora.

Rua democrática

Sim, o baixo custo e a facilidade de produção ajudaram a popularizar o formato. “É simples e barato: você pega um papel, escreve com algo que não saia fácil e cola”, resume Laura Guimarães, 38, que criou o Microrroteiros da Cidade, em 2010.

Nas oficinas, Lela e Ryane oferecem papel, lápis e caneta, e ensinam a preparar uma cola feita apenas com água e farinha de trigo. A colagem também tem suas “manhas”: é preciso passar a mistura antes para depois colocar o papel, além de prestar atenção nas pontinhas.

Não foi só a possibilidade de fazer um projeto de baixo custo que fez Mari e Aline optarem pelo lambe – a própria relação com a rua era um atrativo. “Quando colamos um lambe, nunca sabemos quem vai ver, pode ser a patroa milionária ou a empregada doméstica. A rua é um espaço democrático, que fala com todo mundo”, diz Mari.

Segundo a prefeitura, não há uma legislação específica para a fixação de lambe-lambes, tratados pela Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU) como o grafite e outras modalidades de arte pública. A atividade é considerada permitida legalmente, mediante autorização do proprietário do imóvel ou suporte e da CPPU – se não houver, pode ser considerada crime ambiental.

Para Luíse Bello, gerente de conteúdo e comunidade da ONG Think Olga, estamos vivendo um momento de popularização do feminismo.

“A internet e as campanhas [MeuPrimeiroAssédio, MeuAmigoSecreto e AgoraÉQueSãoElas] desses últimos três anos ajudaram o feminismo a chegar mais perto da realidade das mulheres, que se sentem mais representadas e mais confortáveis para sair às ruas.”

Nas universidades e escolas de ensino médio, o feminismo também se tornou tema recorrente. Em São Paulo, meninas a partir de 14 anos se organizaram para criar coletivos em escolas de ensino médio públicas e privadas – na capital, são pelo menos oito. Na USP, alunas da Poli e da Faculdade de Psicologia lançaram campanhas com as hashtags #MeuQueridoPolitécnico e #EleVaiSerPsicológo, respectivamente, para denunciar comportamentos machistas de colegas e professores.

Na Faculdade de Medicina, a frente feminista conseguiu alterar os moldes da tradicional festa Fantasias no Bosque – marcada por relatos de abusos e estupros -, que, agora, volta com novo nome (A Primeira) e medidas para garantir a segurança, principalmente das mulheres.

Lela, que estuda no Mackenzie, ajudou a organizar uma campanha com o uso de lambe-lambes contra o machismo de professores. Ela e outras mulheres do coletivo feminista Zaha, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e da Faculdade de Design, colaram centenas de lambes com frases ditas por professores, como: “Seu trabalho está ruim, você podia pelo menos ter vindo com uma saia mais curta”.

Em resposta a três assédios e tentativas de estupros em ruas próximas ao campus Monte Alegre da Pontifícia Universidade Católica, no fim de abril e no começo deste mês, várias estudantes se juntaram para espalhar cartazes com os dizeres: “Atenção, fui assediada aqui – Em caso de agressão, abuso e assédio, ligue 180” – número da Central de Atendimento a Mulher -, alertando outras mulheres que frequentam as ruas da região.

Também foi criado um grupo no aplicativo de mensagens Whatsapp para que elas se organizem em pequenos grupos e evitem andar sozinhas pelas proximidades do campus, principalmente à noite, quando há menos gente na rua.

Ryane, que cola lambes há quatro anos, vê, de 2012 para cá, uma mudança de comportamento provocada pelas redes sociais. Para ela, as mulheres estariam com mais coragem de falar e expor seus trabalhos. “São mulheres fortalecidas e dispostas a colocar a cara para fora, independentemente da crítica e do que vier por cima.”

Aline acha “positivo” o aumento na quantidade de mulheres que criam e colam lambes. “Tem muita mulher querendo dizer, não importa quem ouça, e o lambe é uma ferramenta imediata, que pode trazer empoderamento”.

Mari concorda e explica o jargão feminista: “Empoderar é ensinar a mudar e o lambe dá voz a isso.”Raquel (que prefere se identificar como Rack) era uma das nove mulheres que se juntaram naquela tarde de oficina. Nesta semana, ela saiu para colar lambes de sua autoria (História de Fogo) no centro. Mais uma mina no papel.

***
Por Isabel Seta e Victoria Azevedo na Folha de S.Paulo.

Tags

Compartilhe:

Share on facebook
Share on twitter
Share on pinterest
Share on linkedin
Share on email
No data was found

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Categorias

Cadastre-se e receba nossa newsletter com notícias sobre o mundo das cidades e as cidades do mundo.

O São Paulo São é uma plataforma multimídia dedicada a promover a conexão dos moradores de São Paulo com a cidade, e estimular o envolvimento e a ação dos cidadãos com as questões urbanas que impactam o dia a dia de todos.