As cidades no fim do mundo

Cada crise é uma grande oportunidade de reflexão, questionamento e redefinição de paradigmas. A “greve dos caminhoneiros” por sua vez oferece lições fundamentais sobre a vulnerabilidade das nossas cidades e, numa escala maior, sobre a obsolescência dos sistemas construídos sobre paradigmas mecânicos e antropocêntricos.

O Brasil é o país que tem a maior concentração rodoviária de transporte de cargas e passageiros entre as principais economias mundiais e de acordo com a Confederação Nacional do Transporte (CNT), hoje, 90% dos passageiros e 60% da carga que se deslocam pelo país são movimentados em rodovias.

Nas melhores (ou piores) hipóteses sobre os prognósticos do Câmbio Climático, e sobre o esgotamento dos combustíveis fósseis, o acontecimento da paralisação da distribuição de produtos, serviços e recursos da semana passada – e eventualmente da próxima – é uma pequena janela do espaço-tempo para podermos enxergar a total fragilidade do mundo e de todas as certezas e estabilidade que o “mercado global” e os “governos” nos garantem.

A ineficiência de antecipar e administrar uma crise logística (em fundamentos energéticos) se deve à obsolescência do sistema mecanicista de pensamento e da dependência do combustível fóssil sobre a qual construímos o nosso mundo. É o fim desse mundo físico e mental que se manifesta em todas as dimensões globais de organização dos humanos nas realidades inter-subjetivas construídas até aqui.

Para a espécie humana permanecer nesse planeta, os nossos paradigmas de organização, logística, consciente coletivo e relacionamentos devem se redefinir sobre paradigmas orgânicos e não mecânicos.

A imagem atual nas ruas de um pequeno “fim do mundo”, digno de um belo episódio do Black Mirror, nos conecta diretamente com a essência de uma escala macro que todos sentimos na pele, mas não queremos falar ou não sabemos como falar.

Num planeta em constante transformação (acelerada pela percepção analítica e fenomenológica do Câmbio Climático), as cidades e os próprios metabolismos precisam evoluir em sistemas resilientes de paradigmas orgânicos. 

Por que uma floresta sobrevive por milhares de anos, apesar de incêndios, secas, predadores, patógenos? Simplesmente por não ser centralizada e seguir uma rede distribuída, compartilhada e adaptável, antecipando – através de fluxos descentralizados de energia – materiais e comunicação. Florestas se regeneram, reciclam seus resíduos, têm sistemas otimizados de distribuição de água e de compartilhamento do território, agenciam a convivência entre orgânico e inorgânico.

Se imaginarmos uma situação improvável de um organismo específico (e especializado) numa floresta decidir “fazer greve”, o que aconteceria? O ecossistema todo se adaptaria, reorganizaria e responderia às necessidades como um todo, de forma auto-organizacional, pois é interesse de todos os organismos num ecossistema sobreviver e, para sobreviver, mutualismo é uma das fórmulas mágicas que a natureza aplica. A natureza é cooperativa e a cidade do futuro (se queremos ter alguma sobrevivendo) será uma cidade resiliente e adaptável a mudanças.

A natureza é a nossa tecnologia do futuro onde encontramos soluções sistemáticas altamente desenvolvidas e inteligentes. A arquitetura e consequentemente as cidades devem procurar na resiliência o seu sentido de existir juntando propósito com essência. 

Segundo Michael Mehaffy e Nikolas A. Salingaros podemos extrair quatro aprendizados de sistema naturais, para serem aplicadas ao desenho das nossa futuras arquiteturas e cidades:

  • Elas terão redes interconectadas de caminhos e relações;
  • Não serão segregadas em categorias fechadas de uso, tipo e percursos de conexões que deixariam elas vulneráveis a falhas;
  • Buscarão diversidade e redundância de atividades, tipos, objetivos e população;
  • Possuirão uma grande distribuição de escalas e estruturas, do planejamento em escala regional até o detalhe mais fino.

Combinando os pontos (1) e (2), estas estruturas são diversificadas, interconectadas e podem ser alteradas com facilidade localmente. Elas se adaptam e se organizam como respostas à necessidade de mudanças ou diferentes escalas espaciais e temporais. Elas podem se “auto-organizar”.

Os efeitos das mudanças climáticas serão locais e globais. O nível de fluxo energético acumulado no sistema, vai igualmente criar comportamentos emergentes nas economias locais e internacionais a nível global. A nova organização social e consequentemente do modo de viver (o mundo) vai emergir como evolução da nossa capacidade de antecipação e adaptação orgânica.

Todos os sistema do mundo tendem a evoluir até chegar ao limite crítico, após do qual colapsam e se reorganizam em sistemas mais simples ou até mais complexos dependendo do fluxo de energia do sistema em questão. O nosso mundo está no horizonte do colapso e com todos os câmbios sistemáticos, na natureza e na nossa civilização, novas formas de viver vão emergir.

Adaptação neste sentido é, e sempre foi, a estratégia mais importante de sobrevivência do ser humano. Lembrando que por volta de 190.000 anos atrás, após grandes inundações, a população foi reduzida a poucos milhares de indivíduos. E a recuperação foi possível devido a grande criatividade de soluções diversificadas. O planeta está mudando, e sempre mudou, o que permitiu a vida e a diversificação de espécies. Igualmente, nesse novo cenário que vivenciamos, o desafio será a nossa capacidade de antecipação e adaptação, capacidades que deveremos alinhar com a inteligência e evolução da consciência da natureza.

***
Marko Brajovic, naturalizado brasileiro, nasceu em Podgorica, Montenegro. É graduado em Arquitetura pela Universidade de Arquitetura de Veneza, Mestre em Arquitetura Genética pela UIC de Barcelona e Doutorando em Arquitetura Genética na ESARQ–UIC de Barcelona. *Artigo publicado originalmente no Arch Daily.

 

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