Em Florianópolis, jovem estudante de moda cria loja para moradores de rua

O objetivo era comprovar que possuir roupas adequadas estimula a autoestima de qualquer indivíduo, mesmo daqueles que vivem em extrema vulnerabilidade, quebrando assim, o estigma de futilidade que o curso carrega.

 

Jaqueline também morou na rua. Sua mãe biológica teve gêmeas. Prometeu as filhas para uma conhecida, Marlene Torres Soares. Mas, na hora de entregá-las, deixou apenas que a irmã de Jaqueline partisse. Elas tinham dois dias de vida na separação. “Foi duro para mim, eu esperava as duas, fiz enxoval”, conta Marlene.

Num passeio, o marido de Marlene encontrou Jaqueline pedindo esmolas com um grupo de moradores de rua. A mãe biológica tinha desaparecido. Ele denunciou a situação e conseguiu a guarda da menina na Justiça. Ela tinha 1 ano e meio.

“Esse trabalho fez com que eu reencontrasse a minha história. Se meus pais não tivessem me adotado eu cresceria na rua”, disse Jaqueline.

A estudante Jaqueline Soares Lopes foi moradora de rua quando era criança. Foto: Aline Torres / UOL. 

Essa trajetória inspirou mais de trinta estudantes, de diversos cursos, a colaborarem com o projeto. Foram selecionadas 2.691 peças de roupas e sapatos.

Todo o vestuário foi lavado e costurado. As alunas de design de interiores criaram araras com bambus, caixas madeiras, pneus e canos de PVC. Todo material foi separado por tamanhos e categorias. Voluntárias auxiliaram os clientes da loja durante seis horas.

Notas de brincadeira

Para cada morador de rua foi entregue uma nota de brincadeira de R$ 50. Com esse dinheiro eles tinham a liberdade de escolheram as peças conforme seus gostos.

“Eu não queria transformá-los em depósitos de roupas velhas. A ideia foi criar uma experiência de compra. Cada pessoa selecionou peças de acordo com sua identidade e necessidade, não levaram apenas porque era de graça”, disse Jaqueline.

Ao todo, 300 pessoas foram beneficiadas. Rita de Cássia Souza, 37 anos, levou roupas para os cinco filhos. Ela mora com as crianças há seis anos nas ruas de Florianópolis, desde que se separou do marido que as espancava. Vende balas de goma e paçoca. Nunca tinha comprado vestes para eles.

“Eu me acabei, menina. Peguei roupas para o frio, para o calor, um monte de blusinhas. Tem até pijaminhas e pantufas, acredita?”, disse Rita, feliz da vida.

Depois das compras, Marlene, a mãe adotiva de Jaqueline, oferecia sanduíches e sucos.

Mais da metade da população de rua

Outro apoio importante foi do CentroPop (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua), que avisou sobre o brechó. A estimativa é que Jaqueline tenha atendido 60% da população que vive nas ruas da capital.

“A moda pode ser usada com sustentabilidade. Você abre mão do que não deseja e beneficia alguém. Essas pessoas são tão humildes e tão gratas. Faz tempo que não vejo tanta felicidade. Para gente é banal consumir. Para eles é inclusão”, disse Jaqueline.

Muitas mulheres fizeram questão de desfilar com as roupas novas, outras puxaram funk. Teve dança. A satisfação das estudantes foi tanta que elas pretendem se unir a Jaqueline para consolidar o projeto fora da universidade. A coordenadora do curso, Vanessa Koppe, também não disfarçou o orgulho. “Dar vida a um projeto de conclusão de curso que ultrapassa os muros da faculdade é gratificante”, disse.

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Aline Torres. Colaboração para o UOL, em Florianópolis.
 

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