Liberdade, igualdade, fraternidade

As cenas que vi ficarão eternamente na minha memória: em Edimburgo, em plena Royal Mile junto à George IV Bridge (o ponto mais representativo da cidade), milhares de pessoas favoráveis ao ‘sim’ (vestidas e maquiadas de azul e branco) brincavam e se divertiam com centenas de pessoas favoráveis ao ‘não’ (vestidas e maquiadas de azul e vermelho). Nas ruas lotadas, cidadãos com visões opostas sobre uma mesma questão bebiam, cantavam, dançavam, se abraçavam – o clima era de festa e confraternização.

Percebi o privilégio de presenciar um momento único na História, mágico e sublime: a comunhão entre pessoas que, cientes de suas diferenças, se percebiam como iguais. Não havia espaço para hostilidade, julgamentos ou imposições: havia um entendimento subliminar de que, embora acreditando em caminhos diferentes, a busca pelo melhor para seu país era o sentimento maior, que unia a todos. E isso é algo que ninguém me contou, ninguém me mostrou – eu vi, senti e vivi.

Enquanto os jornais locais e a impresa mundial falavam sobre “um país dividido” (as pesquisas indicavam empate técnico, com leve tendência pelo ‘sim’), o que eu via nas ruas eram pessoas que se apropriavam das diferenças para se aproximar, não para se distanciar. Na televisão, todas as entrevistas (em estúdio ou externas, com políticos, personalidades ou com pessoas comuns) tinham a mesma estrutura: lado a lado, eram entrevistados representantes de cada uma das vertentes de pensamento. Sempre – sempre – a relação entre os diferentes era de cordialidade, simpatia (!!!) e respeito.

“Blue, white and red” • ©Signal Brands / Signal Products.

Logo após a divulgação do resultado do plebiscito – em que a Escócia rejeitou a independência, depois de dois anos de campanha – a postura dos que foram vencidos em sua opinião me deixou ainda mais estarrecida: todos que vi/ouvi, sem exceção, se colocavam à disposição do país. Em pronunciamento, o então líder do Executivo escocês, Alex Salmond, que havia liderado a campanha pela independência, pediu a união dos escoceses e anunciou sua renúncia: “Ficou claro que minha opinião não é a da maioria; portanto, como cidadão, meu papel agora é trabalhar para que o desejo da maioria se reafirme como forma de construir o melhor futuro para todos.” Por sua vez, David Cameron, então primeiro-ministro do Reino Unido e contrário à independência, agradeceu pela confiança da população e afirmou que cumpriria a promessa de dar mais poderes ao Parlamento Escocês. De ambos os lados, uma lição de respeito à população, de entendimento e aceitação das diferenças, e de senso de dever público.

Voltei ao Brasil logo em seguida, em meio a uma eleição de dimensões equivalentes à desse plebiscito, e logo fui tomada sentimentos opostos aos que tinha experimentado na Escócia. Atordoada entre discussões selvagens e debates vazios, sentia tristeza e vergonha por nossa imaturidade política, nossa infantilidade emocional e nossa distorcida noção do que seja a vida em comunidade. E não falo apenas de políticos – falo de toda sociedade, visivelmente incapaz de respeitar e acolher diferenças sem estigmatizar ou hierarquizar.

Penso na urgência de deixarmos a dimensão da raiva, que nos opõe, e nos encontrarmos na dimensão da dor, que nos une. Foto: The Telegraph.

Hoje, quatro anos depois, experimento com gosto ainda mais amargo a mesma tristeza e a mesma vergonha. Potencializada pela amplitude das redes sociais e pela maldade das fake news, a discussão política invade nossa sociedade em todas as suas instâncias, de maneira agressiva e hostil. Leio textos virulentos, ouço relatos de ataques a estranhos, confrontos em espaços públicos, brigas familiares. Dedos em riste, mentes fechadas e corações empedrados.

Penso na urgência de deixarmos a dimensão da raiva, que nos opõe, e nos encontrarmos na dimensão da dor, que nos une. Ou na dimensão do sonho, que nos faz avançar, ou na dimensão da empatia, que nos aproxima. Mas fico ainda mais triste, pois vejo o longo caminho que temos pela frente.

P.S. Escrevendo este texto, me dei conta de que as cores presentes nas ruas de Edimburgo àquela época eram azul (Liberdade), branco (Igualdade) e vermelho (Fraternidade). Tudo de que todos precisamos, por toda vida.

***
Valéria Midena, arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção, escreve quinzenalmente no São Paulo São. Ela é autora e editora do site SobreTodasAsCoisas, produtora de conteúdo e redatora colaboradora do MaturityNow.

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