Cisnes em São Paulo!

Dançar a parte de Odette, o belo cisne branco ou Odile, sua sósia maligna, ou dançar as duas partes opostas na mesma apresentação, é o sonho de toda bailarina. Apenas a esperança de, em algum dia, vestir um tutu branco do bando de cisnes atrai milhares de jovens para sua primeira aula de balé.

Nesta temporada, os paulistas foram brindados com dois ‘Lagos dos Cisnes’ que não poderiam ser mais diferentes. No último fim de semana de férias, o Balé Teatro Guaíra, uma ambiciosa companhia paranaense, lotou o Teatro Alfa para duas apresentações de uma radical modernização da obra clássica de Marius Petipa, recriada e coreografada por Luiz Fernando Bongiovanni. E de hoje até 2 de dezembro no Teatro Sérgio Cardoso, a São Paulo Companhia de Dança realiza uma versão completa do original, coreografada por Mario Galizzi.

O desafio de mostrar um clássico como ‘O Lago dos Cisnes’, apresentado pela primeira vez no Teatro Bolshoi em Moscou em 1877, é que ele é sobrecarregado de tanta tradição e é tão empolgante, que cada releitura deve preservar a sensação do original, mas ser adaptada à companhia que irá realizá-lo. Esse é o desafio de Inês Bogéa, diretora artística da São Paulo Companhia de Dança, que marca, nesta temporada, o décimo aniversário da companhia.

Nesta temporada, os paulistas foram tratados com dois 'Lagos dos Cisnes' que não poderiam ter sido mais diferentes. Foto: Fernanda Kirmayr.

Determinar um trabalho “clássico” seria mais fácil com outras formas de arte do que com o balé. Uma escultura de uma dançarina de Degas está congelada no tempo. Os aficionados podem argumentar incessantemente se a escultura é realmente “clássica” ou não, algo para discutir entre infinitas taças de vinho. Mas a obra de arte em si será sempre a mesma.

Mesmo quando realizada com as melhores intenções de reproduzir o trabalho original, não há duas apresentações de dança ao vivo que sejam as mesmas. Como elas poderiam ser? Os bailarinos, o humor, o ritmo da música mudam, ainda que levemente, de um noite para outra. E depois de um século, quem vai estar por perto para lembrar “o original”?

A SPCD nunca pareceu melhor. Mario Galizzi aprimorou a história às vezes complicada do amor do príncipe Siegfried pela princesa cisne e seu trágico final para o essencial, e moldou lindamente as danças mais famosas para que eles brilhem com energia. O papel do bufão (Yoshi Suzuki na apresentação da noite de abertura) foi expandido para dar a ele uma chance de impressionar o público com saltos de bravura e giros, quase roubando o show, mas não completamente. Essa honra pertence à bailarina Thamiris Prata, cujo comando do difícil papel de Odile / Odette foi cheio de fogo, gelo e excelente técnica.

Mario Galizzi aprimorou a história e moldou lindamente as danças mais famosas para que elas brilhem com energia. Foto: Fernanda Kirmayr.

Um aspecto distinto do ‘Lago dos Cisnes’ e certamente um desafio para as jovens bailarinas é o estilo e a elegância do corpo dos cisnes, movendo-se etereamente em padrões intricados, cada bailarina idêntica à seguinte. As jovens dançarinos da SPCD dotaram os cisnes de beleza e credibilidade. Ausente essa sensação calma no belo movimento, rompe-se a linha com um gesto mal colocado e a magia evapora. Não estaremos mais em um lago idílico maravilhados com os cisnes, mas em um estúdio assistindo dançarinos tentando ser cisnes.

Na releitura que Luiz Fernando Bongiovanni fez para o Balé Teatro Guaíra, a única coisa que tinha alguma semelhança com o “clássico” ‘Lago dos Cisnes’ foram algumas das peças mais famosas da partitura de Tchaikovsky. Talvez eu seja um pouco antiquado, mas esse gringo foi completamente confundido pela mistura de referências ocasionais com danças famosas do original e o movimento jazzístico francês.

Os bufões da corte real não foram feitos para entreter como na versão da SPCD, mas para nos lembrar do período histórico. Um palco sem adornos, com iluminação que parecia sem intenção, deixa qualquer pessoa se perguntando o que estaria acontecendo.

Um aspecto distinto do 'Lago dos Cisnes' e certamente um desafio para as jovens bailarinas é o estilo e a elegância do corpo dos cisnes. Foto: Fernanda Kirmayr.

Bongiovanni escreveu que um trabalho com (*) “um tema clássico oferece a possibilidade de reinvenção” e “traz para o presente momento, questões atemporais, do indivíduo e do coletivo”. Esse pode ser o mapa filosófico para guiar a produção, mas os dançarinos frequentemente pareciam perdidos. Se a jornada de Siegfried da adolescência para a maturidade se destina a ser o tema, ela falha, infelizmente.

Talvez o coreógrafo fizesse melhor deixando um grande clássico como o Lago dos Cisnes sozinho e encontrado outra inspiração para a “reinvenção”.

(*) Trecho original do programa oficial: “Trabalhar um tema clássico pode ser a possibilidade de reinvenção, gênese de significados, de atualização dos mitos a oportunidade de trazer para o momento presente questões atemporais, do indivíduo e do colectivo.”

Serviço

O Lago dos Cisnes – São Paulo Companhia de Dança

De 14 a 18 de novembro.
De 21 a 25 de novembro.
De 28 de novembro a 02 de dezembro.
Quartas, Quintas e Sábados 21h00 | Sextas 21h30 | Domingos 18h.

Local: Teatro Sérgio Cardoso
Endereço: Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista – São Paulo.
Telefone 11 3288-0136.
Capacidade: 835 lugares.

Ingressos disponíveis no site https://www.ingressorapido.com.br/ pelo telefone 11 4003-1212 ou na bilheteria do Teatro Sérgio Cardoso, de quarta-feira a domingo, das 14h às19h.

***
Peter Rosenwald mora em São Paulo e combina sua ocupação como estrategista de marketing para grandes empresas brasileiras e internacionais. Tem também carreira em jornalismo onde atuou por dezessete anos como crítico sênior de dança e música do ‘The Wall Street Journal’. Escreve toda semana no São Paulo São.

 

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