Ado-ado-ado, cada um no seu quadrado!

O primeiro loteamento principiará nas escaldantes areias da Princesinha do Mar, se estendendo por outras orlas cariocas.   

A iniciativa privada entra com a tecnologia em troca de publicidade. Aliás, privada, é como andam algumas de nossas praias.

Os quadrados, ninguém sabe o tamanho, mas o burgomestre afirma, caberão quatro pessoas. Cada quatro no seu quadrado. Em vez da noite dos mascarados, teremos o “bal masqué au bord de mer”. Chique, tudo muito chique, afinal, estamos falando de Rio de Janeiro, da praia mais linda do mundo, da praia que aportou, no início do século passado, o charmoso Copacabana Palace. Das areias que encantaram Janis Joplin, cantada em verso, prosa e musicalidade pelo Dick, não o vigarista como uns e outros, mas pelo inesquecível Farney, no mar eterno cantor, perdido de amor e só a Copacabana houve de amar o mar.

Das “Certinhas do Lalau” às “Lebres do Imperial, Copacabana não viu nada igual. Lotearam a praia! Pois é, meu amigo Charlie Brown, lotearam a praia. Agora ela é quadrada. Imagine você, o saudoso ‘Pier de Ipanema’, lá nos anos 70 com gente enquadrada?

Imagina, já antevejo a galera dos “Novos Negócios”! Além do “maaaaaaateeeee/limonaaaaaaada, tá beeeeeeeeeem geladaaaaaaa!”. “Bixxxxxsssscoito Globo saaaalgado e dooooooce”, vamos ter: “oooooooolha o quadrado, na minha mão é mais barato”! “Não marcou no aplicativo? Temos vagas para dois no quadrado da direita”. Olha o quadrado; moça bonita não paga, mas também não entra! Ou, a melhor de todas. Entrar no quadrado, não requer prática nem habilidade; qualquer criança brinca e se diverte!
         
Eis que surge uma nova profissão: Corretor de areia. Oferecem o melhor da fímbria da Zona Sul e Oeste. São terrenos de dois por dois, com direito a vista para o mar. Alguns, quadríssima da água. Os mais baratos junto ao calçadão. Vai ter título de posse, cadeira cativa – os mais chiques, espreguiçadeiras de alumínio como símbolo de status, contrato de compra e venda de gaveta. Vai ter amigo indicando amigo. Vai ter oferta especial, promoção das 16h e combo completo com direito a guarda-sol, cadeira e serviço vip.

Foto: Carlos Monteiro.

Com mais de sessenta, há prioridade em filas. A turma da melhor idade tem prevalência. Já imagino as senhorinhas do bairro, da turma da praia, todas faceiras em seus biquínis de bolinhas amarelinhas, chegando à beira-mar. O guarda-quadrados brada: “um passinho à frente por gentileza. As meninas têm primazia.
               
Fica uma questão; quem vai fiscalizar essa “ideia genial” (SQN)? O básico não tem sido respeitado. Os ônibus andam lotados, não há carros suficientes para atender a demanda. “Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios…” escreveu Vininha, como se já previsse o futuro. As máscaras ficaram para trás lá pelos idos de ‘Evoé Momo’. Quem fiscalizará?

Quem poderá nos salvar destas ideias quadradas? Quem poderá nos salvar?

Foto: Carlos Monteiro. Antônio Carlos e Jocafi, nomes que parecem de um trio, mas, na verdade, são uma dupla, têm mais que razão” “…o quadradismo vai de encontro aos intelectos que não usam a lógica”. Você abusou, tirou partido de mim, abusou. Você abusou, tirou partido de mim, abusou… Acho que vocês e o Vinícius tinham, assim, uma bola de cristal, uma mandala ou uma mandinga, premonições cariocas  e faziam previsões para o futuro.
               
Fica a questão: se eu não conseguir marcar pelo app, é para ligar para a Márcia?         

Para chegar ao mar, se passar pelo quadrado alheio, será invasão de domicílio?

Posso sublocar meu espaço transformando-o em dois retângulos…?

Foto: Carlos Monteiro.   
É amigo Charlie Brown, quero meu lugar ao Sol! Livre ‘pra’ poder sorrir, sim, livre ‘pra’ poder buscar o meu lugar ao sol… do Leme ao Pontal, quero meu lugar ao Sol.
            
Definitivamente, o Rio não é para amadores!

Leia também: 

***
Por Carlos Monteiro em artigo do Pro Coletivo, parceiro de conteúdo do São Paulo São.

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