Conferência Ethos 360º: como crescer e entrar na rota de uma nova economia mais limpa, ética e inclusiva?

 
A questão inspirou os debates na Conferência Ethos 360º, realizada nos dias 20 e 21 em São Paulo, tendo como pano de fundo fatores irreversíveis que já influenciam decisões de empresas e governos, como a urgência climática. “O desafio está nos temas estruturantes para a superação da crise sem retrocessos, com base no desenvolvimento sustentável, independentemente de quem estiver no poder”, afirmou Jorge Abrahão, diretor­-presidente do Instituto Ethos, na abertura do encontro, do qual participaram 190 palestrantes em 60 painéis.
 
Para Ricardo Abramovay, professor do Instituto de Energia e Meio Ambiente da Universidade de São Paulo, “o crescimento econômico é um meio, não um fim”, e a estratégia deve estar centrada não propriamente na redução de custos, mas na “capacidade de agregar valor, conhecimento e inteligência”. E isso, segundo ele, passa pela valorização dos produtos e serviços dos ecossistemas, como a água.
 
Há dois desafios, na análise de Abramovay: a redução da desigualdade, ampliando­-se a participação social no crescimento econômico, e a busca por inovação, com investimento maciço em educação. Recente estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), citado pelo professor, mostra que há baixo aproveitamento das capacidades humanas no processo de inovação no mundo, cenário que nos países em desenvolvimento é mais grave. Como escrito pelo economista de Harvard Klaus Schwab no livro “Quarta Revolução Industrial”, a chave está “em repensar o sentido do que fazemos”, disse Abramovay.
 
O apelo das mudanças climáticas dita o ritmo. A mobilização global desencadeada a partir da conferência de Paris sobre clima (CoP­21), em dezembro de 2015, tem sinalizado que a redução das emissões de carbono e a necessidade de adaptação aos impactos do aquecimento do planeta são caminhos sem volta. O Brasil, um dos primeiros a ratificarem o Acordo de Paris com compromissos para diminuir gases de efeito estufa a partir de 2020, pode ser protagonista e, assim, tirar vantagens competitivas com impacto positivo nos negócios. Como, até o momento, 60 países se juntaram ao acordo (47,78% das emissões globais), a expectativa é de que entre oficialmente em vigor neste ano, o que induzirá novas regulações internacionais e nacionais, afetando a atividade produtiva.
 
“Chegamos a um ponto de inflexão e é preciso agir porque já sentimos as mudanças do clima”, advertiu o consultor Tasso Azevedo. Os últimos dois anos foram de temperaturas recordes no mundo, que já gastou um quarto do orçamento de carbono proposto pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para limitar o aumento da temperatura média global em 2° C, em 2100. E agora, diante dos riscos econômicos, sociais e ambientais caso a margem de segurança seja superada, “começa a corrida para se alcançar a emissão zero”, afirmou Azevedo, com uma questão: nesse cenário de cortes, “como manter o desenvolvimento para também zerar a pobreza e a desigualdade?”.
 
Os desafios podem se tornar oportunidades. Apesar de ter diminuído 50% do carbono emitido entre 2004 e 2014, o Brasil permanece entre os principais países emissores, devido sobretudo ao desmatamento, à agropecuária e à geração de energia. “Direcionar mais investimentos a fontes renováveis é bom para a economia”, com reflexos na competitividade frente o esforço global para se livrar dos combustíveis fósseis, diz. De acordo com Azevedo, o mundo terá que aumentar a geração de energia limpa dos atuais 20% da matriz para 70% até 2050, e também reflorestar e reduzir pela metade o descarte de resíduos, além de outros itens de uma lista de necessidades que se avoluma, inspirando a busca de novas tecnologias.
 
Dos veículos elétricos não mais estigmatizados pela baixa autonomia e performance à produção de alimentos com menor impacto, soluções menos intensivas em carbono se ampliam no mercado. A velocidade e a escala dependem, entre outros pontos, de políticas estruturantes e das ambições empresariais. “O desenvolvimento sustentável é ainda um dilema na gestão das corporações”, avaliou Annelise Vendramini, coordenadora do programa de finanças sustentáveis do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGV).
 
A adesão do setor financeiro, com novas regulações nacionais e internacionais para os bancos, por exemplo, é termômetro das mudanças nos critérios de investimentos no sentido da descarbonização da economia. Para analistas, o mercado já entendeu o caminho, mas falta saber como financiar a transição. E a inércia pode custar caro. “No futuro a ameaça financeira será maior do que os atuais riscos do investimento em novas tecnologias de baixo carbono”, previu Denise Hills, superintendente de sustentabilidade do Itaú­ Unibanco.
 
Para a executiva, também vice-presidente da Rede Brasileira do Pacto Global das Nações Unidas, “cada vez mais esse novo modelo é visto entre investidores como padrão de sucesso”.
 
 
A tendência é impulsionada pelos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pela ONU com metas ambientais, sociais e econômicas para 2030, balizando ações de empresas e governos. Um dos temas que mais ganham força na agenda é o da diversidade de gênero, raça e orientação sexual, “questão essencial para um país que se diz desenvolvido e justo”, afirmou Cida Bento, diretora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades. “É crescente a incorporação do tema aos negócios”, disse Guilherme Bara, gerente de relacionamento e diversidade da Fundação Espaço Eco, mantida pela Basf. “A empresa entende que formar equipes mais diversas contribui para bons resultados.”
 
Para Carolina Marini, coordenadora de diversidade e clima do Itaú­Unibanco, “o tema agrega valor ao gerar transformações benéficas para o negócio e por isso está de mãos dadas com a sustentabilidade”. Já no Carrefour, conforme explicou a gerente de responsabilidade e diversidade, Karina Chaves, “é estratégico para as vendas que clientes de todos os perfis se sintam representados”. O grupo mantém desde 2013 um comitê especial sobre a questão, que é transversal às diferentes atividades e vai além de aumentar a proporção de mulheres no corpo de funcionários.
 
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Sérgio Deodato para o Valor.
 

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