Ocupação Cartola traz poemas inéditos e desvela o homem além do samba

A Ocupação Cartola, a 31ª de uma série iniciada em 2009, que será realizada entre 17 de setembro e 13 de novembro, vem sendo preparada há seis meses. Os pesquisadores foram às ruas, entrevistaram personagens importantes, caminharam pelo universo do compositor. A curadoria compartilhada, que tem Fabiana Cozza como convidada, envolve os Núcleos do Itaú Cultural de Música e de Enciclopédia e conta com a consultoria de Nilcemar Nogueira, neta e estudiosa de Cartola. “Esse projeto surge em um momento muito oportuno, em que estamos percebendo a importância da dignidade e da fidelidade às crenças”, diz Nilcemar. “Estamos passando por uma crise da própria existência, e Cartola mostra que é possível sim acreditar em seus valores.”

As partes da ocupação ficarão divididas em ‘1908 – o nascimento’, ‘Encontros / Rua’, ‘Zi Cartola’, ‘Casa / Varanda’, ‘Palácio do Samba’ e ‘Cartola de Ouro’. Grande amor de uma vida de muitos amores, Dona Zica, a Euzébia Silva de Oliveira (1913-2003), sambista da Velha Guarda da Mangueira e parceira mais marcante desde a década de 1950, estará presente sobretudo no espaço que terá uma ambientação do Zicartola, o bar e restaurante criado em setembro de 1963 na Rua da Carioca, no Rio, que teve Dona Zica como uma das sócias e que se tornou uma antologia na história do samba. “Foi lá que Paulinho da Viola recebeu o seu primeiro cachê”, conta Edson Natale, diretor do Núcleo de Música do Itaú Cultural. A experiência vai propor a sensação ao visitante de que ele esteja na plateia do próprio Zicartola.

Cartola reflete sinais dos estereótipos que surgem silenciosamente e às avessas. Quando se pronuncia seu nome, assume-se em geral um discurso respeitoso e de engrandecimento, mas limitado às cercanias do samba pela maior facilidade de entendimento ou pelo desconhecimento de sua abrangência. Sem a necessidade desse carimbo, Fabiana Cozza acredita que o homem que colocou o samba no alto escalão da música brasileira possa ser entendido com maior grandeza. “Não se trata de valorizar aqui o Cartola preto, pobre, que nasceu no morro. Isso não é o mais importante, essa é uma camada muito superficial. Depois de passar por essa curadoria, eu posso dizer que eu não conhecia o Cartola”.

A neta Nilcemar reage com firmeza a outra observação comum e aparentemente sedutora: afinal, de onde saía a carga poética de alto calibre do compositor? Ela vê preconceito aqui. “Isso vem do estigma, como se Cartola não pudesse criar o que criou por ter saído de onde saiu.” Mas, para além dessa leitura, há uma outra também intrigante. Cartola, dono da erudição dos mestres, estudou formalmente apenas o primário. “Mas leu autores parnasianos como Olavo Bilac e Ivan Junqueira”, rebate. Seus empregos em versos foram capazes de criar estudos e debates, como a palavra “premeia”, de Fiz Pro Você o que Pude. “Alguns linguistas acharam certo, outros discordaram da existência dessa palavra. Era um termo não usual, de uma forma coloquial e culta. Ao final, ficou provado que ele estava certo.” Outra concordância que de tão sensível acabou sendo registrada de forma equivocada por alguns está em O Mundo é um Moinho. Cazuza foi um dos que caíram na armadilha gramatical quando gravou a parte “Ouça-me bem, amor / Preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos”. Mesquinho é o mundo, não os sonhos. Ou seja, singular.

Um dos itens de maior relevância será justamente a distribuição de um livreto com nove poemas inéditos de Cartola, além de fotos de família. Um deles é Anjo Mau, escrito pelas mãos de um Cartola já descrente da recuperação, escutando com autopiedade o prenúncio da morte: “De que cratera saíste / Em que lamaçal brotaste / Por que fizeste tão mal / Nos lugares que passaste? / Por que este olhar satânico / Que força mal te conduz? / Eu noto, ficas em pânico / Quando deparas a cruz! / Por que disfarças um sorriso / Quando vês alguém no leito / Em bom som dizes ‘coitado’ / Depois sussurras ‘bem feito’. / Por que não foges pra’s trevas / Igual a um cão acuado? / Embrenha-te no infinito / E deixa-nos sossegados.”

Serviço

Ocupação Cartola – Itaú Cultural
Sábado, 17 de setembro a domingo 13 de novembro de 2016.
De terça a sexta das 9h às 20h (permanência até as 20h30).
Sábado, domingo e feriado das 11h às 20h.
Entrada gratuita.

***
Julio Maria em O Estado de S. Paulo.

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