Cidade: espaço de liberdade ou prisão?

Em palestra realizada na última segunda-feira (5) na Unibes Cultural, em São Paulo, Wisnik falou sobre como as metrópoles foram vistas ao longo da história e seu papel hoje, num contexto no qual elas são cada vez mais associadas à mercadoria, prevalecendo “o valor de troca em detrimento do de uso”.

Wisnik começou sua palestra abordando o surgimento das cidades modernas, no fim da Idade Média, quando as pessoas se reuniram em torno do comércio nos chamados burgos. O arquiteto explicou que neste momento a cidade apareceu como “o lugar da possível libertação, que rompe a clausura dos mundos menores e fechados. Com isso ela traz a possibilidade do cosmopolitismo, que é a vida diante do diverso, próxima de pessoas que têm heranças culturais, étnicas e religiosas diferentes”.

Esse encontro com o outro possibilitado pela metrópole é exaltado nos quadros dos impressionistas, como Claude Monet e Edouard-Léon Cortès, e nas obras do escritor francês Charles Baudelaire, um entusiasta da reforma urbana de Paris, promovida pelo barão Haussmann entre 1852 e 1870: “A figura clássica do flâneur, que é criada por Baudelaire e depois analisada por Walter Benjamin, é a retratação desse sujeito no meio da multidão, que escapou da vida pequena da comunidade exercendo sua subjetividade pelo anonimato”.

Para Wisnik, o fato de as cidades serem caracterizadas pela pluralidade faz com que elas sejam mais democráticas: “Essa tendência é clara, inclusive politicamente. Por exemplo, caso a votação do Brexit dependesse de Londres, a Inglaterra não teria saído da comunidade europeia. Na eleição norte-americana, as grandes cidades em geral não elegeram Trump. Já nas recentes eleições no Brasil não dá nem pra afirmar isso”, fala rindo.

Edvard Munch, “Melancholy“ / Munch Museum, Oslo.

Porém Wisnik reforça que há outra face mais sombria da cidade, associada à repressão da subjetividade do indivíduo. Esse outro lado da moeda foi retratado pelos pintores expressionistas, como o norueguês Edvard Munch, autor da célebre tela O Grito. Eles retratam a metrópole como espaço da solidão, do homem desenraizado que vê todos os seus laços afetivos e religiosos cortados. O arquiteto reforça que essa faceta da urbanização não pode ser ignorada, sendo presente até hoje na relação do homem com a cidade.

“O Grito“ de Edvard Munch. National Gallery, Munchmuseet.

Para Wisnik, é justamente a dualidade entre liberdade e prisão que está na origem da modernidade como fenômeno: “Eu realmente acredito que a cidade é o lugar que possibilita o convívio com a alteridade, que permite uma vida mais democrática. Mas a gente vê empiricamente que as nossas realidades urbanas são cada vez mais tomadas pelo medo, pela violência, pelo encarceramento e isso se distancia enormemente da cidade como lugar da liberdade. Então, do ponto de vista do imaginário, há de se considerar essa espécie de esquizofrenia simbólica”.

Esse caráter contraditório parece ainda mais forte em metrópoles que privilegiam o uso do automóvel e estimulam a criação de condomínios fechados, numa lógica que “se afastou totalmente do boulevard parisiense, aproximando-se da ideia de subúrbio norte-americano”, afirma Wisnik. Formam-se assim cidades com ruas vazias, na qual a convivência é abolida em nome de um discurso de segurança. Como exemplo desta lógica de condomínio, ele cita o caso da cidade de Ordos, na China. O local foi idealizado em 2000 pelo governo chinês para se tornar uma nova Dubai e abrigar cerca de um milhão de habitantes. Porém, o projeto não deu certo, os prazos não foram cumpridos e muitos investidores abandonaram o barco. Hoje moram apenas cerca de três mil pessoas na cidade, algo que, segundo Wisnik, não foi necessariamente desvantajoso para o governo chinês cujo principal interesse era simplesmente aquecer o mercado da construção civil.

Cidade de Ordos na China. Foto: Raphael Oliver

Ao pesquisar sobre o tema, Wisnik encontrou um depoimento de um investidor imobiliário que era dono de várias propriedades em Ordos. Indagado por um jornalista se ele acreditava ter feito um mau negócio, o empresário respondeu que não, pois “investiu em uma cidade que não estava sendo gasta e ficaria nova para sempre”. O arquiteto conta que após ouvir essa entrevista não conseguiu dormir, pensando no impacto daquela afirmação: “Precisamos levar essa fala a sério pois ela revela a transição final da cidade como valor de uso para valor de troca. A ideia que a metrópole possa vir a ser inteiramente uma mercadoria”.

Como oposição a esse processo, ele cita a atuação de coletivos nos anos 1960 como o movimento Situacionista que defendia a cidade como lugar de emancipação e desprogramação, num contexto de embates políticos : “Entre os arquitetos há uma tendência de se pensar o espaço público como um lugar pacificado, bucólico e apaziguado. Mas na verdade acho que o grande atributo do espaço público, sobretudo em cidades do terceiro mundo como as nossas, é que ele permita a aparição do conflito, afinal a sociedade é conflituosa e desigual”.

Wisnik afirma que este tipo de atitude dos anos 1960 tem sido retomada por diversos grupos contemporâneos. Ele cita o trabalho de coletivos como o Basurama, que transformou o Minhocão em playground, e os grafites politizados do artista anônimo Banksy:  “Parece que chegamos a uma nova fase da história que as pessoas querem fazer microrrevoluções, transformações do cotidiano a partir de práticas locais”.

Ação realizada pelo coletivo Basurama no Minhocão. Foto: Divulgação

Esse tipo de atuação revela assim novas formas de agir diferentes da política institucional, que parece não dar mais conta de promover mudanças sociais: “No Brasil, com o primeiro governo Lula e a aprovação do estatuto das cidades, vivemos a expectativa de que iríamos realizar uma reforma urbana que nunca foi feita. E me parece que hoje, na ressaca desses movimentos políticos que não ocorreram, a sociedade brasileira desistiu de esperar uma política de cima para baixo e resolveu fazer espaço público com as próprias mãos”.

Wisnik terminou sua fala citando a obra dos filósofos Antonio Negri e Michel Hardt. Em livros como Multidão e Império, eles questionam a dicotomia público/privado, baseada na tradição grega, propondo outras chaves de análise para o espaço público. Em tempos incertos,  a aparição de novas teorias e visões de mundo parece ser um dos caminhos para a superação das contradições da modernidade, ainda tão presentes na sociedade contemporânea.

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Por Mariana Tessitore na Revista Brasileiros.

 

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