Criadora do ‘piso paulista’ diz que nunca recebeu pelo desenho

Pisar nos ladrilhos pretos e brancos com o formato do mapa do Estado de São Paulo certamente também faz alguma coisa acontecer no coração dos paulistanos.

Mas parte da emoção sentida ao cruzar o marco geográfico da canção de Caetano Veloso pode diminuir porque o famoso ‘piso paulista’ está sumindo de parte da cidade, inclusive do cruzamento mais famoso de Sampa, a Ipiranga com a São João.

A desenhista Mirthes Bernardes, 80, se entristece ao falar do descaso com os ladrilhos, mas o orgulho de ter criado um dos principais símbolos da cidade é maior. Em 1965, o desenho dela venceu o concurso que padronizou todas as calçadas da capital paulista, na gestão do prefeito Faria Lima.

“Eu achava que tinha coisas bem mais bonitas [entre as concorrentes], mas não acharam”, diz, rindo.

A desenhista aposentada pela Prefeitura de São Paulo conta que não tinha pretensões de vencer a disputa na época, quando rascunhou o desenho, mas confessa que buscou inspiração nas calçadas cariocas. “As ondas [do calçadão] de Copacabana, um traço lindo por sinal, e eu não quis imitar, mas queria fazer alguma coisa parecida. Se lá [no Rio] tem uma coisa tão linda, por que aqui não pode ter?”, questiona.

Meio século depois, o “piso paulista” ainda faz muito sucesso, mas Mirthes, a dona da patente, diz que nunca ganhou um centavo por isso. “Faz 50 anos que eu estou lutando. Não consegui nada, nem um alô. Eu acho que eu merecia”, diz.

O famoso símbolo já estampou panfletos de grandes bancos, chinelos e propagandas de toda a sorte.

Mirthes disse que vai continuar brigando na Justiça contra as empresas e se desanima ao falar do cuidado com os ladrilhos. “Qualquer piso desses que está aí em São Paulo está esculhambado. Vão passando por cima, vão tampando buracos ao invés de restaurar.”

Seu maior medo é que o todo o “piso paulista” desapareça.

Em 2012, a avenida Amaral Gurgel, uma das primeiras vias a receber o “piso paulista”, teve todas as suas peças arrancadas e trocadas por concreto “para melhorar a drenagem e aumentar a durabilidade”, diz a prefeitura.

As calçadas da São João, Consolação e parte do centro velho também estão sumindo porque os comerciantes tem a opção de restaurá-las ou não, pois elas não são tombadas. O município diz que o “piso paulista” implantado nas calçadas de prédios públicos são sempre restaurados.

Incentivo

O historiador da USP e conselheiro do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico), Pedro Puntoni, disse que símbolos da cidade precisam de apoio para se manterem preservados.

O historiador diz que tornar o piso um patrimônio histórico daria a ele um reconhecimento e ajudá-lo financeiramente, como a possibilidade de obter apoio pela lei Rouanet. “Mas isso não significa respeito porque muitos bens tombados estão ruindo. Alguns são vistos até como estorvo para o crescimento e desenvolvimento”, disse.

Para ele, a prefeitura deveria ser responsável por implantar todos os calçamentos da cidade. “Cada um cuidar de sua calçada em São Paulo é uma besteira. O poder público teria de cuidar e cobrar de cada um, senão o vizinho põe um degrau, outro põe cimento. Cidades modernas, como Paris, as calçadas são municipalizadas”, afirmou Puntoni.

Felipe Souza na Folha de S.Paulo.

 

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