Invisibilidade social, uma questão do nosso tempo

A invisibilidade social e os conflitos entre classes, retratados de maneira nua e crua por BONG Joon Ho em seu “Parasita”, grande vencedor do Oscar 2020, levando quatro estatuetas, inclusive melhor filme, fato inédito para uma produção em língua estrangeira, parecem ser as grandes questões do nosso tempo em um ano que promete ainda mais polarização política. Este mal-estar que a todos nos toca por mais que disfarcemos e façamos cara de paisagem de que está tudo na mais perfeita ordem.

O filme retrata as brutais desigualdades sociais e os choques entre classes, normalizadas no cotidiano das sociedades capitalistas, a partir da narrativa das realidades diametralmente opostas de duas famílias de Seul: uma rica e uma outra pobre. A família Park mora numa casa suntuosa e esteticamente impecável e os Kim habitam cômodos improvisados em um abjeto porão, que na realidade das grandes cidades, não apenas sul coreanas, da competição mortífera e mercantilização dos espaços vitais, tem se apresentado como uma opção de moradia cada vez mais comum para muitas famílias. 

No filme Parasita, a família Park mora numa casa suntuosa e esteticamente impecável. Foto: Divulgação.

Não só a excelente produção coreana trata do tema da invisibilidade social e o mal-estar civilizatório do inferno que habita os outros, o diferente, a alteridade, em uma sociedade marcada pela lógica implacável da competição do indivíduo subjetivado em mercadoria e mercador de si… O Oscar de melhor ator foi para Joaquin Phoenix pela sua visceral interpretação do Coringa, vilão das estórias em quadrinho em sua primeira aparição solo, sem Batman ou qualquer outro herói como oponente. 

O Coringa pós-moderno retratado como um inadaptado, um inviável socioeconômico, um marginalizado, um invisível social que vê seu mundo material e subjetivo se esfacelar e faz da violência sua forma de expressão, revolta e revolução diante da indiferença a sua dor, da barbárie do cotidiano e do vazio de sentido que se normaliza e produz inadaptados em séries, outros “coringas” aos milhares.

Joaquin Phoenix é Arthur Fleck em 'O Coringa', símbolo para os mais desfavorecidos numa cidade asfixiada pelas desigualdades econômicas. Foto: Divulgação.

Em o Parasita, o cheiro no filme tem um caráter simbólico. O cheiro como algo que se procura ignorar, ocultar, disfarçar, mas que está lá presente, sempre, impregnando a tudo e a todos como o odor fétido de um ralo que não se consegue desinfectar por mais assépticas que sejam as relações sociais. 

O cheiro da pobreza, da degradação social que exala, apesar da prosperidade de alguns poucos diante da marginalização de muitos e da angústia da exclusão iminente na luta pela sobrevivência em uma sociedade onde, em tese, tudo é possível, mas pouco está realmente ao alcance da grande maioria.  

“Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível”. Fernando Braga. Foto: TEDx / Divulgação.

Circunstâncias sociais que criam um mundo triste, onde relações parasitárias prevalecem em detrimento da coexistência ou da simbiose fértil e enriquecedora dos encontros, o que Fernando Braga da Costa teoriza em sua tese sobre a invisibilidade social. Situações crônicas de disparidade socioeconômica que prejudicam, ou chegam até mesmo, a interromper o poder da comunicação próprio dos seres humanos. “Todos calam. Ninguém conversa. A comunicação retrai-se. Acabamos habituados às conversas, magras, pálidas, anoréxicas. É porque ficamos todos também anoréxicos, recusando o sabor dos outros – azedume ou doçura não importa – sem que seja possível alimentar-se da presença do outro. A conversa econômica, magra por assim dizer, é resultado de olhar estreito – também magro – que no mundo mercantil admitimos, em geral, anestesiados.”  

A frase “eu sou invisível” que escutamos de muitos moradores de rua que se sentam nas cadeiras do Sidewalk Talk – Conversas na Calçada é expressão desta invisibilidade, humilhação social, desta avareza de afetos, desta indiferença com o outro, com a comunidade, com o público. Estas pessoas não querem muito, não querem ir para a Disney, ou ter a vida de bacana. Muitos só querem sentir que existem para o outro e ser dignos da gentileza alheia, aquela, que para Mia Couto, é sempre um ato de amor. “Gentil é aquela pessoa que passa pela vida de outra; toca-a com leveza, onde ninguém mais pode ver.” 

Choi Woo-shik e Jung Ji-so em cena de "Parasita". Foto: Divulgação.

Em uma cena do filme Parasita, o personagem Kim Ki-woo pergunta para Park Da-Hye se ele combinava com o mundo dela? Cabe perguntar, onde os mundos deixariam de combinar? Onde diferiram os desejos de amor, conforto, bem-estar, felicidade? O amor é que move a todos. É o que na essência resta das relações humanas, o comum que nos possibilita conectar uns com os outros, que nos permite enxergar o mundo de outras perspectivas, que constrói comunidade e que articula o comum. 

E isto se dá através da conversa desde os tempos que os primeiros sapiens se sentavam em torno das fogueiras nas cavernas para se proteger e se aquecer do frio. O que professamos como projeto, a prática da conversa, aberta e honesta, que nos move adiante, nos faz refletir na escuta sobre as nossas convicções e nos faz rever nossas atitudes. Que em suma, faz-nos resgatar a humanidade em nós e entre nós.

Leia também: 

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Por Patrícia Maria Martins & Luiz Alfredo Santos do Sidewalk Talk – Conversas na Calçada, que escrevem quinzenalmente no São Paulo. 

 

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Referências bibliográficas

DA COSTA, Fernando Braga. 2008. Moisés e Nilce: retratos bibliográficos de dois garis. Um estudo de psicologia social a partir de observação participante e entrevistas.  https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-09012009-154159/publico/costafernando_do.pdf 

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