O ano da saudade

Em um ano marcado por recolhimento obrigatório, perdas, dificuldades enormes, mortes, uma lista inicial com 10 palavras trouxe as óbvias “Confinamento” e “Covid-19”, por exemplo. Mas o ano ficou mesmo marcado por “Saudade”, uma palavra tão nossa, tão simbólica, tão única e cheia de significado no idioma português, seja saindo de bocas brasileiras, portuguesas, cabo-verdianas ou de outros países lusófonos. “Saudade” é a Palavra do Ano em 2020. Saudade dos encontros sem máscara, dos contatos, dos amigos e parentes que deixamos de ver, saudade dos momentos que deixamos de viver, saudade de abraçar, de beijar, de ir ao teatro como antes, de dançar no meio de muita gente, de cantar diante de um palco, em pé na pista, ouvindo a banda preferida…

Este ano, pela primeira vez, a votação foi feita, simultaneamente, em Angola e Moçambique, cujas palavras finalistas acabaram também vindo deste universo triste da pandemia. Em Portugal, a votação online ficou aberta durante todo o mês de dezembro, no site do projeto (https://www.palavradoano.pt/). A lista das 10 finalistas é feita a partir do ranking das palavras mais procuradas nos dicionários ao longo do ano, no acompanhamento contínuo dos meios de comunicação e nas sugestões dos cidadãos. “Saudade” ganhou com quase 27% da preferência, seguida por “Covid-19” e “Pandemia”.  Na sequência, ficaram “confinamento”, com 16,23% dos votos online; “zaragatoa” (7%); “telescola” (2,58%); “discriminação” (1,85%); “infodemia” (1,59%); “digitalização” (1,33 %) e “sem-abrigo” (1,16 %).

Em 2019, a palavra vencedora foi “Violência (doméstica)”, com pouco menos de 28% dos votos. A escolha refletiu uma triste realidade daquele ano, quando mais de 30 pessoas morreram em contexto de violência doméstica (a maior parte, mulheres). Aliás, um mal que assola o Brasil há anos.

Outra iniciativa que valoriza a palavra é “O Ano em Palavras” (https://oanoempalavras.pt/), que faz uma retrospectiva dos últimos 12 meses a partir das palavras mais acessadas em um importante dicionário online, o que ajuda a traçar um amplo panorama com os acontecimentos nacionais e internacionais mais relevantes. Separadas por mês, as palavras mais buscadas ajudam a contar a história do ano que passou. Assim, a vida ao redor da pandemia praticamente instigou as buscas em todos os meses do ano a partir de janeiro de 2020: em janeiro, “Coronavírus” já começava a ser buscada; fevereiro foi marcado pela “Pandemia”; em março, “Quarentena”, “Confinamento” e “Zaragatoa” foram as palavras mais procuradas; abril foi a vez de “Telescola” e “Liberdade”; maio teve “Calamidade”; em junho a palavra foi “Politização”; depois de um julho e um agosto sem grandes referência à pandemia, setembro terminou com “Recrudescimento”; outubro fechou com “Assintomático”, “Disrupção” e “Placebo”; e novembro teve “levante” (dos cercos sanitários em várias cidades portuguesas) e “Letalidade”. Em tempo: vale destacar outra palavra que foi destaque em setembro de 2020. “Cristofobia”  surgiu na fala do presidente Bolsonaro na assembleia da ONU, ao reforçar que o Brasil é um país cristão, conservador e que tem na família a sua base. Vale lembrar que em 2019, o tema da família já havia nos dado a oportunidade de sermos “padrinhos” de uma busca nos dicionários com o termo “Nepotismo”, graças mais uma vez ao presidente Jair Bolsonaro, que disse não ser nepotismo indicar o filho para a posição de embaixador do Brasil nos Estados Unidos. 

Panelaço em prédio da zona oeste de São Paulo no mês de janeiro. Foto: Vanessa Galassi.

2021 acaba de começar, mas me parece que já teríamos, ao menos no Brasil, uma palavra para marcar o mês de janeiro, não? Não sai da cabeça dos brasileiros que voltaram a bater panela… Quem sabe não vai ser o destaque da retrospectiva de 2021.

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***Marcos Freire mora com a família em Ovar, Portugal, pequena cidade perto do Porto, conhecida pelo Pão de Ló e pelo Carnaval. Marcos é jornalista, com passagens pelas principais empresas e veículos de comunicação do nosso país. Escreve quinzenalmente no São Paulo São.

 

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