Pioneirismo: a avenida Paulista já nasceu com ‘ciclofaixa’

Com 12 metros de largura, era a primeira avenida planejada da capital. Foi um projeto inovador para uma São Paulo com cerca de 100 mil habitantes que já se firmava como grande polo de fábricas e centralizava a produção de café do país.

O caráter vanguardista da avenida continuou a se manifestar ao longo da história da cidade. Nas primeiras décadas, sob propriedade dos endinheirados da época, surgiram palacetes dos mais variados estilos -do neoclássico, com cúpulas e colunas, ao “art nouveau”, que usa linhas curvas inspiradas nas formas da natureza.

“Para a Paulista, mudaram-se inicialmente famílias ricas menos tradicionais, oriundas de diferentes nacionalidades. Cada um levava à arquitetura de suas casas referências de seus países”, explica o especialista em história da arquitetura, José Eduardo Lefèvre.

“Bizarras às vezes, sóbrias demais outras, apoteóticas, exageradas, suaves, confortáveis, as mansões refletiam fantasias e sonhos, de proprietários e arquitetos”, disse o escritor Ignácio de Loyola Brandão, no livro “Paulista Símbolo da Cidade”.

Escola Estadual Rodrigues Alves. Desenho de Fernanda Grimberg Vaz de Campos.

Algumas construções não residenciais se tornaram também importantes para marcar a arquitetura da avenida. O edifício atual do Colégio Rodrigues Alves, por exemplo, na esquina da rua Pamplona, é de 1919, projetado pelo escritório Ramos de Azevedo.

Pionerismo

A Paulista acumulou títulos ao longo dos anos: foi a primeira via asfaltada da capital, em 1909, com material importado da Alemanha, em uma época em que o calçamento era de paralelepípedos. A avenida também recebeu o primeiro hospital particular da cidade, em 1906, o Sanatório Santa Catarina.

A Paulista foi a primeira via asfaltada da capital, em 1909. Foto: Bruno Santos / Folhapress.

Conjunto Nacional, de 1955, seguiu tendências americanas. Foto: Bruno Santos / Folhapress.

Projetado pelo paisagista francês Paul Villon, o parque Trianon, inicialmente chamado de ‘Parque da Avenida’, foi composto por vegetação da Mata Atlântica original, até hoje intacta.

A substituição das mansões e palacetes das primeiras décadas pelos arranha-céus se dá principalmente a partir dos anos 1940. Em 1941, no trecho entre as avenidas Consolação e Angélica, foi erguido o Edifício Anchieta, ainda hoje lá.

Em 1955 é construído o Conjunto Nacional, um dos símbolos da avenida -prédio de uso misto (comercial e residencial), como propõe hoje o novo Plano Diretor.

Antiga casa do Coronel Joaquim de Franco de Mello, de 1905. Foto: Jax Stumpes.

Dois anos depois, foi erguido o Masp (Museu de Arte de São Paulo), com um projeto sofisticado de Lina Bo Bardi. O vão livre de 74 metros era o maior do mundo na época.

A verticalização, porém, cobrou seu preço. Da centena de antigos e elegantes casarões da avenida, atualmente restam apenas cinco exemplares. Um deles é o casarão do coronel Joaquim de Franco de Mello, que abrigará o Museu da Diversidade.

“Ainda há grandes projetos na Paulista, mas São Paulo é caótica, se reconstrói e a arquitetura da cidade é largamente definida pelo mercado, nem sempre pra melhor”, diz Lefèvre.

Veja mais curiosidades históricas sobre São Paulo.

Mazza abandonado

Rua Vitorino Camilo n.o 61 na Barra Funda. Foto: São Paulo Antiga.Escondido nos fundos de um estacionamento, está a casa onde nasceu Amácio Mazzaropi, em 1912. Sem nenhuma placa em memória do ator e cineasta, o sobrado pode ser encontrado na rua Vitorino Carmilo, na Santa Cecília. Ele viveu no local apenas até os dois anos de idade, quando se mudou para Taubaté, no interior de SP.

Canteiro aberto

Dentro da Vila Itororó, na Bela Vista, uma nascente do rio Itororó resiste à urbanização e à crise hídrica. “Temos água potável, mais limpa que a da torneira”, brinca o curador Benjamin Seroussi. A construção, que começou a ser edificada em 1922, já foi usada como clube de lazer e cortiço. Hoje, mesmo sem prazo para o fim da reforma, o local está aberto para visitação e recebe atividades culturais.

Só rezando

O hospital Samaritano, em Higienópolis, foi construído em 1894 com verba chinesa, do imigrante José Achao. Ele decidiu financiar o primeiro hospital privado de São Paulo após ter seu tratamento de tuberculose negado na Santa Casa de Misericórdia. Na época, ele fora informado de que só seria atendido caso se convertesse ao cristianismo.

Tourada paulista

Touradas: antes de ser a Praça da República teve outros nomes e também outras utilizações. Foto: São Paulo Antiga. Antes dos cinemas chegarem ao centro de São Paulo, touradas e rodeios realizados em plena praça da República eram o divertimento da população. O local, então chamado ‘Largo dos Curros’ recebia os espetáculos com frequência no final do século 19, e o público era grande: raras fotografias da época mostram as arquibancadas cheias.

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Por Ismael Pfeifer em colaboração para a Folha de S.Paulo.

 

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