Um jardineiro que, nas alturas, trabalha para mudar a paisagem do Minhocão

Nascido em Barro Alto, na Bahia, ele mudou-se para a capital paulista aos 6 anos de idade. Aqui cursou até o 1.º ano do ensino médio. Aí foi trabalhar. “Já fiz de tudo na vida: faxineiro, servente de pedreiro, ajudante de gesseiro… Mas comecei a ter uma profissão mesmo, no sentido de encarar como carreira, quando entrei para uma empresa de manutenção de fachadas de prédios”, conta ele. 

Foram cinco anos limpando e pintando edifícios. Roque aprendeu bem o ofício: montava e desmontava as plataformas e encarava qualquer trabalho nas alturas. 

Sua trajetória começou a mudar no fim de 2014. O grupo Movimento 90º havia instalado, um ano antes, um jardim vertical em uma empena cega de um prédio da região. “Esse primeiro projeto era temporário, com duração de um ano. No fundo, era para mostrarmos que dava certo”, conta o paisagista Guil Blanche, de 26 anos, idealizador do projeto. 

Faz-tudo. Como o movimento ainda era embrionário, a mão de obra era toda terceirizada. A empresa onde Roque atuava foi contratada para desmontar o jardim. “Antes, o mais próximo de uma planta que eu tinha chegado era vendo a minha mãe (Maria de Lurdes, hoje com 52 anos) cuidar das samambaias dela”, diz Roque. 

Assim como seus colegas de obra, ele ficou intrigado: como é que aquelas plantas cresciam ali, na parede do prédio? Sua curiosidade e empenho na operação chamaram a atenção de Guil. 

Quando o projeto do corredor verde virou realidade, ele foi contratado. Hoje é um faz-tudo – e dos mais experientes entre os 10 operários que sobem e descem nos prédios na hora de montar os jardins, fazer as podas, adubar e, eventualmente, corrigir algum problema emergencial. 

“De vez em quando é preciso arrancar ervas daninhas”, conta ele. “Também tem coisas que nascem sem a gente plantar, de semente trazida por um passarinho, por exemplo. Já retirei pé de girassol e até de abóbora.” 

A rega, por outro lado, é totalmente automatizada. Uma integrante da equipe recebe relatórios diários, por e-mail, informando a vazão ponto a ponto. Só é preciso mexer in loco quando é detectado algum problema pontual. 

Entre plantas. O rapaz acabou tomando gosto pelas plantinhas. Antes, não havia vaso nenhum em sua casa, na Vila Joaniza, região de Interlagos, zona sul de São Paulo, onde vive sozinho. “Aí comecei a trazer uma muda de cada jardim que faço. Olho para a planta e me lembro do prédio, do trabalho de colocar as plantas lá em cima”, comenta. “O importante é que a gente vai aprendendo a cada dia mais.”

Em média, para fazer um jardim vertical, Roque e a equipe levam 50 dias. Seis já estão prontos. Atualmente, está na reta final o do Edifício Minerva, na Rua Amaral Gurgel. Ali, em 2 mil metros quadrados de empena cega, foram plantadas 42 mil mudas, de 13 espécies diferentes. “No geral, são plantas epífitas e litófitas”, conta Guil, referindo-se respectivamente às vegetações que, na natureza, nascem em cima de outras plantas e vivem sobre pedras.

Entorno do Minhocão já conta com seis jardins verticais. Fotos: Hélvio Romero/ Estadão

Roque se encontrou na função, descobriu-se na profissão. Cada vez mais entrosado com as plantas, o jardineiro das alturas agora arrisca até a dar palpites nas plantinhas da mãe, Maria de Lurdes. “Ajudo a cuidar dos vasinhos dela também. Não tem jeito, né? A gente pega amor pela planta”, comenta ele, com um afetuoso sorriso.

 

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