Você não acha que é hora de repensar o que come?

É claro que nenhum desses atores expõe uma visão crítica sobre a avicultura. Limitam-se a dizer banalidades, como a de que se dá antibiótico aos frangos “somente quando é necessário”. Well…

A campanha parece ser, na verdade, contra os “odiadores profissionais” (talvez os “petistas” do franguinho a passarinho…). Sim, de fato, os que questionam esse modelo de produção alimentar – de espaço de confinamento, de qualidade da alimentação dos animais e de se ministrar antibióticos e hormônios – sejam os vegetarianos de todos os credos, os defensores de uma alimentação “natural” que carece de uma definição precisa, os “organicistas” e assim por diante que, muitas vezes sem contar com argumentos científicos, sabem que nesse amontoado de animais de granja se esconde algo que, se não é totalmente perigoso, merece a total desconfiança.

Desde o episódio da “vaca louca” a confiança na indústria alimentar ruiu e, em seu lugar, foram se tecendo estilos alimentares os mais diversos e que têm em comum a recusa, até mesmo intuitiva, de que não se deve comer gato por lebre quando não se sabe como gato e lebre foram produzidos.

O debate entre os ruralistas-tradicionalistas e os industriais, em torno da qualidade alimentar, surge no século XIX a par com a indústria alimentar. Interesses econômicos e políticos se escondem por trás de argumentos técnicos e o propósito de tornar os humanos uma grande massa carneiril que só se alimenta de ração nunca chegou a triunfar por completo. Desde a “vaca louca” o peso da dúvida aumentou e a indústria foi posta na berlinda. Entre os vários antídotos desse mal da civilização inscrevem-se práticas como o “rastreamento”, a “transparência”, etc. A civilização ocidental acredita que “se é o que se come” e não quer comer merda.
 
Um trecho do texto de Alin Aleixo merece ser citado: “Cerca de 70% da ração – servida à vontade – é composta por farinha de grãos como milho, trigo e soja. Claro, todos transgênicos e entupidos de pesticidas(.…). O que há nos outros 30%? Bom, aí a coisa complica… Há farinha de carne e ossos bovinos, por exemplo. Ao ver minha surpresa horrorizada com o fato, um dos funcionários da Seara fez questão de me lembrar que aves são onívora (sic). Eu fiz questão de lembrá-lo que em nenhum momento da evolução galinhas comeram vacas… e que minhocas e insetos são ligeiramente diferentes de boi. Contudo, acabemos com a lenda urbana de que há farinha de pintinhos mortos na ração das galinhas: não há”. 

A “vaca louca” é uma doença que se originou não no onivorismo de certas espécies animais mas nocanibalismo animal induzido, entendido como a ação de ministrar descartes animais a outras espécies igualmente confinadas. Isso cria um circulo fechado onde se desenvolvem vírus, prions e bactérias que vão circulando entre espécies, ainda que como vetores, até se corporificarem num organismo vivo qualquer, onde se manifestam e se desenvolvem, assim como nos produtos com eles preparados, como a singela maionese. 

E, como nos esclarece mais uma vez Alin Aleixo: “O plasma do sangue é comprado pela indústria alimentícia – inclusive a de comida hospitalar – e de ração para animais domésticos como palatabilizante, ou seja, para tornar os sabores mais vivos. Plasma é o produto obtido do sangue fresco integral, seco por pulverização (spray-drying), o qual foi previamente separado de suas células vermelhas e brancas por meio de processo químico e mecânico. A proteína contida no plasma é formada principalmente por albumina, globulina e fibrinogênio. O resto do sangue é seco e vai parar… em ração de animais, tanto de estimação quanto de corte (caso do porco). As penas são transformadas em farinha e seguem para a indústria de ração de animais domésticos e de… peixes”.

Para quem quiser se aprofundar nesse canibalismo animal e seu impacto na civilização moderna, nada como recorrer a um antigo texto de Lévi-Strauss. Para nós, simples mortais, basta reter que essa cadeia insana, tecida pela alimentação canibal, amarra num mesmo destino os frangos, bois, porcos, peixes e todos os demais viventes que a indústria alimentar nos oferece através do appealsedutor de chefs, chefinhos, chefetes e chefões. 

Nunca um modelo de envenenamento sistemático dos consumidores foi tão propalado como virtuoso! E que não tenhamos sido pessoalmente afetados é uma questão de estatística. Você, caro leitor, é um camarada de sorte, e é com ela que conta a cada garfada…

***

Carlos Alberto Dória, conselheiro do São Paulo São, é bacharel em Ciências Sociais pela USP, com doutorado e pós-doutorado na Unicamp, tendo estudado o darwinismo no Brasil. Possui também vários livros publicados sobre sociologia da alimentação: Estrelas no céu da boca; A culinária materialista; Formação da culinária brasileira; e-BocaLivre.
 

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